A introdução ao som de Vivaldi a cada episódio me faz lembrar por que sempre classifiquei Chef’s Table como uma série sobre como comida é arte e formadora de vidas.

Por trás de toda maravilhosa edição e estrutura narrativa – que quase te coloca no local físico do episódio a ponto de praticamente poder sentir o cheiro dos pratos — a série-documentário da Netflix faz um trabalho impecável contando histórias episódicas de 26 pessoas diferentes ao longo de suas cinco temporadas.

A 5º temporada tem como principal tema o legado e como nossas raízes nos ajudam a sobreviver no presente e a moldar o futuro. Seja por necessidade de libertação ou por querer marcar o nome na história, os quatro chefes apresentados são de longe a melhor seleção entre todas as temporadas, fugindo um pouco do tradicional homem branco sempre em posição de privilegio e donos de restaurantes caros e com meses de fila de espera.

Dessa vez, fomos iniciados na nova temporada com tacos mexicanos feitos especialmente para a classe trabalhadora e imigrante que vive nos Estados Unidos.

Cristina Martinez transformou a cidade de Filadélfia. Imigrante ilegal, fugiu para os Estados Unidos em ato de desespero fugindo de seu casamento abusivo e buscando uma vida nova trabalhando para poder pagar os estudos de sua filha que ficou no México.

De trabalho em trabalho, Cristina posteriormente teve a oportunidade de começar a fazer sua Barbacoa, carne especial feita com métodos pré-hispânicos de preparo e usada tradicionalmente como recheio para tacos — estes, feitos com um milho orgânico mexicano que, assim como a chefe, entrou ilegalmente em solo americano, sempre em busca da autenticidade. Cristina se tornou um simbolo e uma voz para o povo mexicano que sofre e luta demais por uma chance de ser visto como mais um. Tacos de U$ 4 nunca tiveram um valor tão grande.

Considerado um arquélogo da cozinha, Musa Dağdeviren dedica sua carreira a resgatar e manter a culinária tradicional turca a todo custo, dos métodos de cozimento até a forma em que os ingredientes são cultivados.

Movido por um punho politico moldado entre as tensões sócio-politicas turcas dos anos 90, chegou a criar movimento de trabalhadores no bairro de seu restaurante. Iniciou seu movimento de resgate das heranças turcas como um todo, consequência da crescente intolerância à diversidade étnica que ocorria cada vez mais forte em Istambul. Viajando pelo país inteiro estudando as raízes gastronômicas do país, seja curda, circássia, turcomena ou cazare – Musa conseguiu aos poucos unir uma parcela de toda a Turquia em seu restaurante — e agora espera poder fazer isso por todo país.

Bo Songvisava passou por um processo que se torna cada vez mais comum no mundo moderno: profissionais da gastronomia em geral são condicionados a cozinhar cada vez mais para escolas francesas ou contemporâneas, o que acaba deixando a culinária tradicional de nosso próprio país de lado por não ser considerada “alta gastronomia”.

Bo percebeu a necessidade de se encontrar na cozinha tailandesa e buscar ingredientes tradicionais orgânicos diretamente de produtores locais que usam e entendem como deve ser usado em pratos típicos tailandeses — também criando um movimento por uma produção e estimulo sustentável em todo país.

Durante muitos e muitos anos, Albert Albert Adrià viveu a sombra de seu irmão no restaurante El Bulli — considerado um dos templos da gastronomia — e era visto apenas como um braço direito, um apoio, uma sombra.

Mesmo sendo um chefe confeiteiro e uma das principais mentes criativas dos milhares de pratos que eram feitos no restaurante, sempre esteve um passo atrás, enquanto seu irmão estampava revistas e era considerado o grande gênio por trás de tudo — sempre “Ferran Adrià e seu irmão”. Albert decidiu tomar rumos próprios e abrir seu próprio restaurante buscando sua identidade — e o direito de ser conhecido apenas como Albert Adrià de Barcelona.

O que nos leva a reflexão: qual seu legado para o mundo? Até onde podemos deixar nossos nomes na história com nossas próprias mãos?