Matt Groening, criador das aclamadas animações Os Simpsons e Futurama, está de volta em seu novo projeto, desta vez em parceria com a Netflix.

(Des)encanto (Disenchantment, no original) é uma comédia ambientada no período medieval que conta a história de Tiabeanie (Abbie Jacobson), a princesa do reino da Terra dos Sonhos que, no dia de seu casamento arranjado — do qual ela tenta fugir desesperadamente — ganha as companhias de Luci (Eric André), um demônio enviado como presente por figuras misteriosas, e Elfo (Nat Faxon), um elfo que resolve sair em uma jornada para conhecer o mundo e suas imperfeições.

A história começa a se desenvolver à partir do encontro dos três protagonistas. O rei Zog (John DiMaggio) decide manter Elfo por perto por acreditar que seu sangue contém as propriedades mágicas necessárias para criar o Elixir da Vida e, assim, o trio principal começa sua jornada de aventuras — que basicamente consistem em bebedeiras e a sair de situações perigosas e enrascadas nas quais eles próprios se colocam (como por exemplo: dar uma festa no castelo na ausência do rei que resulta em uma invasão viking).

É possível identificar facilmente a assinatura de Groening em (Des)encanto. Não apenas pelos traços dos personagens — que até aqueles que não são fãs de Simpsons ou Futurama conseguem reconhecer — mas também pelo estilo de humor e personalidade de seus personagens. O trio principal, por exemplo, tem o DNA todinho de Futurama: é possível identificarmos traços de Bender e Leela tanto em Beanie quanto em Luci, assim como o Elfo tem um pouco do Fry.

Quem é fã de Futurama vai notar algumas semelhanças entre os personagens.

O problema de (Des)encanto é que, diferente de seus antecessores, ela tem dificuldades para ser engraçada. É claro que isso é relativo: o que é engraçado para mim pode não ser para você, leitor. Contudo, a sensação que tive é a de que grande parte das piadas da primeira metade da temporada liberada são recicladas dos outros trabalhos de Groening e, por isso, fica difícil se conectar com a série no início. Além disso, a animação parece um tanto indecisa quanto ao seu próprio tom ao apresentar diálogos mais maduros — com ironia, sarcasmo e acidez — em algumas partes para, sem seguida, abusar do humor mais “simples”, que parece feito para um público bem mais jovem.

Além da indecisão do tom, o seriado também se perde um pouco em sua narrativa. A animação apresenta diversas situações para desenvolver sua trama principal, mas a linha narrativa acaba interrompida entre um episódio e outro. Com isso, a história acaba ficando em segundo plano, e justamente quando as aventuras isoladas do trio começam a ficar interessantes e a ganhar personalidade própria, a série retoma seu grande plot nos episódios finais. Apesar de ter gostado do desenvolvimento da trama principal nos últimos capítulos, essa falta de organização dificulta a conexão com a série. É como se tivesse que escolher entre qual (Des)encanto é melhor: a de aventuras isoladas e descompromissadas, ou a com uma história rica a ser desenvolvida?

A boa notícia é que, apesar destes problemas, (Des)encanto tem potencial para ser tanto a animação de aventuras descompromissadas, quanto a que segue e desenvolve uma narrativa mais linear. Tudo o que ela precisa é de tempo, e a própria série em apenas dez episódios prova isso, já que ao longo da temporada ela melhora bastante — tanto na questão do humor, quanto no desenvolvimento de seus personagens principais e secundários.

Ao longo da temporada a série melhora bastante e mostra potencial para o futuro!

O destaque fica com Beanie e Luci. A princesa foge completamente de seu estereótipo da cultura pop, e o fato de Luci ser um demônio que a induz a tomar as piores decisões deixa tudo muito mais interessante para a história. Elfo destoa um pouco dos dois, sendo o mais chatinho do trio. Ainda assim, a pequena criatura também é beneficiada pela melhora da qualidade da série ao longo da temporada, e suas interações — a.k.a.: brigas — com Luci rendem bons momentos.

No geral, todos os problemas que a série apresenta são bem comuns em início de projeto. No entanto, ao final de sua primeira parte, a animação se mostra uma obra com potencial enorme. (Des)encanto ainda não encanta totalmente, mas tem em suas mãos os ingredientes necessários para realizar esse feitiço.