Existem filmes de terror, feitos para nos assustar ou horrorizar de alguma forma. E existem aqueles que não pertencem ao gênero, mas que conseguem ser tão perturbadores quanto. Seja por uma estética bizarra ou por uma proposta de mundo caótica demais, algumas histórias que não foram feitas para nos aterrorizar conseguem cumprir muito bem esse papel.

Com isso em mente, e aproveitando que muita gente ainda não tirou as fantasias de Halloween, preparei uma pequena lista com os melhores filmes de terror que, na verdade, não pertencem ao gênero.

AVISO: essa publicação tem SPOILERS.

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE (1971)

Ok, vamos começar do mais óbvio: A Fantástica fábrica de Chocolate.

No filme, Willy Wonka (Gene Wilder) espalha 5 bilhetes premiados em seus chocolates. As cinco crianças que conseguirem bilhetes, irão visitar sua incrível fábrica de doces por um dia — tudo com o real intuito de achar um herdeiro para Wonka.

Nada de assustador, certo? Errado! Primeiro porque Wonka sugere já ter escolhido quais crianças iriam acompanhá-lo em seu tour, fazendo do excêntrico um mentiroso e um stalker. Um stalker DE CRIANÇAS. Segundo, porque todos as conversas com o empresário fazem parecer que ele é um sociopata, e que talvez esteja sob o efeito de drogas das mais fortes. E, por fim, porque grande parte dessas crianças tem um destino cruel, e ele não faz nada para salvá-las.

Talvez o que falte para esse filme ser um terror seja só uma leve mudança no nome (será que a tradução literal do original serviria? Willy Wonka e a Fábrica de Chocolates?), a revelação de que as crianças são parte do ingrediente secreto, e talvez um leve twist no final para nos deixar na dúvida se Willy passou mesmo a fábrica para Charlie (Peter Ostrum) ou se ele estaria enganando a criança e seus parentes para colocá-la na máquina de algodão doce mais tarde.

E para essa versão dar certo, só se fosse feita em cima do filme de 71. Porque por mais que o Tim Burton tente, seus filmes nunca serão ameaçadores.

A HISTÓRIA SEM FIM

A História Sem Fim é um clássico para quem sabe o que significa Sessão da Tarde. O filme conta a história de Bastian (Barret Oliver), um jovem que recorre frequentemente à sua imaginação para fugir dos problemas da vida. Fugindo de uma briga com seus colegas, Bastian acaba em uma livraria onde descobre o livro “A História Sem Fim”, que o transporta para um mundo mágico onde sua imaginação pode se tornar real. Um mundo que depende do menino para ser salvo da destruição.

Agora, vamos pensar com calma na situação toda: para começar, no momento em que a história se inicia, Bastian é vítima constante de bully, está com problemas nas aulas, é reprimido por seu pai por imaginar demais, e acaba de perder sua mãe. Falamos aqui de uma criança que claramente tem problemas, que está infeliz e transtornada.

O mundo de “fantasia”? Apesar de ser recheado de criaturas fantásticas, ele é cheio de lugares e personagens sombrios — e é, no fim das contas, um mundo em destruição.

Para franquia toda virar um terror, dar aquele toque intencional de pesadelo aos elementos fantásticos, talvez adicionar um pouco de gore e forçar o protagonista a voltar constantemente para esse mundo — o que meio que já acontece em todos os filmes.

Fora que seria incrível ver Jack Black, que estava na trilogia original, presente num filme de terror de verdade. (discount Goosebumps)

FEITIÇO DO TEMPO

Na minha opinião, o mais assustador de todos.

No filme, o repórter Phil Connors (Bill Murray), um cara egocêntrico, aparentemente frustrado e sem dúvida insatisfeito com sua realidade, fica preso em um loop temporal, vivendo de novo e de novo um dia horrível de sua vida — por 12.395 dias (33 anos e 350 dias), aparentemente.

Dá para imaginar isso? Repetir um dia de merda por quase 34 anos sem parar? E mesmo mudando alguma coisa, o nível de loucura provocado é tão grande que Phil tenta se matar algumas vezes, para colocar um fim em sua miséria.

Dizem que o filme é inspirado em uma crença budista, que diz que, de acordo com a vida que levamos, ou reencarnamos como um ser melhor, ou voltamos para a mesma vida triste de antes.

Se em Feitiço do Tempo o personagem de Murray só consegue quebrar o ciclo depois de arrumar cada erro de sua vida, para transformar essa versão em um terror completo seria só nos fazer acreditar que esse seria o caminho para a liberdade — para, então, iniciar um novo loop no dia seguinte.

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E aí? Conseguiu imaginar como ficariam esses filmes se fossem pensados como terror? E para você, quais filmes assustam, mas não deveriam? Conta aí!