Uma das coisas que filmes de super-heróis precisam para darem certo é um bom grupo de personagens. Essa foi a lição de Guerra Civil, e talvez de Batman Vs Superman também. E, de todas as falhas de X-Men: Apocalipse, essa é a maior.

AVISO: este texto tem spoilers.

Para não ser injusto, é importante começar dizendo que o novo filme de Bryan Singer sobre os mutantes tem seus acertos. O elenco, em grande parte, funciona, e em alguns casos o ator até melhora ou salva personagens mal elaborados. O fan service está lá, na medida. Ele eleva as apostas de seu antecessor, Dias de um Futuro Esquecido, trazendo um problema de escala global e mutantes ainda mais poderosos. E, claro, também tem aquele que, para mim, foi o maior acerto de todos: a cena do Mercúrio, uma “cópia melhorada” da famosa cena do herói no filme anterior, e o único momento de ação que realmente funciona no filme todo. E só!

O filme tem o pior conjunto de personagens dos últimos anos. Personagens tão fracos ou mal utilizados que cada ponto da trama — a ambientação da história, a relação entre os mutantes, a ameaça de Apocalipse (Oscar Isaac), o gancho para o futuro da franquia… — acabou sofrendo com isso.

Desta vez, nem a boa atuação do Fassbender salva.

Desta vez, nem a boa atuação do Fassbender salva.

Para começar, vamos falar da premissa mínima do filme. A ideia era fazer uma boa adaptação de super-heróis com personagens famosos, utilizando uma história icônica dos quadrinhos (ou melhor: um conflito contra um grande vilão que está sempre presente nas HQs), reformulada para funcionar nos anos 80. Só que o que vemos aqui são cópias sem sal dos mutantes dos quadrinhos (e até da versão deles na primeira trilogia deles no cinema), com cenas de ação e efeitos que parecem inferiores até quando comparados com o primeiro filme da franquia, de 16 anos atrás. E nada dos elementos dos anos 80 também. Com muito esforço, é possível identificar a ambientação da história em um ou dois figurinos e um easter egg ou outro, mas no geral, tudo no filme segue o mesmo estilo Bryan Singer de sempre — que, aparentemente, serve para passado, presente e futuro.

Destrinchando sobre os protagonistas e antagonistas da história, vamos falar de Apocalipse, um personagem genérico e sem profundidade. O que era para ser a versão cinemática de um dos vilões mais famosos (e fodas) dos X-Men — o primeiro mutante, “um deus entre os humanos” —, acabou se tornando um antagonista qualquer que só está ali para atrair fãs e sugerir um aumento de dificuldade nos obstáculos dos heróis em relação aos filmes anteriores.

E seus motivos para agir, bem como seus planos e o raciocínio para ter selecionado Psylocke (Olivia Munn), Anjo (Ben Hardy), Tempestade (Alexandra Shipp) e Magneto (Michael Fassbender) para se tornarem seus Horsemen, permanecem esquecidos ou mal trabalhados até o rolar dos créditos.

Mística ganha um protagonismo sem sentido, justificado pela aparição pública da personagem no filme anterior da franquia. Ela é colocada como uma heroína misteriosa e um símbolo de esperança para sua raça – que poderia ser uma ideia interessante, se não fosse pela atuação sem vontade de Jennifer Lawrence. E Singer parece não querer a personagem no filme também, porque a mutante mal aparece em sua verdadeira forma, e usa seu famoso poder de transformação apenas uma ou duas vezes.

O Professor X (James McAvoy), que deveria ter uma parte maior na história, acaba sendo só um recurso para envolver os X-Men no enredo — e, sinceramente, para fazer alguma coisa acontecer de verdade nela. Mesmo parecendo um peão dos planos de Apocalipse ao invés do tutor e líder da equipe que irá enfrentá-lo, a trama só sai da apresentação de personagens depois de algumas situações que ocorrem quase que por acaso com o personagem.

Os demais mutantes parecem brinquedos falsos tentando ser vendidos pelo preço de action figures de verdade. São introduzidos, em sua maioria, de modo interessante, mas logo perdem sua chance de brilhar, culpa da história mal formulada e de um script sem personalidade. Não é à toa que Singer utiliza um grande volume de heróis que já estiveram em seus filmes anteriores: parece que, para o diretor, apresentar e desenvolver personagens sem que o público tivesse uma referência mínima seria um desafio grande demais.

Uma equipe sem carisma, sem personalidade e sem sal.

Uma equipe sem carisma, sem personalidade e sem sal.

No fim, X-Men: Apocalipse marca mais um passo errado da FOX com a franquia. O filme, que talvez fosse visto com muito mais aceitação nos anos 90, deixa bem claro que Singer e seus roteiristas pararam no tempo e não acompanharam nada do que tem sido produzido de heróis para os cinemas.

Se o mínimo para uma história de super-heróis dar certo é ter personagens interessantes, Apocalipse é o filme do gênero mais errado que vi nos últimos tempos.