Há muito tempo, uma pessoa resolveu criar um veículo de combate terrestre revestido para proteção extra e munido de canhões. Apesar de ser considerado o inventor dos tanques de guerra, Lancelot de Mole não foi o primeiro a lançar esse conceito de arma. A ideia já havia sido discutida uns 10 anos antes por H.G. Wells, que inventou uma máquina muito próxima da realidade em seu título The Land Ironclads. O livro, que mostra a vantagem que essas máquinas representavam em combate, foi quase uma premonição do que aconteceu na Primeira Guerra Mundial. E essa foi apenas uma das “previsões” de Wells — que também imaginou a engenharia genética, os lasers, as viagens à lua, as armas nucleares, o telefone, a televisão, o email… Isso, é claro, para citar apenas um autor dos muitos que pensaram à frente de seu tempo e que adivinharam diversas coisas que a gente vê por aí.

Muitas dessas obras e desses autores se consagraram não só pela qualidade de suas histórias, mas também por uma visão do mundo (na época) atual e do seu respectivo futuro; por sua compreensão de como eram os humanos e suas sociedades nessas épocas, de qual era a nossa realidade, e para onde as coisas rumavam a partir desse contexto. E muitas dessas obras não só parecem ter previsto um futuro, como também modelaram ele. É o caso, por exemplo, do helicóptero moderno, cujas primeiras versões foram inspiradas pelas máquinas voadoras imaginadas por Júlio Verne.

“E onde entra Black Mirror nessa história?”, você deve estar se perguntando. Te explico. Mas, para isso, vou ter que falar um pouco da nova temporada do programa.

AVISO: este texto pode ter alguns SPOILERS.

Para quem não sabe, Black Mirror é uma série de TV antológica de ficção especulativa com temas sombrios e satíricos que sempre examina a sociedade moderna e sua relação com a tecnologia (a atual e a do futuro) de um ponto de vista, na maioria das vezes, pessimista.

Em sua terceira temporada, vemos pela primeira vez o que parece ser um tema central presente em cada um de seus novos episódios. No caso, se me perguntassem qual é a palavra da vez, eu diria que é REALIDADE.

Por exemplo: em Queda Livre, o primeiro episódio da temporada, vemos um mundo no qual notas em redes sociais definem o que cada pessoa pode ou não pode, é ou não é. É uma clara crítica à preocupação exacerbada que nossa sociedade criou de ter bons resultados em seus textos, suas fotos, seus vídeos e quaisquer formas de publicação digital que é feita, e de julgar todo mundo pelos resultados obtidos. É quase como a lição que Amalia Ulman buscou passar com seu projeto Excellences & Perfections, em que a artista fingiu uma “vida perfeita” para criticar os estereótipos femininos que criamos e o narcisismo e a preocupação em demasia que temos com nossa imagem pública, principalmente a digital.

Já no segundo episódio, Versão de Testes, somos obrigados a olhar para a indústria do entretenimento e para as novas tecnologias e pensar: até que ponto o realismo das novas levas de filmes, jogos e outras mídias podem chegar? O quão real é aceitável que a realidade virtual se torne? Quais os perigos de tornar a fantasia palpável demais? — Uma série de discussões já presentes em meios acadêmicos e grupos de pesquisa, mas ainda relativamente distantes do “consumidor comum”.

A ideia da realidade virtual é incrível -- até pensarmos nela ficando real demais.

A ideia da realidade virtual é incrível -— até pensarmos nela ficando real demais.

Nesses dois episódios, as provocações constantes contribuem para que a série não só seja muito divertida, como também seja uma fonte valiosa de reflexões. Só pelo que vemos nesses exemplos já é possível listar algumas ideias levantadas pelo programa: o que é real e o que não é, como a aparência pública nos afeta, qual é o uso que fazemos das redes sociais e das novas tecnologias… e por aí vai. É quase como o que os autores que citei antes fizeram com suas obras clássicas. Quase.

Em uma crítica bem interessante publicada na Vulture — The Case Against Black Mirror, caso queira ler —, Kathryn VanArendonk coloca que o programa aposta em viradas no terceiro ato de cada episódio, sempre acompanhadas de conclusões que parecem dizer que a humanidade é pior do que se imagina. Kathryn diz que o final de cada história é, de certa forma, pesado, crítico e previsível, tudo ao mesmo tempo. E a autora também afirma que a série cria uma ilusão de profundidade; por sua estrutura — a surpresa negativa e reveladora que sempre surge no terceiro ato —, cada conto parece direcionar seu público para uma grande afirmação que, além de extremamente pessimista, carece de nuances e detalhes, e de soluções para as tristes realidades apresentadas.

Concordo em parte com ela. De fato, os detalhes da realidade apresentada em cada episódio parecem trazer informações suficientes apenas para que o público chegue a uma conclusão específica, e raramente alguma ideia de resolução aos pontos criticados é somada à discussão. “Registrar tudo pode te expor demais!”, diz o episódio Toda a Sua História, sem sequer apontar uma sugestão do quanto compartilhar da sua vida e como. “Cuidado: o ser humano não está preparado para aceitar substitutos artificiais para aqueles que partiram”, ou “quem morreu deve continuar morto”, fala o ep. Volto Já, sem nos dar detalhes de como “zumbis programáveis” seriam vistos pela sociedade. E por aí vai.

Contudo, vejo que a fórmula das histórias da série reproduz, tanto em sua estrutura quanto nas suas intenções, o formato de um conto de fadas — e isso muda tudo.

Moral da história 2.0: não se importe demais com o que os outros pensam de você.

Moral da história 2.0: não se importe demais com o que os outros pensam de você.

Diferente do 1984 de George Orwell, que coloca nos detalhes tudo o que foi imaginado pelo autor — como o Grande Irmão estaria nos vigiando e nos controlando através de guerras, do entretenimento e da mídia —, a série apenas esboça suas visões do futuro. Ao contrário dessa e de muitas das grandes obras da ficção científica, Black Mirror foca em passar uma mensagem clara e específica a cada história. Seus episódios não trazem um raciocínio mais completo e fechado, que começa nos problemas e termina em soluções. Seus episódios estão mais para contos como o do Patinho Feio, que aborda o senso de deslocamento comum a toda criança, ou como o da Cinderela, que fala do descontentamento adolescente com a vida e da busca pelos próprios sonhos, que começa nessa fase da juventude.

A série parece só querer plantar ideias simples em nossas cabeças, baseadas no mundo em que vivemos. Nada tão grande que nos faça repensar nossas vidas atuais, mas algo que provoque, que nos deixe pensando sobre o tema e que nos deixe mais alertas a algumas coisas. Aposto que, para qualquer um que já tenha visto o começo da nova temporada, o pensamento sobre o uso excessivo de aplicativos como o Instagram e os exageros praticados nas redes sociais deve ter se tornado mais frequente. Provavelmente sem muita profundidade, e quase certo que sem resultar em grandes conclusões sobre o assunto — mas o incômodo causado pelas provocações da série está lá, buzinando na cabeça vez ou outra quando uma selfie ou um número grande de Likes em um publicação acontece.

Black Mirror é o mais próximo que temos de um conto de fadas moderno. Divertido, provocativo e atual, suas histórias sobre a ciência e a sociedade do futuro deixam o alerta para a humanidade: cuidado para não ser devorada pela tecnologia.