Eu tenho um jeito muito peculiar de avaliar a qualidade dos livros que leio: quanto pior minha noite de sono, melhor costuma ser o livro. É coisa minha, não me julgue. Isso porque, quando a história é boa, não paro nem no final do capítulo, onde geralmente meu cérebro já está gritando, dizendo que se eu não for dormir logo, vou acordar um lixo no dia seguinte. Só quero continuar lendo pra chegar o mais rápido possível ao final. É evidente que o resultado são noites de sono curtas e agitadas. E eu não durmo bem há 3 dias.

Se estou cansado? Muito! Se estou feliz? Pra cacete! Se bateu um arrependimento? Apenas um: não ter lido Jogador N° 1 antes.

Este romance de 2011, escrito por Ernest Cline, pode ser resumido em uma palavra: referências. Estamos ouvindo esse vocábulo com certa regularidade nos últimos tempos. Isso porque parece ter virado moda não ser original criar conteúdos que fazem referência às obras que o antecederam.

O exemplo mais recente que posso citar é Stranger Things, o seriado de ficção científica em estilo retrô da Netflix. Os geeks e nerds foram à loucura com a produção. E apesar de a história do seriado, por si só, ser realmente muito boa, a decisão de ambientá-la na querida década de 80 — fazendo referências sutis mas inquestionáveis a E.T. – O Extraterrestre, Goonies e outras obras — foi o que mais agradou o público. Você pode não ter feito todas as conexões, mas elas estão lá, apelando para nostalgia dos fãs e homenageando produções que marcaram uma época.

Uma aventura sci-fi, rolês de bicicleta, e aquela persistente (e sinistra) escuridão noturna. Tem muito E.T. em Stranger Things.

Uma aventura sci-fi, rolês de bicicleta, e aquela persistente (e sinistra) escuridão noturna. Tem muito E.T. em Stranger Things.

Mas em Jogador N° 1 as referências vão um pouco mais além. Elas não são apenas simples homenagem a cultura pop, estrategicamente colocadas aqui e ali. Elas são uma parte fundamental de toda a história do livro de Cline, ultrapassando o próprio significado da palavra referências. Ficou mais interessante, né?

A história de Jogador N°1 se passa em um futuro não muito distante, no ano de 2044. A humanidade entrou em colapso. Crise energética, poluição, desnutrição, pobreza, desemprego generalizado, doenças, desigualdade social agravada. O futuro de Cline é uma junção de todas aquelas teorias pessimistas que afirmam que a humanidade está caminhando para um buraco sem fundo. O planeta Terra em Jogador N° 1, só não é um caos completo pois algo ameniza a realidade da população mundial: o OASIS, um universo virtual para onde todos podem fugir e encontrar alguma felicidade. É no OASIS que as pessoas do futuro jogam, estudam, interagem e se divertem. Um misto de MMORPG com rede social, onde é possível viver uma segunda vida.

Logo após falecer, o criador do OASIS, James Halliday, deixa para os jogadores uma surpresa escondida dentro deste imenso universo simulado: nada menos do que toda a sua fortuna e o direito de controlar o próprio OASIS. Para chegar a ele, os jogadores  precisam ter o mesmo amor e fascínio de Halliday pela cultura pop dos anos 80. É isso que os protagonistas Parzival, Aech, Art3mis, e todos os outros caça-ovos — como se denominam os jogadores em busca do easter egg — são: verdadeiros exemplos de geeks.

E a lista de coisas que os personagens devem aprender e absorver é gigantesca. Arcades, filmes, bandas musicais, seriados de TV, desenhos animados, livros, jogos de tabuleiro, jogos de videogame, tecnologia… O período do final dos anos 1970 ao início dos ano 1990 foi bastante movimentado e não faltaram elementos para Cline poder citar em sua obra. Um trabalho genial do autor, reunindo todo esse conteúdo e envolvendo cada pedaço em sua narrativa.

