O último episódio de Sons of Anarchy foi exibido no dia nove de dezembro de 2014. O buzz gerado pelos acontecimentos finais já passou, e novos dramas já ocupam o espaço deixado pela série na grade televisiva. Apesar disso, confesso que ainda não superei o adeus. Mesmo depois daquele post sentimental que fiz para o Metagene, meu coração de fangirl continua carregado de amor pelo SAMCRO, e é exatamente por isso que não demorou muito para que mais um post relacionado a finada série aparecesse por aqui.

Deixando o desabafo e as lágrimas de lado, dessa vez vou falar de Sons of Anarchy em sua construção narrativa. Ou melhor: discutir toda a simbologia por trás da construção e desenvolvimento dos personagens e da história.

Então tirem seus coletes de couro do armário, e me acompanhem nesta nova viagem.

[ Aviso: este post contém spoilers].

Uma série do século XXI inspirada na dramaturgia do século XVII

William Shakespeare foi um poeta e escritor inglês. Considerado o mais influente dramaturgo do mundo, Shakespeare já era respeitado em sua época, e mesmo com o passar dos séculos, continua sendo estudado, revisitado e reproduzido. Nosso querido Will (somos íntimos), escreveu trinta e oito peças de teatro, atuou em suas próprias produções e colaborou em muitas outras.

Kurt Sutter é um roteirista, diretor e produtor americano. Foi showrunner da aclamada série The Shield, grande sucesso do canal FX. Respeitado no show business, Sutter é conhecido por misturar violência e sentimentalismo em suas produções. Escreveu cinco roteiros de grande notoriedade, produziu sete obras audiovisuais e atuou em duas de suas grandes produções.

O que teriam em comum o maior dramaturgo de todos os tempos e o showrunner cadeira cativa da emissora americana? Existem duas respostas que acabam se atrelando e caindo no mesmo lugar: Hamlet e Sons of Anarchy.

Acham que não faz muito sentido? Sei que parece algo absurdo criado pela minha mente insana, mas eu juro que não é! Para quem não sabe, o diretor já declarou publicamente que SoA foi concebida em sua mesa de roteiro como uma revisitação a Hamlet.

E na primeira parte do post, vou abordar as semelhanças da obra de Shakespeare com a série de Kurt Sutter.

Nascido para reinar

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Repararam na loirice do cast?

Hamlet começou sua jornada como um jovem e ingênuo príncipe dinamarquês. Da mesma forma, Jax Teller veio ao mundo para reinar – neste caso, uma gangue de delinquentes mal encarados – iniciando os desdobramentos de sua história como um rapaz de vinte e poucos anos que ainda acredita nos ideais de seu motoclube.

Assim como o pai de Hamlet, John Teller –  presidente do SAMCRO e pai de Jax – também passou desta para melhor. Ambos foram assassinados por aqueles que um dia foram considerados seus braços direitos: um pelo irmão, e o outro pelo melhor amigo. E é através do conhecimento da traição que a chacina começou a tomar forma.

Como um bom personagem vingativo, Hamlet quis uma morte planejada para o seu tio. Já Jax… Bom, Jax postergou a morte de Clay por duas temporadas (quem aqui não torceu para que aquele maldito morresse de uma vez por todas quando a morte passava ali, do ladinho do cretino?). Uma das grandes questões de Hamlet está nessa postergação do assassinato do tio, chegando até mesmo a levantar questões de psicanálise quanto a decisão do protagonista.

O que nos leva a outro ponto muito importante: a construção de Jax. O jovem que começou todo bonzinho, acabou enlouquecendo, surtando e pirando antes mesmo de perguntar para o espelho se “ser ou não ser” era mesmo a questão. Jax acabou “sendo” sem ter muita escolha, e durante as sete temporadas da série, vimos sua personalidade de bom moço se desconstruir, dando lugar a um sociopata capaz de matar a própria mãe.

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E Hamlet, enlouqueceu? Não só enlouqueceu como matou metade do elenco da peça (oi Jax!), e assim como o príncipe, Jax Teller conseguiu encontrar a redenção nos braços da morte (já está permitido chorar?).

Detestando personagens do início ao fim

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Fica até difícil começar esse tópico sem xingar Claudius e Clay, dois desgraçados que amamos odiar. Em Hamlet, Claudius, o irmão do rei da Dinamarca, decidiu que seu irmão deveria bater as botas para que ele tomasse o trono.

