Essa não é a primeira e, definitivamente não será a última vez que falo de Jeff Lemire aqui no Metagene.

O autor de O Soldador Subaquático, Nada a Perder, Condado de Essex e outras obras, tem um jeito de contar suas histórias que me fascina. Através de personagens complexos e histórias profundas e assustadoramente relacionáveis com o mundo real, Lemire prende o leitor do início ao fim e, indiretamente, propõe uma reflexão ao final da leitura.

No entanto, Jeff não é conhecido apenas por suas obras autorais e exclusivas. O cara já trabalhou na Marvel — em títulos como Os Extraordinários X-Men, Velho Logan, Gavião Arqueiro e Cavaleiro da Lua — e nas séries do Homem-Animal e Frankeinstein pela DC Comics.

E é justamente por essa ligação que Lemire tem com o gênero dos super-heróis que Black Hammer, feita em parceria com os ilustradores Dean Ormston e Dave Stewart e publicada lá fora pelo selo Dark Horse, se torna uma obra bem interessante.

Publicada no Brasil pela editora Intrínseca em um belíssimo formato de capa cartão — que, em tempos de encadernados de luxo, é um alívio para o bolso — Origens Secretas, o primeiro volume, não só é uma verdadeira homenagem do autor à Era de Ouro dos heróis nos quadrinhos americanos, como também uma releitura do gênero, inspirada por obras como Watchmen e O Reino do Amanhã.

Black Hammer tem muito da essência dos super-heróis da Era de Ouro, mas sob uma perspectiva mais humana e complexa

Em Black Hammer, um grupo de heróis formado por Abraham Slam, Menina de Ouro, Barbalien, Capitão Weird, Madame Libélula e Black Hammer — herói que dá nome a série — acaba desaparecendo após uma difícil luta contra um gigantesco monstro que ameaçava destruir a cidade Spiral e a humanidade. Dados como mortos, os membros da equipe se veem presos em uma cidade que parece estar em um lugar isolado no espaço-tempo.

Dez anos se passaram e os personagens ainda não conseguiram sair deste lugar e voltar para o seu mundo. Tendo que aprender a conviver entre si e longe da vida agitada que levavam como heróis, cada um deles carrega dentro si um passado que é muito bem explorado neste primeiro volume.

E é exatamente nesse aspecto que Black Hammer se inspira em obras famosas que têm como proposta mostrar um outro lado dos seres poderosos, como as já citadas Watchmen e Reino do Amanhã: o cansaço que alguns acumulam ao longo da “carreira”; o fardo que outros carregam; a adaptação à uma nova vida que ninguém pediu… é muito bom vermos uma equipe de heróis em uma história que se preocupa em mostrar as pessoas por trás da máscara, e não apenas os seus feitos heroicos.

É interessante também como cada personagem é uma homenagem direta à diversos heróis clássicos e famosos dos quadrinhos — não só pelos poderes, mas também por suas histórias de origem. Por exemplo: Abraham é uma mistura de Capitão América com o Demolidor, enquanto Gail, a Menina de Ouro, é o Shazam com a Mulher-Maravilha. Já o Barbalien é o Caçador de Marte cuspido e escarrado.

Existem outras referências a personagens clássicos (como o Monstro do Pântano e Thor), mas em momento algum isso soa como algo genérico, e sim como homenagem e inspiração

Black Hammer é, com o perdão do clichê, um prato cheio para quem é fã de super-heróis e/ou para quem procura por uma abordagem diferente ao gênero.

Em seu primeiro volume, a série apresenta seus personagens com extrema competência e entrega uma trama que contém diversos mistérios que prendem o leitor até o fim, deixando aquele gostinho maravilhoso que temos sempre que terminamos de ler uma boa HQ: o gosto de “quero mais”. Afinal, como os heróis foram parar neste lugar estranho? Como eles vão sair? Tem alguém por trás de tudo? O que aconteceu com o próprio Black Hammer?

Vamos ter que esperar as próximas edições para descobrir. Não sei vocês, mas eu estou completamente investido nessa série.