13 Reasons Why é a série mais relevante da atualidade

Uma das obras de ficção mais verdadeira dos últimos tempos
por: 03 de Abril de 2017
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Segundo relatório da OMS (Organização Pan-Americana de Saúde/Organização Mundial de Saúde), um suicídio acontece no mundo a cada 40 segundos. Absurdo, não é mesmo?

Infelizmente os dados ficam cada vez piores: mais de 800 mil suicídios são cometidos por ano, e essa já é a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 à 29 anos por todo o globo, ultrapassando as mortes causadas em decorrência de doenças sexualmente transmissíveis e ficando atrás apenas de fatalidades no trânsito.

Ainda segundo a organização, o Brasil já é o 8º país com o maior índice de suicídio, e a faixa etária entre 10 e 19 anos é a que mais cresce nessa estatística.

Tá, eu sei que vocês devem estar se perguntando por que estou falando sobre dados de uma organização da ONU em um site de cultura nerd e pop. A resposta é simples: 13 Reasons Why é uma obra de ficção, mas sua história aborda problemas muito reais e sérios que transcendem as telas.

A nova série original da Netflix — que adapta Os 13 Porquês, livro do autor americano Jay Asher —, fala de Hannah Baker (Katherine Langford), uma adolescente de 17 anos que deu fim a própria vida. Mas antes, a garota decidiu contar sua história gravando em fitas cassete os treze motivos que a levaram a cometer suicídio com a seguinte instrução: se uma pessoa receber a caixa com as fitas, é porque ela tem uma parcela de responsabilidade no que ocorreu. Ela deve ouvi-las e passar para a pessoa seguinte da lista. Uma dessas pessoas é Clay Jensen (Dylan Minnette), que tenta entender por que a amiga tomou essa decisão fatal e por que ele é um dos motivos que a levaram a esse caminho sem volta.

Clay tem a chance de entender o que aconteceu com Hannah. Mas será que ele é culpado?

O seriado tem todos os elementos que caracterizam uma série teen: elenco jovem, trama que envolve romance, intriga e inimizades em um ambiente escolar, e temas normalmente abordados em obras desse tipo — como bullying, assédio, depressão e preconceito. Contudo, 13 Reasons Why vai muito além de seu próprio gênero e não pega o caminho mais fácil para contar sua história, adicionando à narrativa elementos de mistério e suspense que dão ainda mais peso para o plot central e mais profundidade para todos os personagens.

Inclusive, essa profundidade dos personagens era uma grande preocupação de Selena Gomez, que produz a série. No episódio especial intitulado Entendendo os Porquês, a cantora e atriz revela que a intenção do show é reproduzir situações reais para que o público, especialmente os jovens, possa se identificar com o que está sendo mostrado. E isso é feito com maestria.

É verdade que os personagens de 13 RW seguem os estereótipos dos seriados adolescentes. Aqui também temos os atletas que praticam bullying, as cheerleaders populares e os nerds com pouca habilidade para socializar. No entanto, o que difere a obra de outras do gênero é sua capacidade de ir além desses estereótipos e não se limitar ao maniqueísmo clássico do certo e errado, optando por trabalhar a construção (e desconstrução) dos personagens que compõem seu universo.

Além disso, a série sempre vai além. Não basta mostrar apenas o que aconteceu e o que cada uma das treze pessoas fez à Hannah. O seriado faz questão de mostrar as consequências de todas as ações. Como a garota se sente? O que acontece quando ela reprime e esconde seus sentimentos? E quando procura ajuda? E quanto as pessoas que fizeram mal à ela, o que pensam de toda a situação e, mais importante, por que pensam daquela forma?

A última vez que presenciei personagens jovens sendo retratados de uma forma tão profunda e precisa foi em Life is Strange, game lançado em 2015 que fez um enorme sucesso. Não por coincidência, o jogo da DontNod também sabe trabalhar temas como depressão, bullying, problemas familiares, drogas, estupro e as consequências disso para os adolescentes da trama.

O que leva uma jovem como Hannah a cometer tal ato? É isso que 13RW nos mostra.

Ao decorrer da temporada, os episódios vão ficando tão pesados e incômodos — devido ao suspense gerado pelo conteúdo das fitas e também pelos acontecimentos na vida de Hannah — que nem parece mais que estamos diante de uma série teen adaptada de um livro young adult, mas sim de um daqueles filmes independentes com mensagens marcantes com potencial para conquistar até o mais chato dos críticos em festivais de cinemas como Sundance.

Através da jornada de Clay guiada pelas fitas de Hannah para entender o que sua amiga estava sentindo, o público leva constantes tapas de realidade na cara. Sem exageros: 13 Reasons Why incomoda, revira o estômago e deixa um nó na garganta. Não tenho vergonha alguma de compartilhar com vocês que chorei largado pelo menos em dois momentos da temporada. E isso só acontece porque a série faz com muita eficiência o que se propõe a fazer desde o início: alertar para problemas seríssimos que afetam jovens no mundo todo, chegando ao ponto de ter servido de inspiração para a campanha #NãoSejaUmPorque, na qual internautas falam contra o bullying e mandam mensagens para as vítimas e seus conhecidos usando a hashtag.

A série está gerando debates relevantes e necessários para ajudar na prevenção de suicídio.

Sabe o cara que espalha boatos maldosos de uma menina na escola ou no trabalho? Que vaza nudes da ex-namorada? Não seja esse cara. Muito menos aquele que culpa a vítima. Também não seja aquela pessoa que deixa a amiga na mão. Não seja o pai que pressiona o filho a ser alguém que ele não quer ser, nem a mãe que está ocupada demais com o trabalho a ponto de não perceber o pedido silencioso de socorro da própria filha.

Afinal, você não quer ser um porquê, não é? Era tarde demais para Hannah, mas pode não ser para outras pessoas. Incluindo nós mesmos.