Apesar dos problemas, Stranger Things continua divertidíssima!

Entre acertos e erros, segunda temporada amplia o universo da série
por: 01 de novembro de 2017
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Antes de mais nada, preciso dizer que faço parte do grupo de pessoas que preferia que Stranger Things fosse uma minissérie. A primeira temporada foi uma surpresa muito agradável, com uma história bem definida e fechadinha do início ao fim. Se ela ficasse intacta, seria perfeita.

No entanto, a série da Netflix fez muito mais sucesso do que se poderia imaginar. Com seus elementos oitentistas carregados de nostalgia, personagens cheios de personalidade e um elenco carismático dentro e fora das telas, Stranger Things se tornou um dos seriados mais populares e cultuados da atualidade — e, por isso, garantiu rapidamente sua renovação.

Apesar de preferir que ela tivesse uma temporada única, não posso negar que fiquei feliz com o anúncio da continuação e, como todo fã, estava super empolgado pra conferir o que os irmãos Duffer reservaram para o segundo ano do show.

Como era de se esperar, a série voltou com a proposta de ser maior e mais ambiciosa do que a temporada anterior, e o vilão da temporada reflete muito bem essa intenção: no lugar de Demogorgon — um monstro do Mundo Invertido que agia por instinto — agora o bicho da vez é o gigantesco Devorador de Mentes, um ser pensante e com um objetivo que coloca em risco não apenas os cidadãos da cidade de Hawkins, mas também o mundo como o conhecemos.

De uma maneira geral, o saldo da segunda temporada é positivo. Contudo, Stranger Things 2 tem alguns problemas que não só a tornam inferior ao seu ano de estreia, como também ligam o sinal de alerta para o futuro de Eleven e companhia.

AVISO: CONTÉM SPOILERS!

Começando pelo problema mais grave da temporada: Eleven (Millie Bobby Brown). Não a personagem em si, mas a função dela no segundo ano. Logo no primeiro episódio a série revela que a personagem conseguiu escapar rapidamente do Mundo Invertido após o final da primeira temporada. Agora, ela vive escondida de todos com o xerife Hopper (David Harbour) até que seja seguro para ela viver uma vida normal. Por Hopper ter perdido sua filha e Eleven ter sido tirada de sua mãe ainda pequena, a dupla acaba construindo uma relação paternal que dá muito certo.

A nova dupla funciona muito bem, mas…

O problema é que, dos nove episódios da temporada, a garota passa oito deles longe de Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo), Lucas (Caleb McLaughlin) e do arco principal. Ou seja: ela aparece para todos apenas no final pra fazer o Jesus Cristo e salvar a porra toda. A série perde muito com essa separação, já que a amizade dela com os meninos é uma das melhores coisas do primeiro ano.

Além disso, no meio do caminho ainda temos A Irmã Perdida, o episódio que definitivamente é o pior de toda a série. Nele, Eleven vai atrás de Kali (Linnea Berthelsen), outra sobrevivente dos experimentos do laboratório. (Afinal, se ela é a número onze, existem ou existiram outras dez antes dela, não é mesmo?)

O episódio é simplesmente muito estranho (sem trocadilhos). Não parece Stranger Things, e sim alguma versão genérica de uma série de adolescentes com poderes da The CW. Os amigos de Kali são clichês ambulantes e, diferente dos outros personagens da série, não têm nenhum carisma. Se todos morressem no episódio, um total de zero pessoas se importariam.

X-Men genérico, Stranger Things? Apenas pare!

Nos extras da temporada, os Duffer até tentam explicar a decisão de criar uma jornada individual para Eleven, dizendo que ela precisava se encontrar com sua “irmã” para aprender a canalizar seus poderes — e que sem isso não poderia selar o portal do Mundo Invertido como fez no episódio final. Contudo, a impressão é que foi apenas o jeito que eles arrumaram para manter uma personagem overpower longe da ação, já que ela poderia resolver todo o arco no segundo episódio, caso estivesse presente.

