Na semana passada, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, a grande responsável pela cerimônia do Oscar, enviou um comunicado para os seus membros que chamou bastante atenção da imprensa e membros da indústria: já começando na próxima edição, mudanças na premiação serão feitas. Isso inclui um limite máximo de três horas na transmissão, os anúncios de vencedores de categorias “menores” serão movidos para os intervalos e a adição de uma nova categoria, chamada outstanding achievement in popular film, ou “Melhor Filme Popular”. 

E com isso, eu declaro: péssima, péssima idéia, Academia!

Para o bom entendedor, a atitude de anunciar novas mudanças é claramente foi uma reação às constantes quedas de audiência que a premiação vem sofrendo ano após ano. No entanto, enquanto a tentativa de tornar a premiação mais interessante e tragável para o público geral ao realizar mudanças em um formato que está desgastado pode ser considerada uma atitude bem intencionada, a forma como eles decidiram fazer isso é certamente questionável.

Começando pela polêmica adição de resolver adicionar uma nova categoria para premiar os filmes mais populares do ano: enquanto ainda não se sabe exatamente quais os critérios de elegibilidade (detalhes a serem anunciados, segundo comunicado oficial), essa é evidentemente uma resposta ao barulho e a pressão de um grande público que clama que grandes blockbusters, como Pantera Negra ou até mesmo Star Wars, tenham sua chance no Oscar fora das categorias mais técnicas como mixagem de som e efeitos especiais. 

O problema é que, ao invés da Academia optar por reconhecer a qualidade desses filmes ou simplesmente continuar deixando-os de fora de categorias mais glorificadas pelo público geral, a “solução” encontrada foi criar uma nova categoria onde filmes pipoca podem ser nomeados e premiados de forma confortável, sem ferir a “reputação” da Academia e dos seus membros votantes ao mesmo tempo em que agradam uma parcela, em sua maior parte leiga, da audiência. E como todo ato de pânico – e não tenham dúvidas que esse foi um ato desesperado -, essa solução vai acabar ferindo a cerimônia mais do que beneficiando. 

Os problemas de existir um espaço dedicado a reconhecer filmes populares são muitos. Não posso deixar de pensar em como a categoria vai totalmente ao contrário do objetivo da cerimônia, que é premiar aqueles que se destacaram na indústria ao trabalhar com excelência. Ser popular não é realmente um mérito, não atesta qualidade ou excelência. Apenas demonstra que um filme fez muito dinheiro ou teve um bom alcance — coisas que nem sempre andam de mãos dadas com a qualidade. Mas, aparentemente, a Academia acredita que filmes com essas características agora merecem seu lugar ao sol. 

Outra mudança, a de anunciar os vencedores de algumas categorias durante o intervalo, gerou menos burburinho mas também merece uma atenção especial por ser uma ideia não apenas questionável quanto, na minha opinião, levemente danosa para algumas áreas da indústria. Aspectos técnicos, como som, figurino, edição e fotografia não apenas são essenciais para fazer a experiência do cinema ser completa quanto possuem alguns dos profissionais que mais trabalham nessa indústria. E eles já recebem pouca atenção na maior parte do tempo, mas agora receberão ainda menos. Dar (ainda menos) menos destaque para essas áreas é quase como transformar suas premiações em prêmios de consolação.

Poxa Academia, se quer mudar, faz direito!

É fato que o formato precisa de mudanças. É compreensível a preocupação com a audiência e com a recepção do público em geral quando se trata de uma cerimônia tão influente. Mas é preciso fazer mudanças que façam sentido com a sua proposta, com a sua essência. Ir contra os seus princípios, ir contra a sua própria indústria (que já se manifestou bastante insatisfeita com as novas mudanças) e dar menos valor àqueles que trabalham dando o seu melhor o ano inteiro, apenas em busca de uma audiência maior, é uma grande tristeza e também um tiro no pé.

A premiação do Oscar é feita para celebrar o cinema feito com qualidade, mas os responsáveis pelas novas decisões parecem ter esquecido disso. Tomar uma solução fácil apenas para agradar um público que, apesar de barulhento, no final do dia não se importa tanto com a premiação, é uma atitude covarde e desrespeitosa com a sua própria indústria. Com essas decisões questionáveis, a estatueta do Oscar acaba perdendo seu valor e, principalmente, seu prestígio. Ao tentar salvar a cerimônia, a Academia parece mesmo é ter tirado vida dela.

[ATUALIZAÇÃO 07/09/18]

No último dia 6, a Academia anunciou que não irá implementar as mudanças anunciadas na próxima edição do Oscar. Dawn Hudson, CEO da Academia, se pronunciou:

“Houve uma série de reações em relação à introdução do novo prêmio, e reconhecemos que precisamos discutir mais profundamente com nossos membros. Nós fizemos mudanças no Oscar nos últimos anos – inclusive neste – e continuaremos a evoluir, enquanto ainda respeitando o incrível legado dos últimos 90 anos”

A próxima edição do Oscar será realizada em 24 de fevereiro de 2019.

Fonte: E!