Quando Life is Strange: Before The Storm foi anunciado durante a E3 2017, não fiquei muito animado. A ideia de um prequel para um jogo interativo não me pareceu interessante. Afinal, qual seria a graça em tomar decisões se o destino dos personagens já estava traçado? Além disso, como seria interagir no universo de Arcadia Bay sem a habilidade de controlar o tempo de Max, que era um dos grandes diferenciais do primeiro título?

No entanto, quando comecei a jogar O Despertar, o primeiro dos três episódios de Before The Storm, lembrei de algumas conversas que tive com amigos sobre jogos interativos — mais especificamente, sobre as reais consequências das nossas escolhas nos rumos das histórias.

Não vou me aprofundar nesse papo porque esse não é o foco do texto, mas cheguei à conclusão (bem óbvia, pra falar a verdade) de que, nem todo jogo de drama interativo é como Heavy Rain, que dá aos jogadores diversas possibilidades de caminhos e finais com base nas decisões que tomamos ao longo da história — e não tem problema nenhum nisso.

Títulos como o próprio LiS da DontNod e grande parte dos da Telltale (como The Wolf Among Us e The Batman, por exemplo) têm como foco principal a construção dos personagens de seus respectivos universos sob a nossa própria ótica. Afinal, que tipo de personalidade você quer construir para Chloe Price e como você quer que os demais personagens a vejam? Que tipo de relação você quer que ela tenha com Rachel Amber?

Assim como nós, as decisões de Chloe são definitivas. Como será a SUA Chloe e sua relação com os personagens que coabitam seu universo?

Justamente por isso percebi rapidamente que estava errado por questionar a existência deste prequel. Chloe se mostrou tão protagonista quanto Max no primeiro jogo da franquia, e poder controlar a personagem e se aprofundar em sua história com Rachel — personagem que, mesmo não estando fisicamente presente, é importante e fundamental para o título de estreia — foi uma decisão muito acertada que serviu para adicionar ainda mais camadas para uma personagem tão aclamada pelos fãs.

A ausência de um elemento paranormal na trama e na mecânica do jogo — como mencionei no começo do texto em relação aos poderes de Max — não fizeram falta alguma. Aliás, é exatamente o contrário. O grande diferencial de BtS em relação ao seu antecessor está justamente no peso das escolhas dos jogadores. Na pele de Max nós tínhamos a possibilidade de ver o que aconteceria e mudarmos quase tudo caso as coisas não acontecessem do jeito que esperávamos.

É claro que cada ação tem seus prós e contras. Contudo, o fato de termos esse poder à nossa disposição tornava o peso das decisões mais leves se comparados aos do prequel, porque Chloe não é Max. Em BtS não podemos alterar o rumo da história após fazermos merda ou falarmos algo no momento errado. As decisões do prequel tem um peso maior porque elas são mais definitivas do que no primeiro game. Assim como, olhem só, a vida.

Ao deixar de lado as características sobrenaturais do título de 2015, Before The Storm acaba aproximando ainda mais jogadores e personagens para amplificar o que Life Strange tem de melhor: uma boa história que aborda de forma precisa e realista a juventude e diversos temas e problemas que rodeiam a rotina de uma pessoa nesse período tão complicado da vida — como bullying, drogas, solidão e, principalmente, sobre achar o seu lugar no mundo e aprender a lidar com mudanças e perdas.

Além disso, sem esses elementos paranormais e sobrenaturais atrelados à narrativa, Before The Storm consegue entregar uma história mais simples e, por consequência, mais redondinha e sem furos — diferente do primeiro LiS, que acabou se perdendo um pouco na conclusão de sua trama por não dar respostas para várias teorias e mistérios criados pelo próprio game através de suas diversas (e incríveis) simbologias.

Não me entendam mal: eu AMO o primeiro jogo. Mas é inegável que BtS se beneficiou pela ausência do elemento sobrenatural da trama do primeiro game.

Após diversas horas de jogatina, o sentimento é de uma despedida amarga. Quem jogou o primeiro título sabe muito bem o destino das protagonistas, e a cena final do último episódio, Inferno Vazio, faz questão de nos lembrar disso. Agora, após nos apaixonarmos por Rachel e reafirmarmos o nosso amor por Chloe, a tristeza é ainda maior ao lembrarmos do que as espera num futuro próximo e que nem mesmo os poderes de Max poderiam reverter esse destino cruel.

Mas o verdadeiro adeus aos marcantes personagens da primeira temporada de LiS está no episódio bônus da pré-venda do game, Despedida — que é, cronologicamente, o primeiro episódio dos dois jogos (e talvez o mais emotivo de todos).

Como o próprio título diz, o capítulo trata da despedida de Max, que está de partida com seus pais para Seattle. O último dia da jovem e futura fotógrafa e Chloe juntas é emocionante. Andar pela casa dos Price é reconfortante porque, assim como Max, jogadores também sentem como se conhecessem cada pedacinho daquele lugar tão visitado ao longo de todos os oito episódios nos últimos três anos (somando ambos os títulos).

A emocionante despedida de Max e Chloe antes dos acontecimentos dos dois jogos.

A última aventura de piratas das duas nos força a revisitar cada cômodo da casa, e a angústia de Max em contar ou não para sua melhor amiga sobre sua iminente partida acaba tomando um rumo inesperado e uma nova proporção quando descobrimos que aquele dia também foi marcado pela morte do pai de Chloe — fato crucial para o desenvolvimento da personagem ao longo dos dois jogos.

Reviver esse momento tantas vezes mencionado ao longo da série é emocionante. Assim como em Inferno Vazio, a cena final deixa um gosto amargo: no fim, não é apenas Max quem está se despedindo de Chloe e de Arcadia Bay, mas nós, jogadores, também.

Que venha Life is Strange 2, e que seus novos personagens sejam tão especiais quanto Chloe, Max e Rachel, e que suas tramas sejam tão marcantes quanto as das três jovens.