Quando pensamos na estrutura do comportamento humano, podemos compará-la a uma enorme casa em constante construção?

Vejam só: nós levantamos muros, derrubamos paredes e construímos enormes corredores sem fim. Cômodos são vazios e desabitados, e os quartos apinhados em acúmulos dos quais não conseguimos nos desfazer. Assoalhos são velhos, os carpetes manchados foram há muito tempo arrancados e, por baixo deles, não temos nem mesmo um chão para pisar. Os lances de escadas parecem intermináveis com seus degraus exaustivos, enquanto as janelas de vidro frágil e as portas pesadas conseguem sacudir a estrutura do nosso enorme mausoléu particular com apenas uma batida.

A descrição dessa casa é perfeita quando pensamos em uma metáfora para o comportamento humano, mas funciona também como uma breve introdução ao enredo de A Maldição da Residência Hill, série da Netflix do diretor Mike Flanagan, que tem no currículo O Espelho (2013), Hush (2016) e Gerald’s Game (2017). Lançada como uma minissérie para o serviço de streaming e adaptada do livro homônimo de Shirley Jackson, A Maldição da Residência Hill traz para a TV uma das histórias de terror mais famosas de todos os tempos.

Hill House — como os fãs gostam de chamar — já teve outras duas releituras no universo audiovisual, ambas com o nome The Haunting: uma delas brilhantemente executada em 1963, e outra não tão excelente assim em 1999. No entanto, nenhuma delas tem a mesma força e qualidade que a versão de 2018.

A sinopse de Hill House para a Netflix parece simples e até um pouco clichê: no início dos anos noventa, sete membros de uma família se mudam para uma velha mansão localizada no alto de uma colina. Olivia (Carla Gugino) e Hugh Crane (Henry Thomas), junto com seus cinco filhos, ganham a vida reformando mausoléus abandonados para vendê-los por preços altíssimos. Com a residência Hill não é diferente. O casal e as crianças habitam a enorme mansão durante todo o verão, até que a reforma esteja concluída e a casa seja vendida. Entretanto, como o título já entrega, a casa é mal assombrada, e como já é de se esperar em uma história de mansões e fantasmas, os adultos e as crianças vivem ali as piores noites de suas vidas.

À princípio a fórmula parece rasa e um prato cheio para mais uma produção repleta de jumpscares. Afinal, são os sustos sem contexto que garantem que as salas de cinema permaneçam cheias, abrindo espaço para a existência de outros produtos do gênero — como a produção televisiva da FX, American Horror Story.

O que parecia ser um clichê do gênero se revela como uma obra especial e memorável

Contudo, se engana quem pensa que Hill House segue pelo mesmo caminho. A série de Flanagan não existe apenas para dar vida às lendas urbanas ou para pregar sustos no espectador, mas também para criar uma conexão especial entre a obra e seu público, identificando traços da psique humana em eventos catastróficos, traumas de infância e conflitos inacabados. O diretor consegue criar uma relação entre o terror fictício e o pânico real, fazendo de seu seriado uma obra de ficção dedicada ao “realismo fantasmagórico”, como uma espécie de estudo de personagens e suas relações, tornando o roteiro de A Maldição da Residência Hill um texto extremamente humano.

Isso também é reforçado na estrutura narrativa da série: dos dez episódios, seis deles são dedicados aos seus personagens, recontando o passado e desenvolvendo o presente, além de criar a expectativa para um possível futuro — recurso que lembra bastante outras obras televisivas que seguem uma fórmula quase “Lindelofiana”, como Lost e The Leftovers.

Temos também um paralelo traçado entre as duas famílias que habitam e habitaram a mansão: os Craine, que vivem uma relação imperfeita porém saudável, solidificando a ideia de família em uma estrutura de amizade e companheirismo; e os Hill, uma família póstuma construída por suas relações passionais de amor doentio, desencarnando o mundo como puro sofrimento e dor.

