Batman: Ano Um – Uma origem memorável

Obra completa 30 anos de narrativa inteligente e dramática
por: 26 de Janeiro de 2017
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Texto escrito por Eric Araújo.

Homem-Morcego, Cavaleiro das Trevas, o Maior Detetive do Mundo, Vigilante de Gotham, enfim… não importa como queria chamá-lo, é inegável dizer que Batman influenciou a cultura pop de tal forma que hoje ele é mais do que um ícone, é um produto em diversos meios: na TV, no cinema, ou em estampas de camiseta.

É natural que um personagem com quase 80 anos de idade passasse por centenas de histórias, arcos e sagas diferentes, Afinal, o universo de Batman é riquíssimo, seja nas peculiaridades da cidade de Gotham ou nas características excêntricas de seus vilões. Dentre os vários gibis que o herói protagoniza, um deles sempre me chamou a atenção pela fidelidade que a obra manteve à criação original de Bob Kane e Bill Finger, e também pela introdução de novos elementos que deram mais dramaticidade à trama. Estou falando de Batman: Ano Um, um clássico que completa 30 anos de existência em 2017 e merece ser lido por todos os fãs de quadrinhos.

Para entender melhor como surgiu a ideia de produzir essa obra, vamos voltar um pouco no tempo. Na década de 80, a DC estava passando por um momento de reformulação geral em seu quadro editorial, principalmente devido ao lançamento de Crise nas Infinitas Terras, uma saga que colocou ordem na casa e encerrou de vez o conceito de Multiverso.

No período Pós-Crise, a editora achou interessante dar um reboot nas histórias de alguns dos seus principais personagens para uma nova safra de leitores que estavam surgindo naquela época, já que boa parte dos heróis estavam com quase meio século de existência e ficando datados. Com isso, várias questões começaram a surgir na direção da DC, pois Batman tinha um arco extremamente bem feito e consolidado; sua criação em 1939 explicava minuciosamente como e por que Batman veio a existir. Quem teria habilidade suficiente para renovar o herói e, ao mesmo tempo, manter certos elementos clássicos de seus quadrinhos?

É no meio desse cenário que surge Frank Miller, um artista que já vinha colecionando grandes trabalhos como Batman: O Cavaleiro das Trevas e Demolidor – A Queda de Murdock. Sendo assim, a editora resolveu chamá-lo para refinar e dar mais complexidade à origem do homem-morcego, e juntamente com o prestigiado desenhista David Mazzucchelli, presentear o público com uma das melhores narrativas já feitas do herói.

Um dos maiores méritos de Frank Miller em Batman: Ano Um foi ter mostrado os primeiros doze meses de atuação do personagem sob diferentes visões, criando histórias paralelas intrigantes com dois protagonistas e, ao mesmo tempo, dando um dinamismo orgânico para cada uma delas. No começo da trama, acompanhamos a chegada do jovem Bruce Wayne, após anos de exílio, e do recém transferido Tenente Gordon à cidade de Gotham. Ambos possuem expectativas sobre os próximos anos de vida lá, e é muito interessante observar como a jornada de cada um deles é construída perante a visão que tem sobre a cidade. Enquanto um se mostra ávido e seguro para instaurar justiça, outro demonstra incredulidade e pessimismo frente à uma cidade decadente e criminosa.

Criminosos, vocês estão com os dias contados!

O cerne desse quadrinho é a luta contra o crime organizado que se enraizou no cotidiano da cidade de Gotham. De uma forma particular, presenciamos a conturbada relação de Gordon com a equipe de polícia e a sua luta diária contra o modus operandi de uma instituição corrupta que serve apenas para os interesses particulares do Comissário Loeb e seus parceiros políticos. Quanto a Bruce Wayne, é muito interessante ver a evolução do personagem que, no início, demonstra iniciativa, mas nenhum preparo em combater ladrões, agindo mais por impulso do que de forma estratégica. Apesar dos anos de treinamento, ele ainda sofre com a morte dos pais, com a dor da culpa, por achar que tudo aquilo que aconteceu foi por causa de suas escolhas na fatídica noite. E quando ele passa por um momento que quase custa a sua vida, surge o insight que fará Bruce se tornar um herói temido e intimidador.

Ao longo da narrativa, vemos as histórias de Gordon e Bruce começando a se cruzar quando Batman aparece combatendo o crime de forma eficiente, irritando os chefões de Gotham, que veem seu império de ilegalidades ameaçado por um justiceiro mascarado (e que voa!). Dessa forma, alguns deles chegam a armar um esquema para matá-lo, mas que se mostra infrutífero graças às habilidades e inteligência do personagem.

Gordon, em seu papel de subordinado, acata as ordens do chefe de polícia e começa a investigar a cidade para obter alguma informação sobre o paradeiro de Batman. A partir daí, começa um jogo psicológico na mente do detetive, já que o homem-morcego age de forma ilegal, mas com ímpeto de acabar com o sistema e de limpar a cidade de toda a criminalidade, a qual pertence o seu chefe e toda a classe política. Se tudo isso não bastasse, ele começa a passar por problemas de caráter pessoal em sua vida, afetando ainda mais sua profissão e seu complicado relacionamento com o Comissário Loeb.

De forma paralela, Batman chega à conclusão de que não poderá atuar sozinho, e sabendo que o Tenente Gordon trabalha dentro do sistema e é bem visto pela população e pela mídia, decide usar suas habilidades para ajudá-lo a receber informações decisivas a fim de incriminar os chefões da cidade. Nesse momento, mesmo sem nunca terem se encontrado antes, ambos começam a trabalhar juntos, pelo mesmo objetivo.

Gordon e Batman limpando toda a cagada em Gotham.

Outra personagem bem conhecida nesse universo e que dá as caras aqui é a Mulher-Gato. Ela é apresentada apenas como Selina Kyle, uma garota de programa que vive em uma região imersa na prostituição e criminalidade. Cuidando de uma adolescente que também se encontra na mesma vida e morando em um apartamento cheio de gatos de rua adotados, nessa história já encontramos indícios de seu alter ego felino, seja no seu interesse em praticar pequenos furtos ou em suas habilidade físicas no combate corpo a corpo.

A forma como Frank Miller decidiu conduzir a história é muito interessante, com Batman e Gordon se intercalando na narração e aproximando os protagonistas dos leitores, tornando a jornada de cada um deles muito mais pessoal e dramática. Além disso, toda a trama é visualmente bem explorada com os belos desenhos de David Mazzucchelli e as cores inseridas nos quadrinhos. O uso de ambientes urbanos, cenários mais soturnos e alto-contraste dá um certo clima noir para a obra e confere mais autenticidade a ela.

Batman: Ano Um se tornou um clássico dos quadrinhos com uma narrativa inteligente, suspense instigante e desenhos que dão o clima perfeito para um herói urbano como ele. Sua influência nos quadrinhos e no cinema é inegável, servindo de inspiração para uma versão animada lançada em 2011 e também para o primeiro filme da trilogia de Christopher Nolan, Batman Begins. Por isso leia e aprecie a origem definitiva do incansável vigilante de Gotham!