A herança que Queen deixou para o mundo não é de se esnobar. Mesmo sem o seu icônico frontman, a banda ainda é uma das maiores do mundo e provavelmente continuará sendo por muitas gerações, com um legado que dificilmente será apagado. É natural, portanto, que comecem a surgir produções celebrando a grandiosidade dessa banda e de seus integrantes. Bohemian Rhapsody, a cinebiografia da banda, almeja a celebração desse legado incrível — e consegue fazer exatamente isso na maior parte do tempo, mas não sem tropeçar algumas vezes no caminho.

A história do filme abre em Londres, em 1970, quando Freddie Mercury (Rami Malek) ainda era um mero carregador de malas do Aeroporto de Heathrow com o sonho de ser um grande músico. Seus planos começam a dar certo quando, uma noite, após assistir o show de uma banda local, Freddie finalmente encontra a brecha que precisava para tentar uma chance no estrelato. Em pouco tempo, temos Freddie, Brian May (Gwilym Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzello) juntos, formando a banda Queen.

Não duvide se Rami Malek estiver entre os indicados ao Oscar do próximo ano

O que acontece daqui para frente não é mistério para ninguém: a banda rapidamente atinge o sucesso, vende milhões de álbuns, começa a fazer turnês pelo mundo, choca o público e sua gravadora com o seu som ousado e experimental e apresenta ao mundo um dos vocalistas mais memoráveis de todos os tempos, pela sua voz poderosa e presença de palco inigualável. Em paralelo, acompanhamos o processo criativo da banda em algumas faixas (o que resulta em algumas das melhores sequências do longa), a recepção do público e da imprensa e também a união entre aqueles integrantes, que se consideram uma verdadeira família.

É nesse desenrolar da história, no entanto, que os problemas começam a surgir. A estrutura do filme é um pouco defeituosa, com uma cronologia bagunçada, time jumps confusos e um roteiro que procura abraçar muita coisa em pouco mais de duas horas de filme e pecando por essa ambição, por esse excesso. A importância que o roteiro dá no impacto que a vida de Freddie Mercury teve na banda é óbvio, mas isso se torna um problema quando nada é explorado com profundidade justamente pela ambição exarcebada da obra. Tudo é tratado de forma rasa e as coisas acontecem e se resolvem muito rápido, com muita facilidade. Não existe um foco e isso atrapalha a experiência final.

Às vezes, você se sente como se estivesse dentro do show!

No entanto, o retrato dos integrantes da banda está praticamente impecável – o que não é de se surpreender considerando o fato que Brian May e Roger Taylor foram consultores criativos do filme. Rami Malek mostra toda a sua força e habilidade como ator e faz um Freddie Mercury incrível, como se ele estivesse nascido para interpretar aquele papel. É difícil lidar com um personagem tão grande, uma figura praticamente “mítica”, mas Malek faz isso da forma mais convincente possível e se destaca enormemente, sendo o grande alicerce do filme. Os atores coadjuvantes também merecem atenção e, mesmo diante de um personagem tão “exagerado” como Mercury, não ficam apagados e ajudam a levar a trama adiante.

Apesar disso, e apesar de Freddie ser uma figura tão curiosa e interessante, as melhores cenas estão mesmo quando a banda está unida. Ver a banda junta, conversando sobre música, criando música e, principalmente, performando essas músicas são os momentos de maior destaque de todo o filme. A sequência final, que reproduz o icônico show da banda no Live Aid (considerado, por muitos, a maior performance de rock de todos os tempos), é simplesmente poderosíssima e vale, por si só, o valor do ingresso. Os momentos em que a banda se reúne para compor suas canções também são incríveis, com destaque à sequência em que a música que dá título ao filme, Bohemian Rhapsody, é composta.

“Quem é esse Galileo?!”

Isso significa, então, que as maiores falhas começam quando o filme troca o foco do Queen para o seu vocalista, Freddie Mercury. A vida de Freddie é abordada de uma forma muito superficial, sem muitos escândalos, sem muitos conflitos, e, por isso, fica difícil de se importar muito ou de se conectar. É difícil entender sua motivação em muitas cenas e a impressão é que você sai do filme sem conhecer o personagem melhor do que conhecia antes — o que vai ao contrário do esperado em uma biografia. Enquanto, por exemplo, a sua homossexualidade não é deixada de fora, a AIDS, doença que, no final, foi responsável por levá-lo embora tão cedo, é tratada de forma tão rasa que nem parece ter tanta importância. É tudo muito discreto e muito seguro.

Os conflitos entre Freddie e a banda também deixam a desejar, sem um desenvolvimento adequado e sendo resolvidos com muita facilidade. Os conflitos nunca parecem perigosos e as decisões ruins nunca parecem tão arriscadas. É uma pena que um filme sobre uma banda tão ousada e sobre uma pessoa que era conhecida por ser incrivelmente destemida, é tão cauteloso e não tenta seguir um caminho um pouco mais atrevido.

No final do dia, mesmo com defeitos claros, Bohemian Rhapsody é um bom filme e seus momentos mais altos acabam compensando pelas suas falhas. Admito que a expectativa seria de um filme um pouco mais complexo e menos “seguro”, com ângulos e abordagens que você não encontra com facilidade na Wikipedia. Ainda assim, o longa diverte e se mostra uma opção honesta de diversão com os amigos em um final de semana. É impossível não se emocionar só de ouvir as icônicas músicas e difícil resistir não cantar junto. No entanto, apesar de Bohemian Rhapsody ser uma tentativa decente, o Queen definitivamente merecia algo mais à sua altura.