De Volta ao Lar é um bom filme (mas poderia ser melhor)

Novo longa do Homem-Aranha é divertido, mas carece daquele “algo a mais”
por: 10 de julho de 2017
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O Homem-Aranha está de volta. De volta às telonas e, finalmente, de volta à Marvel, seu verdadeiro lar.

Após um curto e elogiado debute em Capitão América: Guerra Civil, Tom Holland volta a encarnar o Amigão da Vizinhança no universo cinematográfico da Casa das Ideias, mas desta vez em um filme pra chamar de seu. E, diferente do que muitos imaginavam, é seu mesmo, sem o Tony Stark/Homem de Ferro roubando a cena. (AMÉM!)

Sem muitas enrolações, já digo de cara que Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, no original) é um puta filme legal. Ele é divertido, capta bem o clima high school e os sentimentos da adolescência — o que deve gerar uma identificação muito bacana com o público desse perfil —, sabe ser denso quando precisa, tem um vilão interessante e um Spidey que é a melhor versão do personagem já representada nos cinemas.

Holland interpreta o herói de uma forma muito equilibrada. Seus antecessores tiveram bons momentos com o uniforme, mas interpretaram péssimos Parkers. Sempre detestei a cara de choro do Tobey Maguire e a do Andrew Garfield que parecia prestes a abraçar as trevas a qualquer momento.

Em De Volta ao Lar, pela primeira vez em um filme do aracnídeo, eu gostei tanto do Homem-Aranha quanto do Peter Parker, o jovem por trás da máscara. Talvez o fato do diretor Jon Watts ter buscado inspiração na versão Ultimate do personagem — o antigo universo alternativo da Marvel nos quadrinhos, que contava com uma versão mais jovem de Peter em histórias ambientadas no colégio — seja um dos motivos para isso.

Com uma fonte de inspiração mais clara para o novo longa, essa encarnação do super-herói é a que chega mais perto do que eu imagino como a representação perfeita do Aranha: um jovem sem grana (de verdade desta vez, não um quase trintão fazendo papel de adolescente quebrado), que sofre na escola e tenta achar seu lugar nesse mundão. Alguém que poderia facilmente ser eu ou você.

Holland é, disparado, o Peter Parker/Homem-Aranha mais legal do cinema até o momento.

Já o vilão Abutre, interpretado por Michael Keaton, é um dos responsáveis por deixar De Volta ao Lar com os pés no chão. Não existe nada de prepotente no roteiro. Conquistar o mundo e ameaçar a paz mundial é coisa do Ultron e do Loki. Aqui, o antagonista está na dele, se adaptando à uma nova rotina — na qual alienígenas, deuses e outros mundos existem — para tirar o melhor proveito financeiro possível da situação e prover sua família.

Seu caminho cruza com o do Vingador novato, que vê a oportunidade de se provar útil — para Stark, para si mesmo e para a cidade — e assim, temos uma história redondinha, com um herói tentando deixar seu bairro mais seguro e um vilão lucrando com as mudanças causadas pela nova realidade da vida. Um plot que mais aproxima o longa das séries da Netflix — especialmente das primeiras temporadas de Demolidor e Luke Cage — do que de outros filmes do MCU, como Dr. Estranho e Thor. (e isso funciona muito bem para ambos os personagens)

É raro elogiar um vilão dos filmes da Marvel, mas Michael Keaton merece.

Se o filme é divertido, tem o melhor Aranha dos cinemas e um bom vilão, então qual o problema com De Volta ao Lar?

Começando pelo que senti ao sair do cinema: o novo Homem-Aranha é tão legal e tão gostoso de assistir que merecia mais. Merecia um momento memorável, daqueles que os fãs se lembram por anos. Mas isso não aconteceu.

Faltou uma cena como a do primeiro filme do Sam Raimi, por exemplo, em que o Duende Verde obriga o herói a escolher entre salvar a vida de Mary Jane ou as de diversas pessoas em perigo; ou então uma briga FODA, como a do Dr. Octopus no trem em Homem-Aranha 2 (pra mim, ainda o melhor de todos); ou até mesmo uma sequência como a abertura de O Espetacular Homem-Aranha 2 do Marc Webb, com o Teioso perseguindo o Rhyno pela cidade.

Além disso — e sei que muito gente vai discordar do vou escrever aqui —, os trailers realmente prejudicaram um pouco a experiência do filme pra mim. Boa parte das cenas de ação estavam nos materiais promocionais, e sem um momento ~épico~, não consegui empolgar tanto quanto gostaria quando o filme pegava fogo. Inclusive, a luta final foi decepcionante. Ela está praticamente toda no trailer e termina meio que do nada, sem clímax. Diferente de outros filmes do Aranha — incluindo a participação em Guerra Civil —, desta vez não sai do cinema torcendo pra que alguma cena específica vazasse no YouTube, e isso diz muito sobre o filme para mim. Fica a nota mental: na próxima, só assistirei o primeiro trailer.

TAVA.TUDO.NO.TRAILER =/

Outra coisa que me incomodou no filme foram as personagens Liz e Michelle, interpretadas respectivamente por Laura Hammier e Zendaya. A primeira é a crush de Peter, e a segunda é uma quase amiga.

A personagem de Laura é simplesmente desinteressante. Tudo bem que, nessa época da vida, muitas vezes a paixão que sentimos por uma pessoa pode ser exagerada e injustificável. Contudo, a sensação é de que faltou química entre o jovem casal — e se levarmos em conta que um dos poucos acertos dos filmes do Webb foi a Gwen Stacy de Emma Stone, a coisa fica ainda pior. O sentimento de Peter pela garota não é interessante o bastante para que o grande twist do filme (quem viu sabe do que estou falando) tenha o efeito desejado. É uma virada de roteiro que funcionaria melhor até mesmo com Ned (Jacob Batalan), o melhor amigo do protagonista.

Já a personagem de Zendaya foi pouco e mal utilizada. Sua adorável estranheza — como desenhar pessoas quando estão tristes — funcionaria muito melhor para o ritmo do filme do que as piadas de Ned, que perdem força ao longo da história. Michelle poderia ter um papel na trama semelhante ao que Mary Jane tem nas HQs do universo Ultimate: logo nas primeiras edições Peter revela sua identidade para a amiga, e isso cria uma dinâmica e uma cumplicidade muito bacana entre os dois que eu gostaria de ter visto replicada com a personagem de Zendaya. Quem sabe isso não aconteça na sequência, não é?

Liz não deveria ter o status de interesse amoroso nessa história, e De Volta ao Lar poderia ter desenvolvido a amizade de Peter e Michelle, apenas plantando sementes para o futuro, já que é um tanto óbvio que vai rolar algo entre os dois nos próximos filmes.

E se o tal twist do filme envolvesse Michelle ao invés de Liz? Seria muito mais interessante…

Homem-Aranha: De Volta ao Lar é um filme divertido e honesto. O longa tem o melhor Aranha das telonas, um bom vilão, easter eggs, referências que aquecem o coração de qualquer fã e dicas para o futuro da franquia.

No entanto, faltou aquele “algo a mais”; um momento memorável e um capricho maior com alguns personagens para que ele não fosse apenas mais um filme divertido da Marvel.