Já escrevi sobre Supergirl em outras oportunidades aqui no site. Na primeira vez, falei um pouco sobre o preconceito com a série antes mesmo de sua estreia. Algum tempo depois, escrevi sobre a manutenção do protagonismo feminino do seriado, mesmo após a aparição oficial do Superman (Tyler Hoechlin) no universo DC do canal The CW.

E agora, aqui estou novamente para falar sobre Supergirl. Desta vez, sobre algo muito importante: como a série se estabeleceu como uma obra extremamente politizada de forma natural e sem soar forçada, dentro de um contexto coerente com a sua proposta.

Tudo começou com uma trama abordada na primeira temporada: a do Caçador de Marte — ou Ajax, para os fãs mais antigos dos quadrinhos. No universo DC da CW, J’onn J’onzz chega à Terra após a aniquilação de sua raça e, após ser perseguido pelo agente Hank Henshaw (David Harewood), acaba assumindo a identidade e as funções do diretor do Departamento de Operações Extra-normal (DOE) — órgão responsável por monitorar atividades alienígenas no planeta — com a intenção de proteger seu novo lar e criar um ambiente mais justo e seguro para os seres vindos de outros lugares da galáxia.

O interessante disso tudo — além da inserção de um personagem clássico e importantíssimo da DC em uma versão live-action — é que David Harewood é negro, e a sua escalação como J’onn/Hank escancarou uma porta de possibilidades para a criação de diversos paralelos e abordagens sobre o tema do preconceito e do racismo dentro da série.

Hank já sofreu por sua pele. Mas foi por sua sua pele humana, não extraterrestre

Durante o desenvolvimento do personagem ao longo do seriado, sua identidade é exposta, e J’onn sente na pele a sensação de ser excluído e rejeitado. No entanto, ele não encara a situação como algo novo, porque ele já entendia o significado de racismo e preconceito desde o momento que assumiu a identidade de um humano negro e passou a conviver livremente na nossa sociedade.

Ainda sobre o tema do racismo, na terceira temporada, James Olsen/Guardião, interpretado por Mehcad Brooks, faz um discurso emocionante para Lena Luthor (Katie McGrath) sobre como foi crescer em uma sociedade preconceituosa e a importância de ser um vigilante negro.

Tanto a situação de James quanto a de J’onn são claramente respostas da série aos diversos casos de assassinatos de pessoas negras inocentes e vítimas da intolerância, que resultaram em movimentos importantes como o Black Lives Matter.

Paralelo à isso, temos outra trama que vem acompanhando a série nas últimas temporadas e que reflete problemas sociais reais: os refugiados. Em Supergirl, diferente de The Flash e Arrow, desde o começo é estabelecido que a humanidade da Terra 38 está ciente da existência de extraterrestres, uma vez que o Superman já é o herói que todos conhecem.

Contudo, isso não significa que a sociedade por inteira aprova a presença de Kara (Melissa Benoist), Clark, J’onn e a de outros alienígenas na Terra. Seres de diferentes raças, planetas e espécies buscam refúgio em nosso planeta e tentam se adaptar à nossa vida, o que acaba expondo o pior lado dos seres humanos: a intolerância e a violência praticada contra aqueles considerados diferentes de um falso e desnecessário padrão estético.

E esse tema em específico rende um desenvolvimento interessante para a nossa protagonista. Kara, assim como Clark, é uma pessoa naturalmente otimista e que tem esperança nos humanos e na sociedade como um todo. No entanto, em muitas ocasiões a repórter demonstrou ser bastante ingênua devido ao excesso de otimismo. Kara acredita que as pessoas a aceitam unicamente por seus atos de bondade.

Como contraponto, J’onn e outros personagens já propuseram à heroína a reflexão: se ela e seu famoso primo tivessem uma aparência diferente da dos humanos, será que eles seriam adorados e idolatrados como deuses? Indo ainda mais fundo: será que se eles tivessem apenas a cor da pele diferente, seriam aceitos da forma que são?

Kara e Clark se encaixam no padrão de beleza que estamos (infelizmente) acostumados. Mas e se fosse diferente?

Nem mesmo a presidente dos EUA na série — interpretada pela Lynda Carter, a Mulher-Maravilha dos anos 70 — escapou do ódio de parte da população quando sua identidade alienígena foi descoberta na nova temporada. Como ela própria disse para a nossa heroína: “o medo nos faz enxergar ameaças onde não existiam”. Atos terroristas são cometidos em nome da “moral e dos bons costumes”, leis de inclusão social são criadas e questionadas e opiniões públicas manipuladas de acordo com a vontade dos poderosos. Não é assustadoramente real?

Também em sua quarta temporada, que estreou recentemente na TV americana — e que será exibida no Brasil pelo canal pago Warner Channel — tivemos a introdução de Nia Nal, que nos quadrinhos é a heroína Dreamer. O interessante aqui é que, em Supergirl, a personagem é uma pessoa trans interpretada por Nicole Maines, atriz que na vida real também é trans!

Isso não só é incrível pela questão da representatividade no mundo televisivo — bem diferente de escalar a Scarlet Johansson para interpretar um homem trans em Rub & Tug, por exemplo — como também reforça o compromisso do seriado de se estabelecer como uma obra que se posiciona à favor da diversidade e que aborda abertamente esses assuntos dentro do contexto do show.

Coincidentemente, o episódio em que Nia revela para James que é transgênero foi ao ar no dia 21/10, na mesma semana em que foi divulgada a notícia triste e absurda de que a administração de Donald Trump considera banir o reconhecimento oficial da transexualidade nos EUA.

O segundo episódio da quarta temporada tem mensagens fortíssima sobre preconceito e posicionamento

Apesar de ser uma série voltada para um público infanto-juvenil, Supergirl nunca teve medo de se posicionar e de abordar temas tão reais e complexos.

Sem forçar a barra, o show da Garota de Aço mostra cada dia que passa o quanto seus responsáveis entendem sobre o real significado de personagens como Supergirl e Superman: símbolos de esperança em uma época de caos.