Há algum tempo, escrevi aqui no Metagene sobre O Divino, uma graphic novel baseada na história real dos irmãos gêmeos Johnny e Luther Htoo, que com apenas 12 anos de idade já participavam de ações de guerra na Tailândia.

Diversas histórias da nossa sociedade são pesadas, tristes e surreais demais. Justamente por isso, alguns escritores de histórias em quadrinhos optam por utilizar elementos ou recursos que, não apenas amenizam — ainda que mantenham a reflexão que cada história propõe — a brutalidade por trás da realidade, como também ajudam a aproximar o leitor da narrativa e a facilitar a compreensão dos acontecimentos narrados.

No caso de O Divino, o autor Boaz Lavie optou por criar um background sobrenatural e místico para explicar as lendas urbanas que surgiram com a fama dos feitos das crianças em guerra. Já o sueco Art Spiegelman utilizou gatos e ratos como personagens para representar nazistas e judeus na aclamada e premiada Maus: A História de um Sobrevivente.

Em Os Leões de Bagdá (Pride of Baghdad, no original), Bryan K. Vaughan faz algo parecido. Publicada originalmente em 2006 com o selo Vertigo, a graphic novel voltou a ser assunto por aqui com a republicação pela Panini, em 2018.

A história da HQ é baseada em um acontecimento real: em 2003, durante a invasão americana no Iraque, um bombardeio estadunidense atinge Bagdá e quatro leões acabam escapando do zoológico local e passam a vagar por uma cidade devastada pela guerra. No quadrinho, acompanhamos o leão Zill, as leoas Safa (a mais velha e cega da “alcatéia”) e Noor, e Ali, o filhote da mais jovem.

Após o bombardeio, os leões e leoas encontram uma cidade mergulhada no caos.

A graphic novel de Vaughan, com ilustrações belíssimas de Niko Henrichon, é fiel ao acontecimento no qual ela é baseada, tanto em seu início como em seu desfecho — não se preocupem, não vou dar spoiler. O que o autor fez de especial, foi dar voz e personalidade aos seus leões e leoas do título, criando uma espécie de fábula política cheia de metáforas e alegorias. Aqui, os personagens principais e secundários são os animais, e a presença humana na trama é pontual.

Os Leões de Bagdá não chega a utilizar personagens antropomorfizados no nível de Blacksad, por exemplo, que apresenta animais extremamente humanizados. Vaughan prefere que seus protagonistas sejam mais próximos do que vemos em O Rei Leão, onde os animais mantém suas respectivas características físicas, e suas falas e pensamentos são traduzidas somente para o leitor.

Toda a construção dos personagens e seus respectivos backgrounds é simplesmente genial. É possível identificar em cada um dos protagonistas uma espécie de crítica ou representação à algo do mundo real. Um bom exemplo disso são as leoas e como uma se opõe à outra: Safa é idosa e experiente, e sabe como ninguém como a vida na selva pode ser cruel por ter vivido boa parte de sua jornada em liberdade. Por isso, é a favor de viver para sempre em sua jaula, onde ela está segura e é alimentada. E Noor, que foi para o zoológico ainda jovem, sonha fugir de seu cativeiro, sendo uma espécie de rebelde que tenta se unir à outras espécies para colocar seu plano em curso.

Imagem icônica da HQ: falsa sensação de segurança, ou liberdade custe o que custar?

As duas são representações de diferentes tipos de pessoas que viviam no Iraque no período da guerra e sob a ditadura de Saddam Hussein: Safa simboliza as pessoas que, por terem vivenciado coisas muito ruins na vida, acabam se apegando a suposta estabilidade que o regime de ditadores como Hussein proporcionam — mesmo que tenha que abrir mão de sua liberdade para isso. Já Noor representa aquela parcela de pessoas mais jovens do Iraque que lutam por sua liberdade. O contraponto das duas é um dos elementos centrais da trama: afinal, a liberdade pode ser dada, ou é apenas conquistada?

A história é recheada de outros simbolismos que valem a pena a rápida menção: Ali, filhote de Noor, é a representação das crianças iraquianas que nasceram durante o regime de Hussein e que não têm ideia de como as coisas realmente funcionam. No fim, elas são as maiores vítimas.

A presença de um enorme urso como uma espécie de antagonista também é uma clara referência aos devotos e brutais soldados de Saddam. Inclusive, nos extras da HQ, Vaughan comenta que, segundo artigos da época, um urso negro também escapou do zoológico e matou três civis. O autor acrescenta que o urso de seu quadrinho é uma ótima metáfora para os leais ao ditador que utilizavam de violência para manter o status quo.

O simbolismo presente no personagem Ali é, talvez, o mais forte de todos.

Bryan K. Vaughan é um dos mais aclamados e premiados quadrinistas dos últimos anos. O autor tem em seu currículo obras como Ex Machina, Y: O Último Homem e Saga (um dos meus quadrinhos favoritos). Ou seja: qualquer coisa que esse cara assine, vale a pena ser lido, e Os Leões de Bagdá não é diferente.

Apesar de ter sido criada há mais de 10 anos, a obra e seus simbolismos são atemporais. Ainda que seus diálogos às vezes soem um tanto rasos, Os Leões de Bagdá carrega diversos significados em seus personagens e cenários que propõem reflexões profundas. Lindamente ilustrada e brutalmente real, a graphic novel é uma daquelas HQs que valem a pena manter na prateleira.