Já cansei de ouvir gente falando que Sandman deveria virar filme, que daria para transformar o universo em série, e que dá até para tirar um game assim ou assado da história. Existe uma horda de fãs e de nem-tão-fãs-assim que defendem que o mundo criado por Neil Gaiman dá pauta para muito além das HQs e dos livros do autor.

E eles estão certos mesmo. O universo que Gaiman construiu é incrível, repleto de bons personagens e cheio de referências ao “mundo real” bem aproveitadas e conectadas entre si.

Gaiman merece um sucesso novo nas telas, e Lucifer, a recém-estreada série da Fox, é a aposta da vez.

“PLEASE ALLOW ME TO INTRODUCE MYSELF…”

Lúcifer Morningstar é o anjo caído, o Diabo; é um entre muitos do universo de Neil que dão o tom de misticismo religioso, mas um dos poucos (se não o único) a dar também ao autor a possibilidade de explorar e criticar a essência humana e características enraizadas em nossa sociedade com liberdade e certo sadismo. Lúcifer é o humor negro de Gaiman.

A série parece seguir a essência do personagem e dos quadrinhos originais – até certo ponto, pelo menos. Em Lucifer, o anjo caído (interpretado por Tom Ellis) foi para a Terra na companhia de sua aliada Mazikeen (Lesley-Ann Brandt), aparentemente após ter “se aposentado” das suas funções no Inferno.

Lúcifer (de costas) e Amenadiel: muito menos atrito no encontro da série...

Lúcifer (de costas) e Amenadiel: muito menos atrito no encontro da série…

Mazikeen não é a única personagem dos quadrinhos a acompanhar Lúcifer na série: logo no primeiro episódio vemos o anjo Amenadiel (D.B.Woodside).

Contudo, as referências mais diretas meio que param por aí. O Lúcifer de Tom Ellis é bem interessante, e tem um tom convincente para o papel, mas bem pouco sádico e misterioso perto do original. Amenadiel, que se vê forçado nos quadrinhos a, de cara, fazer uma proposta para Lúcifer, fica só trocando ameaças com um discurso de “desiquilíbrio na balança” durante o episódio. E Mazikeen, coitada, uma personagem tão interessante, mal aparece para ser comentada. E isso sem falar das mudanças visuais dos personagens, é claro.

Mas nada disso é surpresa. Pensando no que é a história original – cheia de mortes, sexo, violência, diálogos muito inteligentes e ideias de proporções cósmicas – nunca que a Fox a representaria com total fidelidade. É Netflix/HBO demais para ela.

Ué, Mazikeen sem falar torto e sem rosto deformado?

Ué, Mazikeen sem falar torto e sem rosto deformado?

Mas não acredito que isso será um problema. Porque, como disse, a essência da HQ está lá. O Lúcifer de Tom continua interessante, apesar de menos Bowie e mais leve que o original. E apesar do inegável DNA de série policial procedural, Lucifer parece ser, como nos quadrinhos, sobre explorar desejos, a humanidade e tudo o que é tipo de referência mística/religiosa de um jeito divertido e inteligente.

O DIABO DE HOJE É O MÉDICO DE ONTEM QUE É O ANJO DE ANTEONTEM…

Uma impressão que ficou muito forte para mim foi de terem usado outras séries como referência.

Primeiro, as séries do gênero. Não tem como ver Lucifer e não pensar um pouco nas falidas Forever: Uma Vida Eterna e Constantine – que talvez seja uma referência ainda mais forte que a primeira por também vir dos quadrinhos e ter essa aura mística. Toda essa coisa do “ocultismo urbano” presente nessas séries é reproduzido aqui também, seguindo a mesma linguagem e estética delas. Inclusive, para aqueles que são da minha geração (galera da faixa dos 30 anos, por aí), fica fácil de lembrar de Angel: O Caça-Vampiros (da primeira temporada, para ser mais exato) ao ver esse piloto.

Outra referência está nas séries que trabalham com protagonistas babacas e dilemas humanos, como é o caso de Dr. House, e um guilty pleasure meu, Nip/Tuck – também conhecida no Brasil como Estética.

Jogo para quem não viu Lucifer e viu Rush: de qual série é a cena?

Jogo para quem não viu Lucifer e viu Rush: de qual série é a cena?

Mas talvez a referência que mais precise ser mencionada é a antiga série do próprio protagonista Tom Ellis, Rush – Medicina VIP. Isso porque o Lúcifer da série tem muito do Dr. William Rush, seu antigo personagem. Tanto na forma de se vestir, como de falar, de agir… De ser metido, independente, ambiguo… Pensando bem, aproveito para dar a dica: Rush talvez seja uma boa para quem gostar de Lucifer.

O PROBLEMA: NÃO SEGURA NEM REZANDO

O piloto começa muito bem, e apresenta personagens interessantes em situações que te prendem por um tempo. Contudo, conforme você avança, o enredo fica preguiçoso. A trama fica com cara de procedural policial, perde o charme, e os diálogos ficam fracos.

Tudo que brilha e conquista antes parece enfraquecer até o fim do episódio, que se encerra sem gancho e sem vontade de cativar o público.

CADÊ O CIRCO PEGANDO FOGO?

Lucifer é fiel na medida certa (leia: possível para a Fox, e respeitoso para os fãs neste quesito), e cheio de potencial. Tem atores bacanas em personagens bem feitos, e tudo naquela base linda criada pelo Gaiman que dispensa comentários. Com o desenvolvimento certo, pode ser a próxima The Flash entre fãs de quadrinhos, e talvez até a nova House dos viciados em séries mais desprendidos das HQs.

Contudo, se ficar com histórias medrosas, enredos preguiçosos ou com qualquer outro elemento clássico do DNA de policial procedural – que a série (infelizmente) parece ter herdado – ela poderá falhar como Constantine falhou com seus fãs, ou até pior.