Bryan Lee O’Malley é um dos meus quadrinistas favoritos.

O autor de Scott Pilgrim Contra o Mundo e Repeteco (Seconds) tem um estilo irreverente que se faz presente em todos os elementos que compõem suas obras: seus traços, a maneira com a qual ele desenvolve seus personagens e os diálogos entre eles, a construção das histórias…

O grande mérito do autor é que ele consegue fazer com que essa irreverência aproxime seus personagens e suas tramas dos leitores, criando empatia e identificação — mesmo dentro de contextos surreais e absurdos.

Com À Deriva (Lost at Sea, no original) não é diferente. O primeiro quadrinho de O’Malley só ganhou uma tradução nacional este ano pela Geektopia, o selo de HQs da editora Novo Século. E devo dizer que foi uma experiência curiosa conhecer a primeira obra do autor após virar fã dos trabalhos que vieram depois.

À Deriva conta a história de Raleigh, uma adolescente que está no meio de uma viagem de carro com colegas da escola que ela mal conhece. A princípio, a trama parece bem simples. No entanto, conforme vamos conhecemos a protagonista através de sua própria narração, a HQ começa a ganhar um tom e um significado mais sério do que o imaginado.

Raleigh tem problema para se socializar. É nítido — principalmente para os leitores que sofrem dos mesmos problemas, como eu mesmo — que a jovem sofre com ansiedade e depressão. O interessante aqui, é que em momento algum isso é abordado direta e objetivamente. E digo que isso é interessante pelo seguinte: como a história é narrada pela própria Raleigh, nós acompanhamos a garota sofrendo para entender o que se passa em sua própria cabeça e em seu próprio coração. Exatamente como acontece na vida real.

Raleigh sofre por não se sentir confortável com outras pessoas. Foto: Déspina Kortesidou, do In Whirl of Inspiration. (link na imagem)

Com o desenrolar da história, nós descobrimos o principal motivo (o famoso e inconveniente gatilho) que desencadeou a crise atual de Raleigh, e vê-la tentando lidar com isso e ao mesmo tempo se permitindo socializar aos poucos para conhecer melhor seus colegas dá uma personalidade muito interessante para a protagonista e também para a obra como um todo.

Agora que vocês já sabem que À Deriva é mais profunda do que parece, chegou a hora de falar um pouco sobre o que torna a obra mais irreverente. Afinal, não seria uma história de O’Malley se não tiver uma pitada de surrealismo e bom humor, não é? Então lá vai: Raleigh jura que tem algo de errado com ela e acredita que um gato roubou sua alma. ¯\_(ツ)_/¯

Toda a história envolvendo os gatos e a alma de Raleigh é essencial para o seu desenvolvimento como personagem. É através desta trama que a jovem consegue se abrir para seus colegas, e a forma com a qual eles absorvem essa revelação ajuda a dar o tom mais leve e irreverente característico do autor.

Ao longo da história, Raleigh se aproxima dos colegas e consegue se abrir. Foto: Déspina Kortesidou, do In Whirl of Inspiration. (link na imagem)

Ler À Deriva é como ver os esboços iniciais que resultaram nas obras de O’Malley que vieram depois — e não digo isso como uma crítica, apenas como constatação.

Apesar de não ter a mesma irreverência de Scott Pilgrim ou a maturidade de Repeteco, a obra tem todos os elementos que tornam as obras do autor únicas e cheias de personalidade própria.