Não importa o quanto a nossa tecnologia e medicina avança, o cérebro humano continua sendo um dos nossos maiores mistérios – e também um dos melhores motivos para contar grandes histórias. Em Maniac, a nova série limitada da Netflix, a proposta é justamente essa: explorar o grande desconhecido da mente humana e como isso afeta as nossas emoções, tudo isso através de um cenário às vezes distópico, às vezes normal demais e outras vezes incrivelmente fantasioso. Mas sempre deliciosamente imperdível.

Com um time praticamente impecável por trás de Maniac, onde a direção é assinada por Cary Fukunaga (True Detective), a criação fica na mão de Patrick Somerville (The Leftovers) e o protagonismo nas costas de Emma Stone e Jonah Hill (que também servem como produtores executivos), a Netflix conseguiu entregar uma das séries mais curiosas do seu catálogo. Maniac é uma daquelas obras onde na maior parte do tempo você não sabe muito bem o que está acontecendo, mas esse desconhecido nunca te impede de estar engajado na história e ansioso para o próximo episódio. 

É essa dupla que você vai acompanhar durante 10 capítulos

Apesar de, no início, a história ser contada de uma maneira pouco tradicional, o que pode deixar certos espectadores confusos e ansiosos ao tentarem descobrir o que está rolando na tela, a história de Maniac é, no fundo, bastante simples. Chegando por motivos diferentes, mas em busca da mesma coisa, a série acompanha as histórias de Annie (Emma Stone) e Owen (Jonah Hill), que entram em um experimento farmacêutico voluntário que procura desvendar de uma vez por todas os problemas da mente e entregar a cura definitiva. Os dois personagens chegam lá cheios de trauma, de culpa, e com um histórico tóxico de tentar mascarar os seus próprios problemas com novos problemas.

O experimento farmacêutico (que é o principal condutor da história) no entanto, vem acompanhado de um time interessante de jogadores que causa surpresa pelas suas peculiariedades. Cuidando dos testes temos a Dra. Azumi Fujita (Sonoya Mizuno), uma personagem capaz de relevar as coisas mais desagradáveis para ver o experimento dando certo, o Dr. James Mantleray (interpretado de forma fantástica por Justin Theroux), o problemático criador do experimento, e a personagem mais improvável de todas: GRTA (Sally Field), o supercomputador que pilota todo o experimento. O grande problema disso tudo? GRTA está depressiva e isso começa a influenciar o teste.

A trama de Maniac se complica um pouco mais quando os cobaias desse experimento, Annie e Owen, precisam tomar certas drogas que os fazem viver outras vidas, muitas vezes em cenários absurdos, e eles acabam se encontrando em todas as situações de forma não-intencional aos criadores do teste. Então uma hora temos o prazer de ver a dupla em um cenário brega nos anos 80 tentando resgatar um lêmure que foi sequestrado pela máfia e em outro momento vemos Emma Stone no seu melhor estilo Légolas, com orelhas de elfo e um arco-e-flecha em uma fantasia mágica. É. Apertem os cintos que vem coisa pela frente!

Essas situações fantasiosas talvez sejam a parte mais divertida de Maniac

São esses cenários aparentemente malucos que dão a impressão de que a série vai ser difícil de entender, e você fica com esse sentimento até a reta final — até que tudo se encaixa e as coisas não se mostram tão complicadas assim. O fato de existir um lado cômico (muito bem dosado e executado, vale destacar) em tudo ajuda a dar um tom bem leve e interessante à narrativa, evitando que a série se torne chata e pretensiosa. No final do dia, é uma jornada que revela o seu verdadeiro valor somente quando chega ao final — e, garanto, vale a pena ir até lá. 

É uma jornada que revela o seu verdadeiro valor somente quando chega ao final — e, garanto, vale a pena ir até lá.

A série não é sem os seus defeitos, no entanto. O fato de Maniac demorar um pouco demais para preparar o seu terreno (as coisas começam a acontecer mesmo só a partir do quarto episódio) pode afastar o espectador mais impaciente. Além disso, Jonah Hill infelizmente é o elo fraco em um (com essa exceção) fortíssimo elenco, e o ator entrega uma performance esquecível, pouco convincente e não se mostra um bom contrapeso em relação à outra metade condutora da série.

Enquanto Emma Stone continua se consolidando como uma das melhores atrizes da atualidade, entregando uma performance emocionante, crível e praticamente impecável, Hill simplesmente não consegue acompanhar a força de Stone e isso acaba prejudicando o desenrolar da trama, já que é difícil torcer pelo seu personagem.

Emma Stone continua mostrando porque é uma das melhores atrizes hoje

É impossível negar que não há uma certa expectativa em cima de atores cômicos quando eles aceitam papéis mais dramáticos, e Jonah Hill já se mostrou capaz em outras obras, mas aqui ele realmente falha na missão. É difícil se identificar e criar empatia com o personagem, ainda um que demanda esses sentimentos de quem está assistindo, e isso prejudica a série de uma forma forte. A impressão que tive é que se, talvez, a série fosse focada apenas na personagem de Emma Stone, a trama conseguiria ser tão redonda e a mensagem tão eficaz quanto — com a diferença que não teríamos uma performance ruim para prejudicar a experiência. 

É por motivos assim que Maniac definitivamente não é perfeita e talvez não tenha o potencial de binge-watch tão presente na maioria dos originais Netflix, mas não deixe isso lhe impedir de colocar a série na sua lista. Apesar dos pesares, Maniac é um entretenimento sólido, com uma história muito bem escrita, bem dirigida, relevante e bem executada. Existe uma estranheza curiosa que é única e faz querer ficar até o final. É uma pena que, mesmo com o time de destaque por trás de Maniac, ninguém esteja prestando muita atenção na série. Mas ela definitivamente merece o nosso tempo e a nossa atenção.