Já em Sons of Anarchy, Clay foi o responsável pelo “acidente” de John Teller. Mas tratando-se de Clay Morrow, tudo pode piorar, não é mesmo? Para ele, não bastava assassinar o seu melhor amigo. Para completar, foi preciso casar-se com a viúva do cara e assumir a posição de presidente do clube. O babaca não era apenas alguém completamente fora da casinha, estava a quarteirões de distância dela mesmo.

Claudius também assumiu o papel de marido da viúva de seu irmão, colaborando para que o príncipe ficasse ainda mais transtornado do que o esperado. Mas como Sutter e Shakespeare prezaram pela justiça, essas duas pessoas de nomes com iniciais iguais e comportamentos horríveis, pagaram por seus crimes, indo para as suas respectivas e merecidas valas.

Descansem em paz? Jamais!

Representando o melhor e o pior

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Mãezona total e mulher forte! Três hoorays para essa Ol’ Lady.

Vocês não tem ideia do quanto eu amava a Gemma. Assistir aquela mulher contornando os problemas com seu jeitinho nada delicado, era para levantar do sofá e aplaudir de pé.

De qualquer forma, Gemma teve tanta culpa no cartório quanto Clay, e nós sabemos que a rainha do SAMCRO foi responsável por um grande número de mortes na última temporada devido a suas ações um tanto quanto duvidosas.

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Já Gertrude, a matriarca da família Hamlet, era tão devota ao seu filho que chegava a dar agonia (mesmo não tendo causado uma carnificina pela cidade de Charming, como Gemma o fez). Ambas pareciam ter uma certa obsessão em mantê-los por perto, e é claro que isso transformou as respectivas relações de mães e filhos em algo turbulento. Exatamente por isso que Gemma e Gertrude sofreram com as transformações dos filhos, ambos beirando a insanidade em uma dor profunda.

O fim das duas personagens tomaram rumos distintos, mas para mim, os filhos foram os responsáveis pela tragédia final (seja pelo veneno no copo de vinho ou pelo tiro na cabeça a sangue frio). Sem contar, é claro, com as frases de despedida das duas personagens, que mostraram total devoção por seus amados meninos. Que coisa de gente pirada…

A sabedoria matou o velho… É essa a frase, não é?

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Como se não bastasse odiar Clay por ações que não chegamos a presenciar em seu passado, ele conseguiu ampliar esse sentimento ao fazer o que fez com Piney Winston.

Assim como Piney, Polonius veio ao mundo séculos antes com o mesmo propósito: ser o respeitado conselheiro da família real. Fosse a família dinamarquesa ou a white trash americana, a representação do velho sábio esteve sempre muito presente nas duas obras através desses personagens, fosse para concordar, discordar ou chamar a atenção quando necessário.

Na peça de Shakespeare, Hamlet traiu a confiança do conselheiro e tirou a vida de Polonius. Em SoA, podemos colocar as mãos para o céu e agradecer a Kurt Sutter por ter tirado o trabalho sujo do colo de Jax e entregá-lo para Clay. Sutter foi genial nessa sublime mudança: manteve a postura do protagonista intacta e nos deu mais um motivo para disseminar a discórdia contra o energúmeno padrasto de Teller. Nada como ver o ódio crescer por personagens que o merecem, não é mesmo?

As diferentes formas do amor

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Se levarmos ao pé da letra a obra de Shakespeare, Opie Winston deveria ter nascido no enredo de Sutter como uma bela mulher, que teria como função ser o interesse romântico de Jax Teller. Mas em Sons of Anarchy, o amor apareceu em diferentes formas, e nada poderá mudar a minha opinião de que o amor que Jax tinha por Tara não conseguiu ser maior do que a sua amizade com Opie (além disso, não podemos ignorar que o nome de Opie deixa escancarado que ele representou Ophelia).

Opie e Ophelia são extremamente próximos aos protagonistas, e ambos assistiram a morte de seus pais pelas mãos dos traidores. Em Hamlet, Ophelia, tomada pela loucura, entregou-se para a morte em uma dramática cena de suicídio. Em Sons of Anarchy, após a morte de Piney, Opie perde a razão e passa a enlouquecer exatamente como Ophelia, causando uma enorme ruptura entre o antigo e o novo Opie.