E como se não fosse ruim o bastante, o episódio também prejudica demais o ritmo da temporada. Ele é o capítulo sete, e é exibido logo após um acontecimento marcante que inicia o ato final da trama — que é retomado exatamente do ponto de onde parou no capítulo final. É uma quebra de continuidade muito brusca que acaba não justificada.

Se esse episódio fosse um especial para ser exibido entre uma temporada e outra, talvez ele fizesse mais sentido, ainda que destoe demais do que é Stranger Things — e isso me preocupa em relação ao futuro da série, já que não sabemos se esses personagens e arcos serão abordados nos próximos anos. Mas colocá-lo no meio da temporada apenas quebrou o ritmo. Fica a lição para os Duffer: esse é um caminho que ST definitivamente deve evitar para continuar fiel a sua essência.

A jornada de Eleven é algo que poderia ser explorado (melhor) em episódios especiais ou spin-offs.

O problema da Eleven não é o único de Stranger Things 2, ainda que os outros sejam menos graves: o arco envolvendo Nancy (Natalia Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton), por exemplo, reduz os personagens a quase figurantes — especialmente Jonathan, que basicamente é um banana a temporada toda — e ainda rende uma cena bizarra em que um homem oferece bebida para os dois e os incentiva a passarem a noite juntos — o que, de fato acontece. Afinal, é super normal dois menores transarem na casa de um desconhecido creepy com incentivo do próprio regado a álcool.

No entanto, apesar dos problemas, ST 2 consegue entreter e divertir, assim como em seu ano de estreia.

O elenco infantil continua sendo o grande diferencial e também o fio condutor da série — destaque para a ótima atuação de Noah Schnapp fazendo um traumatizado Will. A dinâmica do grupo e a química entre os atores mirins estão ainda melhores, e a adição de Max (Sadie Sink) à turma é muito bem-vinda para suprir um pouco a ausência forçada de Eleven e também para ajudar na transição das crianças para pré-adolescentes — o que seria inevitável acontecer em algum momento.

Continuo amando esses personagens! <3

Hopper e Joyce (Winona Ryder) continuam sendo os pilares que sustentam o lado dramático da série, e os momentos em que eles contracenam com o elenco mirim são memoráveis — especialmente aqueles entre a nova dupla formada por Harbour e Millie. Apesar da atuação mais contida neste segundo ano, Winona continua chutando bundas interpretando a mãe preocupada e destemida, e as adições de Sean Astin e Paul Reiser na nova temporada só enriquecem sua atuação e o elenco já estrelado.

Mas a grande surpresa da continuação é o desenvolvimento de Steve (Joe Keery). Um babaca na primeira temporada, agora o personagem não fica preso nem no arco do triângulo amoroso com Nancy e Jonathan, nem no estereótipo de valentão da escola — agora do irmão de Max, Billy (Drace Montgomery). Além disso, Steve contracena com o elenco infantil em boa parte do segundo ano, o que acaba rendendo boas cenas de comédia e ação — especialmente com Dustin — que mostram um novo lado muito agradável do ex-bad boy.

Se me dissessem que Steve seria um dos melhores personagens de ST 2 eu diria que a pessoa usou drogas do Mundo Invertido…

Entre erros e acertos, Stranger Things 2 é uma boa continuação da ótima primeira temporada. Os personagens em sua maioria continuam muito bons, a trilha sonora é certeira como sempre ao setar o clima do show, e o universo da série foi expandido — ainda que com ressalvas.

Só fica o alerta para que os Duffer entendam que essa expansão precisa ter um limite para que a série não fuja dos elementos que fazem dela única e especial. Stranger Things é o terror leve de cidade pequena. Sair de Hawkins para abordar uma história de vingança com uns X-Men genéricos é pior que ficar preso no Mundo Invertido…