A primeira temporada de Atypical demorou um pouco para entrar no meu radar. Quando finalmente entrou, algumas semanas após o lançamento, o impacto foi bem positivo e acabei devorando os 8 episódios da primeira temporada em apenas um ou dois dias. Não foi a jornada perfeita – longe disso, aliás -, mas foi bastante encantadora. Cheia de charme e com uma leveza praticamente incomparável, Atypical mostrou a sua incrível capacidade de, mesmo no meio dos dramas da família Gardner, fazer o espectador sair com um sorriso no rosto. Foi um dos novos títulos da Netflix do ano passado que não recebeu tanto destaque, mas que trouxe uma recepção positiva quase unânime do público e crítica, e agora retorna com uma segunda temporada potencializando tudo o que já tinha de bom.

A primeira temporada termina em um cliffhanger e a segunda recomeça praticamente no mesmo ponto que a série nos deixou ano passado. Elsa (Jennifer Jason Leigh) e Doug (Michael Rapaport) precisam lidar com as dificuldades de seu casamento, que está em ruínas após o caso extraconjugal dela com um bartender, Casey (Brigette Lundy-Payne) precisa lidar com a pressão de se encaixar socialmente e academicamente em uma nova e rigorosa escola e Sam (Keir Gilchrist) está em busca de um novo terapeuta após a confusão com Julia (Amy Okuda) na temporada passada, além de precisar lidar com o seu confuso relacionamento com Paige (Jenna Boyd), que agora só quer uma relação casual. 

Sam é um bom personagem, mas as melhores tramas ficam mesmo para o resto da sua família

O salto de qualidade entre uma temporada e outra é visível e aqui temos uma jornada mais firme e confortável com os seus personagens, que já estão com as personalidades estabelecidas e utilizam essa temporada praticamente como um degrau para se expandirem e se tornarem ainda mais interessantes. O grande problema disso é que, enquanto autismo de Sam continua sendo lidado com uma delicadeza e autenticidade muito bem-vinda, o personagem acaba ficando mais na laterais e perde espaço para a sua família — que, na maior parte do tempo, passa a impressão de ser mais interessante do que o próprio protagonista.

Isso quer dizer que todos os enredos mais sérios e desenvolvidos acabam ficando nas mãos dos demais personagens e Sam, que deveria ser o destaque, acaba parecendo mais o alívio cômico — e sim, Atypical é oficialmente divulgada como uma comédia, e em comédias é normal abordar os temas de forma cômica, mas existe um certo “abismo” na forma em que os demais personagens e suas storylines são tratadas. A parte cômica fica quase toda restrita ao personagem do Sam, que também fica apagado durante metade dos episódios, até mesmo quando o enredo aborda autismo. No entanto, quando a série eventualmente decide tratar o personagem de uma forma mais focada, principalmente na segunda metade da temporada, é aí onde ela verdadeiramente brilha. 

Casey continua sendo a verdadeira MVP da série

Apesar de ser uma temporada curta, com apenas 10 episódios de 30 minutos, o time de roteiristas se mostra particularmente bem afiado dessa vez, conseguindo abordar nessas aproximadas 5 horas vários enredos diferentes sem parecer desfocada ou sufocante. E por falar em enredo, os temas abordados também são bem interessantes. Sem revelar spoilers, um dos melhores eventos dessa temporada gira em torno da personagem da Casey, que, quando tudo indica que a sua jornada vai seguir um caminho previsível, uma virada de eventos bem interessante (e inesperada) acontece. É algo, por sinal, que me deixou bastante ansiosa para ver o desenrolar na próxima temporada.

Apesar de não ser perfeita, principalmente pela irônica falta de foco no seu personagem central, Atypical se estabeleceu nessa temporada como um dos títulos mais sólidos da Netflix. Sem perder a sua essência, a série aprendeu com a maioria de seus erros da primeira temporada ao mesmo tempo em que soube continuar apostando nas suas melhores cartas, dando uma boa perspectiva para o futuro. Existe um ar de inocência muito legal em Atypical, mesmo quando o enredo aborda assuntos mais sérios, que tornam desse um dos melhores programas para se assistir em um fim de semana ou de forma descompromissada. É um entretenimento leve, de qualidade e que me deixa bastante ansiosa pelo que vem pela frente!