Deuses Americanos é uma (maravilhosa) confusão

Personagens misteriosos e surrealismo mantém as características da obra original
por: 15 de maio de 2017
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Uma pergunta pra você, que nunca leu Deuses Americanos e que está acompanhando a série que adapta o livro do Neil Gaiman: você não está entendendo porra nenhuma, não é?

Relaxa, não precisa ter vergonha em admitir que American Gods é uma puta confusão. Só que não é aquele tipo de bagunça ruim, causada normalmente por um roteiro cheio de furos. É uma confusão causada pelo desconhecido, que atua quase como um personagem extra na história, que é construída aos poucos à base de mistérios.

Eu imagino que algumas pessoas vão ler o “à base de mistérios” acima e torcer o nariz. É natural, já que temos muitos exemplos de seriados que constroem uma narrativa misteriosa e se perdem por isso em algum momento — tipo Lost, Terra Nova, Alcatraz, The Event, e até a recém-cancelada Frequency —, e como consequência, a qualidade do show acaba caindo no meio do caminho.

Contudo, eu tenho um recado pra quem está se sentindo perdido: pode ficar tranquilo, porque vai valer a pena — exatamente como o livro de Gaiman.

De início, o livro estabelece apenas o macro da trama: existe uma guerra entre deuses antigos e deuses novos por poder. E no meio dessa treta surreal se encontra o protagonista Shadow Moon, que após cumprir sua pena na cadeia e perder a esposa Laura em um acidente trágico (e polêmico), aceita trabalhar para o misterioso Sr. Wednesday.

A partir daí, o leitor é jogado num mar de dúvidas: quem é Wednesday? O Shadow é mais importante para a trama do que parece? Se sim, porquê?

Um dia típico nos EUA: uma briga de bar com um Deus.

Deuses Americanos é um livro de estrada; uma viagem de descoberta da cultura americana que expõe constantemente o conflito do novo e do velho mundo através de situações cotidianas que se chocam com o surrealismo — como por exemplo: dormir em um motel de estrada e a TV começar a falar com você no meio da noite. Ou arrumar uma briga num bar… com um Leprechaun.

Esse é o tipo de obra em que a jornada é a melhor parte. Você pode achar o desfecho incrível ou um verdadeiro lixo, mas nada vai mudar o fato de que o caminho até a conclusão é uma experiência única (e também o charme da história).

Se a série continuar fiel ao livro como foi nesses primeiros episódios, algumas respostas serão dadas ao longo do caminho. Outras vão ficar guardadas até o final, independente de quantas temporadas o canal Starz pretende produzir. E ainda vão ter aquelas dúvidas que provavelmente nunca serão diretamente respondidas, ficando à margem da sua interpretação. — e, por isso, você deve prestar atenção em todos os detalhes.

O tipo de comentário que mais li sobre a série: “não entendi nada, mas amei”. Essa cena foi um dos motivos…

O ponto é: Deuses Americanos não é o tipo de obra que deixa os fãs na mão. Pode ter certeza que, em algum momento, grande parte do que você está vendo fará mais sentido — mesmo que de um jeito torto — e a história ficará mais clara.

Enquanto isso não acontece, apenas aproveite a jornada que, embora confusa para quem não leu o livro, é também gostosa de acompanhar pelos elementos que a compõe. Seja pelos personagens enigmáticos ou pela estética surrealista da série que só alguém como Bryan Fuller, a mente responsável por Hannibal poderia produzir — que transforma até as tripas e o sangue voando em algo “lindo” e artístico —, Deuses Americanos parece ter conquistado tanto os fãs antigos da obra, quanto aqueles que tiveram seu primeiro contato com a história.

Está se sentindo perdido? Ótimo. Você vai amar o que vem por aí.