“Fortaleçam as mãos cansadas, firmem os joelhos vacilantes; digam aos desanimados de coração: “Sejam fortes, não temam! Seu Deus virá, virá com vingança; com divina retribuição virá para salvá-los” — Isaías 35:3,4

A terceira temporada de Demolidor é uma reviravolta de níveis bíblicos para a série, que é colocada de volta aos trilhos dos quais jamais deveria ter saído.

Para mim, a segunda temporada do Demolidor é um desperdício terrível de elenco e de tempo. Tudo do segundo ano foi idealizado para servir de base para a trama de Os Defensores — outro fiasco que agradou pouquíssimas pessoas e que provavelmente influenciou nos cancelamentos de Luke Cage e Punho de Ferro. Em ambos os casos, o roteiro foi apresentado de forma apressada e chata, sem piso sólido efetivo pra que pudéssemos absorver e entender de forma crível o que estava acontecendo.

Justamente por isso, muitos ficaram receosos com a terceira temporada de Demolidor — e eu me incluo nessa lista. O enredo do terceiro ano ainda era um pouco nebuloso, e pela primeira vez a Netflix fez o favor de não entregar tudo direto nos trailers — o que resultou em muitas surpresas agradáveis nos 13 novos episódios que vieram. No entanto, para a minha alegria, tudo isso ficou para trás e finalmente o Demônio de Hell’s Kitchen vive uma aventura sem qualquer dependência de outras histórias.

Ainda não me conformo como Rei do Crime está incrível com esse conjunto Branco

Por mais que boa parte dos fãs não tenha se apegado à Elektra, a morte da personagem foi a gota d’água para que Matt Murdock (Charlie Cox) perdesse o rumo. Sua vida dupla já balançava em função da ameaça de Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio) ainda na segunda temporada — o que fez com que Matt resolvesse se tornar o Demolidor em tempo integral, fazendo justiça com as próprias mãos.

A queda do prédio no final dos Defensores causou muitas lesões físicas e psicológicas, fazendo com que Matt perdesse temporariamente seus sentidos aguçados. Para piorar tudo, o advogado ainda tem que lidar com a notícia de que Fisk estava saindo da prisão para trabalhar junto com o FBI. Isso acaba de vez com a sua fé no sistema, em Deus e em si mesmo. É desgraça atrás de desgraça, e no meio de tudo isso ainda rolam descobertas sobre o passado de sua família. Você chega a ficar exausto por ele, dá pena de verdade.

Enquanto Matt segue agindo nas sombras, Karen Page (Deborah Ann Woll) e Foggy Nelson (Elden Henson) continuam crescendo como personagens ao ganharem bem mais espaço nesta temporada — incluindo episódios quase inteiros dedicados a cada um. Karen segue com seu trabalho de repórter e assume posteriormente uma das frentes públicas de resistência à soltura de Fisk. Descobrimos também um pouco sobre o seu passado e a sua relação conturbada com sua família — um dos pilares para os comportamentos ímpares de Karen ao bater de frente com o ameaçador Rei do Crime. Já Foggy, ao descobrir que o sistema também se vendeu para Fisk, decide participar da corrida eleitoral para se tornar Promotor de Justiça, utilizando como bandeira que pretende colocar Fisk de volta na cadeia em nome de todos do bairro de Hell’s Kitchen que sofreram na mão do crime organizado alimentado pelo vilão.

A grande cena da temporada (e uma das grandes cenas da série toda)

Eu defendo com unhas e dentes desde a primeira temporada que o Wilson Fisk do D’Onofrio é, tranquilamente, o melhor vilão de todo universo compartilhado Marvel. Ainda assim, eu só não esperava que o personagem pudesse ficar AINDA melhor. Fisk é aterrorizante por ser apenas um humano. Ele não tem superpoderes e não fez pacto com nenhum ser sobrenatural. Ele é naturalmente intimidador ao conduzir  um controle psicológico sob as pessoas — tanto através de sua fala, quanto de sua força física. As próprias gesticulações de suas mãos dão ritmo e reforço à forma calma com a qual o vilão conduz seus diálogos. É tão difícil desviar a atenção, que chega a ser quase hipnótico.

E é justamente com essas ferramentas que o personagem faz sua transição efetiva de um apaixonado Wilson Fisk para um renascido Rei do Crime. Entre cenas fortes e incansáveis — e incríveis — discursos, fica o destaque para o momento em que Karen confronta Fisk em uma sequência brilhante, cheia de ameaças vindas de ambos os lados e atuações impecáveis de Ann Woll e D’Onofrio — para mim, a melhor cena da temporada inteira. Eu nunca imaginei que poderia ficar TÃO tenso em uma série da Marvel com duas atuação tão incríveis. É o mais puro Rei do Crime que presenciamos ali, perdendo o controle para uma destemida repórter.

Wilson tem duas grandes vítimas que também são dois novos personagens introduzidos nessa temporadas: os agentes do FBI Rahul Nadeem (Jay Ali) e Benjamin Poindexter (Wilson Bethel). Nadeem é um cara comum, que sofre com muitas contas a pagar e com a sua estagnação profissional. Tudo o que ele mais deseja é se tornar um grande agente que serve ao país para dar orgulho para sua família. Acreditando estar ajudando o sistema ao prender grupos criminosos com a ajuda de Fisk, Nadeem acaba sendo mais um dos muitos peões que o vilão coleciona ao longo de sua vida.

Já Benjamin Poindexter — ou apenas ‘Dex’ — é o nosso Mercenário. Em uma origem totalmente reformulada para a série, Dex foi uma criança criada em orfanato que desde cedo apresentava sinais de psicopatia. Com intensos tratamentos e acompanhamento profissional, cresceu e se tornou agente do FBI. Sua vida começa a desandar justamente quando conhece o Rei do Crime, que enxerga o potencial de Dex  para se tornar seu novo capanga principal. À partir desse momento, a relação dos dois começa a ser desenvolvida e resulta na perda de controle de Dex, que vestido como falso Demolidor, inicia sua trajetória como novo vilão e rival de Matt.

O grande convencimento do vilão acontece justamente por conta do tempo que o seriado dedicou ao seu desenvolvimento. Fisk estuda Dex — outra cena incrível — e passa a controlar cada passo, cada relação e cada rota do personagem. O Mercenário se torna um oponente insuportável e (quase) imbatível para Matt, Karen e Foggy. Cada vez que o trio achava estar finalmente à frente de Dex e Fix, os vilões se mostravam preparados para tudo. Vale o destaque também para todas as lutas entre o Mercenário e o Demolidor, que são brilhantemente coreografadas — com direito a um plano-sequência maravilhoso de onze minutos. No fim, Punho de Ferro realmente acendeu uma luz vermelha para todos com suas péssimas coreografias na primeira temporada.

Momentos antes da desgraça começar

Nesse novo capítulo de Demolidor temos conflitos sobre fé, sobre corrupção, sobre confiança e, principalmente, sobre a responsabilidade de cada um de nós perante à sociedade.

A temporada é uma loucura só, cheia de plot-twist críveis que mantém um bom ritmo para a trama. O terceiro ano é um prato cheio para os fãs do herói, que podem acompanhar uma temporada com um bom roteiro, atuações de níveis altíssimos e desenvolvimentos de personagens impecáveis, sem deixar um único “i” sem pingo.

A temporada termina fechadinha e pronta para uma possível quarta temporada. Tão pronta quanto eu estou para conferir uma nova leva de episódios do Homem sem Medo. Agora é torcer para que a série não tenha o mesmo destino das já canceladas Luke Cage e Punho de Ferro.