A Bela e a Fera ganha novas dimensões

Disney acerta em cheio em versão live-action e dá novo fôlego a um de seus maiores clássicos
por: 20 de Março de 2017
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Em 1991, a Disney lançou o que se tornaria um de seus maiores sucessos animados. A história de amor nada ortodoxa, a protagonista feminina forte e independente, as belíssimas canções e um pano de fundo um pouco sombrio foram alguns dos elementos que transformaram essa história em um grande clássico. Agora, 26 anos depois, como parte de uma nova era de relançamentos live-action de animações tradicionais da empresa, a Disney resolveu reimaginar A Bela e a Fera em uma versão ambiciosa, diferente e que faz bonito perante a obra original.

Mas calma. Apesar de diferente, a essência da animação original se mantém e a história é praticamente a mesma. No entanto, certas liberdades criativas foram tomadas com o intuito de acrescentar mais profundidade à trama e seus personagens, o que gerou um resultado bastante interessante. Os personagens principais ganharam histórias de fundo mais elaboradas e personalidades multifacetadas. O romance entre a dupla principal, por exemplo, agora se desenvolve de uma forma mais orgânica, menos brusca, e se transforma em algo mais crível.

Também é bem óbvia, e louvável, a preocupação da Disney em adequar o enredo a um contexto mais atual. Temas como feminismo e homossexualidade, por exemplo, estão presentes na narrativa e recebem uma abordagem delicada e de bom gosto, sendo inseridos com muita naturalidade. E isso é fantástico. Além disso, toda a discussão de anos da protagonista possivelmente sofrer uma espécie de Síndrome de Estocolmo ao se apaixonar pela Fera é dissipada através de um trabalho diligente em certas cenas, velhas e novas. As ações dos personagens agora se adequam mais às suas personalidades. Os desdobramentos da trama, portanto, acabam sendo mais consistentes.

Na nova versão, o relacionamento dos protagonistas foi desenvolvido de uma maneira mais natural.

A escolha do elenco é bastante acertada. Emma Watson ajudou a construir uma Bela diferente e ainda mais forte. Ela continua sendo uma garota de interior apaixonada por livros e que não se contenta com pouco, mas agora também apresenta novas camadas. Está mais forte, autossuficiente e não leva desaforo pra casa. A nova versão da personagem, por exemplo, é tão engenhosa quanto o seu pai, não tem nenhum medo de vocalizar as suas vontades e bate de frente com personagens como Gaston. E para quem estava preocupado com a voz da moça: não fique. A atriz faz bonito na cantoria e apenas acrescenta ao invés de diminuir.

Luke Evans, uma das melhores escalações do filme, brilha como o vilão Gaston e consegue transmitir com perfeição as muitas facetas do personagem. Inclusive, esse novo Gaston não tem mais a vaidade como único defeito. Ele é bem mais denso: é também mesquinho, egoísta e um personagem realmente mau. É um vilão de verdade e não mais um mero antagonista, o que acaba trazendo mais sentido às suas atitudes e progressão na história.

O Gaston de Luke Evans é um vilão com mais camadas do que o da animação original.

A Fera de Dan Stevens, mesmo com uma ótima performance de motion capture, acaba sendo o elo mais fraco do trio principal, mas nada que prejudique o personagem ou até mesmo a trama. O elenco de apoio, composto por nomes como Ewan McGregor (Lumiere), Emma Thompson (Mrs. Potts), Ian McKellen (Cogsworth), Audra McDonald (Garderobe) e Josh Gad (LeFou), é cheio de carisma e todos acertam muito bem o tom de seus personagens. Ninguém fica realmente apagado no filme e esse é um dos motivos pelo qual ele funciona tão bem.

Mesmo quando estamos falando de um filme com candelabros falantes e relógios resmungões, o maior desafio aqui certamente foi na reprodução dos números musicais. Não só as sequências musicais são uma grande e importante parte do filme, quanto a obra original tem alguns dos números mais icônicos da história da Disney. Por isso, não existia a possibilidade de muitos erros. Se os números musicais não funcionarem, o resto do filme também não funciona. Por sorte, eles funcionam.

Tanto as sequências musicais clássicas – como a fantástica Be Our Guest, reproduzida em uma sequência colorida, frenética e que claramente tomou uma parte considerável do orçamento do filme – quanto as novas canções (co-escritas novamente por Alan Menken) fazem bonito e se encaixam de uma forma bela e natural neste universo. Nenhum número é cansado ou aparece fora de hora. O elenco também faz bonito aqui e fica impossível apontar um ponto fraco no departamento vocal.

As partes musicais fazem justiça ao clássico da Disney.

No final do dia, as opiniões sobre o filme provavelmente serão bem conflitantes, já que não estamos falando de uma cópia carbono da animação original. As liberdades criativas tomadas aqui funcionam na maior parte do tempo, não só por acabarem dando mais profundidade à história, quanto por conseguirem adequar A Bela e a Fera aos tempos atuais de uma forma cuidadosa, sem passar vergonha. Então, por ser diferente da história original, muitos devem torcer o nariz e sair insatisfeitos. Não foi o meu caso.

Este remake de A Bela e a Fera é refrescante, delicioso e eleva o nível de exigência para as próximas produções live-action da Disney.