E esta é uma das coisas mais legais de Jogador N° 1. Cline faz as referências serem o astro principal de seu romance, não uma muleta para apoiar a narrativa ou agradar um público. Não que homenagear obras clássicas seja um problema, mas a capacidade do autor de ter ido além do clichê, conseguindo originalidade, é espetacular.

Cline criou uma obra de ficção futurista, mas que ao mesmo tempo, apela ao carinho por coisas antigas que nos são tão familiares. O Senhor dos Anéis (cuja trilha sonora estou escutando agora, enquanto escrevo esse texto), Blade Runner, a banda canadense de rock Rush, os antigos consoles Atari, o icônico Pac-Man, jogos clássicos de arcade como Galaga, o herói japonês Ultraman e até o divertidíssimo grupo britânico Monty Python foram chave para construir a história de Jogador N° 1. E eu não citei nem uma mísera parte de todo conteúdo mencionado pelo autor.

Cena de Monty Python em Busca do Cálice Sagrado, filme que levou Parzival a conquistar a primeira chave de Halliday.

Cena de Monty Python em Busca do Cálice Sagrado, filme que levou Parzival a conquistar a primeira chave de Halliday.

Tem referência pra todo gosto. É bem provável que você não pegue todas, mas são tantas que você sem dúvida vai se relacionar com algumas delas. Admito que eu mesmo não sou um bom exemplo de geek, pois minha memória não colabora comigo, mas me identifiquei com diversos nomes, e esse é um dos motivos que vai fazer você gostar de Jogador N° 1. Porque se tem uma coisa que todo bom geek ama é ter seus conhecimentos colocados à prova.

O livro também desenvolve profundamente outro aspecto bastante interessante para a alegria dos nerds (eu incluso): Jogador N° 1 nos leva a imaginar como será o futuro do nosso mundo daqui alguns anos. Ele nos faz pensar em como nosso cotidiano está se modificando. Como nossas relações interpessoais podem se transformar completamente, pois estamos cada vez mais conectados uns aos outros virtualmente. A nossa sociedade pode mesmo entrar em colapso. E o mais chocante de tudo é que estamos próximos disso tudo.

O futuro cyberpunk criado por Cline — assim como outros futuros distópicos — sem dúvida nos serve de alerta.

Apenas para deixar um exemplo, o que não faltam são notícias sobre como o mercado de eSport — o tema foi capa da revista Época Negócios deste mês — está se tornando uma modalidade lucrativa. Tem cada vez mais gente passando mais tempo na frente do computador e fazendo desse hábito um meio de vida. A sensação é que Jogador N° 1 parece estar invadindo nosso mundo e o autor nos estimula a pensar seriamente em equilibrar nosso relacionamento com o mundo virtual.

Esqueça profissões normais como publicitários, advogados, médicos... As próximas gerações já sonham em ser gamers.

Esqueça profissões normais como publicitários, advogados, médicos… As próximas gerações já sonham em ser gamers.

E como se não fosse suficiente tanta coisa legal, Cline ainda encontra espaço para falar sobre relacionamentos amorosos, preconceito, discriminação e como esses conceitos podem adquirir outros significados em um universo virtual onde você pode criar seu avatar — uma versão mais “realista” de você mesmo. Afinal, no OASIS, você pode ser do jeito que sempre quis ser e ninguém pode te impedir.

Jogador N° 1 é disparado a melhor coisa que li neste ano (desculpa, Star Wars!) e recomendo que, se você foi lerdo como eu, corra atrás do prejuízo. Não espere a versão cinematográfica dirigida por Steven Spielberg chegar nos cinemas, cuja estreia está prevista para março de 2018.

Então seja esperto e se prepare para uma overdose de referências aos anos 80 e ótimas lembranças que vão fazer você, apaixonado por cultura pop, se sentir em casa. Jogador N° 1 é, sem dúvidas, um daqueles livros que vale guardar no coração.