Fazendo a conta e comparando os números, conseguimos entender que uma família precisa se alimentar da outra para continuar existindo, fazendo dos Craine o prato principal para os Hill. A casa é a verdadeira antagonista da história e serve de isca aos protagonistas de seu enredo: uma vez presos na mansão, nenhum deles conseguirá sair do lugar com vida.

Quando a luz piscar duas vezes, significa que você deve voltar para a casa…

Felizmente, seis dos sete Crane conseguem escapar da casa, ainda que apenas fisicamente. Após vinte e cinco anos, Luke (Julian Hilliard/Oliver Jackson-Cohen), Nell (Violet McGraw/Victoria Pedretti), Shirley (Lulu Wilson/Elizabeth Reaser), Theo (McKenna Grace/Katie Siegel) e Steven (Paxton Singleton/Michiel Huisman) continuam emocionalmente conectados à antiga mansão da colina. Traumas, vistos em nossa própria cultura como assombrações mentais, acompanham cada um dos irmãos por todos os dias de suas vidas. A diferença é que dessa vez os fantasmas deixam de ser fisicamente visíveis, tornando-se problemas palpáveis e ainda mais assustadores do que as antigas lendas urbanas: alcoolismo, vícios, depressão clínica, comportamento autodestrutivo, isolamento social, paralisia de sono e tantas outras assombrações reais do universo adulto.

Um ponto importantíssimo da série está ligado às memórias e em como a mente humana lida com cada uma delas. Assim como Gyllian Flynn em Objetos Cortantes, Flanagan e sua equipe entendem como funcionam as feridas do passado. Eles sabem como a memória humana trabalha quando lida com conflitos de uma outra vida, e como o acesso visual para tais situações torna-se seletivo — um fator determinante para o storytelling da série.

Construída em dez episódios que variam entre cinquenta minutos e uma hora, Hill House veio ao mundo como um desafio à Flanagan. Além de abordar os terrores da mente humana e justificar os detalhes do desenvolvimento de cada criança junto de seu fantasma pessoal, o diretor tinha a missão de sustentar o medo e a tensão por dez horas seguidas. Inicialmente, desacreditava-se na existência de um produto final não reticente nos três aspectos levantados. Hoje, elogia-se o cuidado e o empenho técnico que existe na série. Tudo aqui merece destaque: a direção, o casting, a estrutura narrativa de flashbacks, a competência da montagem ao conectar o passado com o presente utilizando recursos visuais da própria mise-en-scène e etc.

Falando da parte técnica, é impossível escrever sobre essa série sem dar destaque para o sexto episódio, Duas tempestades, considerado pela crítica como um dos melhores materiais de terror/horror dos últimos anos — além de ser um dos melhores episódios já feitos para a era de ouro da televisão americana. Neste episódio, temos o contraponto, a reunião, a construção de diálogos e a capacidade do espectador de vivenciar o presente como membro da família Crane. Além disso, conseguimos encontrar em um único episódio a totalidade da sétima arte expressa na televisão, conseguindo prender a atenção de quem assiste em sua dolorida metáfora e construção visual de belíssimos — e longuíssimos — planos sequência.

Duas Tempestades é um dos melhores episódios de séries de 2018

A Maldição da Residência Hill recebe elogios por todos os lugares. A série é descrita como assustadora do início ao fim, mas não por seu assoalho que range, por seus corpos em decomposição ou jumpscares escondidos nas sombras. O medo vai além, somando elementos do já conhecido gore com a psique humana e o seu poder de resignificar elementos fora do espectro de obviedade.

Solidificando-se hoje como uma das melhores séries de 2018, Hill House consegue comunicar à que veio em seus pequenos detalhes e conexões, fazendo o público refletir sobre seus próprios medos e traumas, questionar a própria psique e imaginar um encontro com seu próprio ego mirim, trazendo a tona a fantasia de que, se um dia pudéssemos nos encontrar com a personificação de nossa infância, este encontro seria tão assustador quanto um fantasma em decomposição pendurado no teto da sala gritando por socorro.