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Vamos combinar: se vocês não choraram junto com Jax durante o espancamento, existem buracos no lugar dos corações.

Sem mais nada a perder, Opie Winston entregou aos telespectadores a cena mais comovente dos sete anos de série. Não foi bem um suicídio, mas foi um sacrifício emocionante.

Se existe algo pior do que um traidor…

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Juice Ortiz esteve por muitos anos na minha lista de personagens favoritos de SoA. Sempre achei o personagem carismático, divertido, infantilóide e muito bonzinho. Eu tinha todos os motivos para gostar do Juice. Afinal, quem não tinha?

Mas se tem uma coisa que os fãs aprenderam assistindo Sons of Anarchy é que, pior do que ser um traidor, é ser um delator. O SAMCRO detesta fofoqueiros. Mesmo porque, nessa roda de gente maluca e criminosa, a verdade pode ser trinta mil vezes pior do que a mentira.

Juice acabou se tornando justamente o cara “língua de trapo” do clube e, assim como Rosencrantz e Guildenstern perderam a confiança de Hamlet, Juice perdeu a confiança de Jax. Confesso que fiquei com um pouco de dó do personagem nas duas últimas temporadas, já que grande parte da confusão que ele causou veio como consequência de suas maiores características: ser levemente tapado e extremamente burro. Pobre Juice…

Nem preciso dizer que todos os envolvidos nas fofocas das duas obras estão a sete palmos do chão, certo?

O fantasma do manuscrito

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Sim, fantasmas existem. Seja de forma literal ou figurada, eles aparecem para assombrar os nossos dias. Ainda que de maneiras diferentes, Hamlet e Jax foram assombrados pelos fantasmas de seus falecidos pais até o último suspiro que deram em vida.

John Teller estava em todos os lugares: fotos, citações, lembranças de velhos amigos, uma segunda família na Irlanda e um manuscrito, dedicado a seu único filho. Durante muito tempo na série, observamos Jax imerso em um passado vivido por seu pai, criando um vínculo fantasmagórico entre o filho vivo e o pai morto. Era recorrente para o telespectador ouvir a voz de John Teller em off enquanto Jax vasculhava as páginas do diário (e como já é de se imaginar, muito da revolta nutrida por Jax fora semeada pelo manuscrito).

Em Hamlet, o fantasma do rei apareceu de forma literal para o príncipe, deixando bem claro que seu irmão Claudius foi o grande responsável por seu envenenamento. Essa passagem tem uma ligação direta com uma cena do seriado, na qual John sugere em uma das páginas do manuscrito que Clay seria o responsável pelo dia de sua morte.

Mórbido, não?

Alguém precisava viver

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Pois é, nem deu para acreditar que Sons of Anarchy deixou sobreviventes em sua conclusão.

Chibs Telford foi para Jax o que Horatio foi para Hamlet. Os dois eram homens calmos e racionais, e estavam sempre ao lado de seus governantes para garantir que nenhum deles perdesse a cabeça e beirasse à loucura.

Chibs também era um dos meus favoritos. Não só por ter sido um cara centrado e consciente de tudo o que acontecia ao seu redor, mas também pelo humor que carregava em seus trejeitos de escocês hooligan. Ele foi, sem dúvida alguma, o grande parceiro de Jax durante toda a sua jornada como presidente do SAMCRO.

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De verdade, esses caras merecem uma medalha de ouro por saírem inteiros depois de tanta tragédia na cidade de Charming.

Assim como Horatio, Chibs permanence resistente até o último momento da série. E junto com Tig Trager, podemos dizer que foram os únicos que sobreviveram a formação da primeira temporada.

Uma das melhores séries dos últimos anos inspirada em uma das maiores obras de todos os tempos

Quando pensamos em Hamlet e em Sons of Anarchy, as primeiras palavras que usamos para descrever ambas as histórias são: morte, traição, sangue, morte, morte e mais morte (eu já mencionei morte?).

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Após todas as comparações do seriado com a obra clássica, é impossível não louvar ainda mais o incrível trabalho de Kurt Sutter na construção do roteiro, criação e desenvolvimento dos personagens. Criando diversas analogias e metáforas, o diretor conseguiu conceber um dos melhores seriados dos últimos anos inspirado em uma das melhores obras de todos os tempos.

E engana-se quem pensa que a genialidade para por aqui… Mas isso fica para a segunda parte do post, que você confere clicando aqui.