A distopia nua e crua de O Perfuraneve

Obra é um retrato social perfeito de nossa sociedade doentia e perversa
por: 06 de abril de 2017
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Texto escrito por Eric Araújo.

Não é novidade para ninguém que 1984 é um ano muito simbólico para a literatura de ficção científica. Desde a obra-prima de George Orwell até o livro cyberpunk Neuromancer, escrito por William Gibson, podemos refletir sobre as consequências e efeitos de diversos temas muito presentes em obras desse tipo, como alta informatização, avanços tecnológicos de forma acelerada e controle social por meios totalitários. Sendo assim, as histórias em quadrinhos também não poderiam ficar de fora na abordagem de um assunto já tão difundido, mas nunca entediante. Com o lançamento de O Perfuraneve no mesmo ano na França, um novo olhar sobre um futuro caótico, sombrio, e provavelmente não tão distante, surge em mais uma narrativa considerada clássica do gênero.

Roteirizado pelo francês Jacques Lob, com desenhos do artista Jean-Marc Rochette, a obra nos apresenta a história de um trem com mais de mil vagões, cujo movimento é constante e ininterrupto. Seus habitantes são sobreviventes de uma catástrofe climática, resultado de diversas guerras nucleares, condenando assim o resto da humanidade a uma eterna e nova Era do Gelo.

O comboio que não pára, percorrendo um mar de neve.

Ali dentro, a sociedade é dividida em castas, sendo que os mais ricos moram nos vagões da frente e os pobres nos vagões do fundo. Enquanto que as pessoas abastadas aproveitam o luxo de áreas amplas, bem decoradas e confortáveis, para as classes baixas, ou fundistas como são chamados, restam apenas vagões escuros, apertados e superlotados.

É importante ressaltar que, o que era para ser o estopim de um sentimento de união entre os habitantes, já que todos buscam a sobrevivência, a experiência torna-se apenas mais uma reprodução dos mecanismos que levaram a humanidade à ruína, com elementos que variam desde a estratificação social até opressão política como forma de controle.

Na HQ, acompanhamos a história de Proloff, um fundista que consegue escapar momentaneamente do seu local para desbravar o resto do trem e descobrir como funciona a sociedade fora do antro de miséria, o qual ele presencia diariamente. Sua aventura não dura muito tempo e logo é capturado pelos guardas de plantão, ficando a mercê dos líderes da máquina que ordenam sua presença para conversar com ele. Nesse meio tempo, o protagonista conhece Adeline, ativista de um grupo que luta pelos direitos humanos dos habitantes menos favorecidos. Ambos acabam se envolvendo romanticamente, seguem rumo à frente do trem, e conhecem novas pessoas e vagões que nunca imaginaram existir, tomando atitudes extremas e que mudariam suas vidas para sempre.

Proloff é um personagem interessante: esperamos dele uma atitude naturalmente altruísta e benevolente para com os outros fundistas, provavelmente saindo em busca de auxílio para negociar condições de vida mais humanas a todos que moram ali. Porém, com o desenrolar da narrativa, percebemos que suas intenções não são tão nobres assim. A todo momento, o protagonista deseja somente fugir de sua realidade, demonstrando nenhuma vontade de voltar para os últimos vagões do trem. É esse tipo de atributo que o torna tão real e tão próximo do leitor: apesar de não necessariamente concordarmos com seu sentimento egoísta, nós o compreendemos. Em uma situação que envolve sobrevivência, ainda mais nas condições miseráveis e desumanas as quais Proloff é submetido, é simples imaginar que poderíamos fazer o mesmo.

Originalmente, O Perfuraneve não ganharia uma continuação. Porém, com a morte de Jacques Lob em 1990, Jean-Marc Rochette convidou seu amigo Benjamin Legrand para assumir os roteiros de mais dois volumes: O Explorador, lançada em 1999, e A Travessia, lançada em 2000.

Em O Explorador, descobrimos a existência de outro trem com movimento perpétuo chamado Desbrava-Gelo, abrigando uma população com características tão complexas e insanas quanto a primeira. Nesta história conhecemos Puig Vallès, uma criança nascida e criada dentro do trem, tornando-se um explorador oficial do comboio quando adulto. De acordo com o andamento da leitura, acreditamos que as missões de exploração, que ocorrem com o trem parado, tem por objetivo reconhecer o local externo e procurar recursos para benefício dos sobreviventes. Contudo, o motivo acaba sendo outro, provocando a indignação do protagonista e, ao mesmo tempo, servindo de motivação para ele desmascarar os comandantes.

É interessante destacar o quão próxima da realidade está a sociedade do Desbrava-Gelo. Com uma liderança formada basicamente por políticos desonestos, militares inescrupulosos e religiosos com valores morais questionáveis, as estratégias de dominação da sociedade são usadas de maneira exaustiva, desde a criação de uma TV estatal com programação regulada até manipulação religiosa por meio de seitas que adoram a “Santa Locomotiva”.

Alienação social e controle das massas: não muito diferente de hoje em dia, não é mesmo?

Na terceira e última história, A Travessia, somos levados para o clímax da trilogia. O sistema social está abalado, muitos habitantes se perderam pelo caminho e Puig torna-se mentor de um plano arriscado: seguir e encontrar a fonte de um sinal de rádio captado há algum tempo pelos comandantes. Sendo esta a única pista de vida fora do trem, eles não veem outra alternativa senão descobrir a origem da frequência. De forma melancólica, somos entregues às reflexões do protagonista quanto ao destino do trem e se ele não estaria levando todos os sobreviventes a um outro tipo de morte, mais trágica e dolorosa do que o esperado.

A arte encontrada na obra é um capítulo à parte. Se na primeira história vemos traços mais realistas e que fazem referência aos quadrinhos europeus clássicos, nas outras duas somos apresentados a desenhos mais aquarelados, conferindo maior soturnidade e carga emocional à narrativa. Além disso, a composição de cores frias é recorrente, fazendo o leitor entrar de cabeça em um mundo gélido, insensível e cruel.

O Perfuraneve é um trabalho seminal do gênero de distopia/ficção científica, e recebeu um acabamento primoroso da Editora Aleph em 2015 com um formato em alta gramatura, reunindo os três volumes. Reflexivo e claustrofóbico, prepare-se para ser transportado a um mundo onde apenas os fortes sobrevivem.