Fazendo um livro – Parte 1

Como diabos se faz um livro? Bom, o começo é simples (só que não).
por: 23 de janeiro de 2017
0 Flares Facebook 0 Twitter 0 0 Flares ×

Você já deve ter lido pelo menos um livro na vida, quase certo que leu bem mais que isso. Livros são objetos mágicos que podem te transportar para outros mundos, épocas e realidades paralelas, e por isso são adorados por muita gente. Alguns de nós leem quase que compulsivamente, e nutrem uma relação especial com a literatura (eu mesmo atingi a marca de 65 livros lidos em 2016). Se você lê muito, como eu, já deve ter pensado pelo menos uma vez na vida: como diabos se faz um livro? Fiz três desses recentemente e sou editor de duas editoras diferentes, então resolvi dar uma geral do panorama para ajudar quem, como eu, já se perguntou isso sem ter ideia de onde começar. Bora?

O processo tradicional de criação de um livro pode ser dividido em duas partes: quando o autor escreve o texto e quando ele passa para as mãos de uma editora até chegar nas prateleiras das livrarias. Atualmente é possível “pular” o segundo passo, partindo para a autopublicação, mas isso é assunto para outro post. Hoje vou focar na primeira parte: como ESCREVER um livro?

Bom, posso até parecer um idiota aqui, mas a resposta é, simples e complexamente ao mesmo tempo, “escrevendo”. As técnicas e modelos para escrever um livro são tão variadas e numerosas quanto o total de escritores profissionais pelo mundo, mas todas seguem a máxima de que é preciso escrever. Escrever todos os dias. Escrever até cair. Com mais de 100.000 livros publicados só nesses primeiros dias de 2017, parece que isso dá certo, mas vamos para a parte mais básica e mais pessoal disso tudo para saciar aquela velha pergunta: “como é que EU posso fazer um livro?”.

A primeiríssima coisa, fundamental para qualquer escrita e que ninguém vai te dar de presente, é a ideia principal da sua história. A partir dela, você pode sair escrevendo destrambelhadamente ou preparar o terreno antes — o que sempre é melhor. Não é preciso ter toda a ideia da história pronta logo de cara, apesar disso ajudar um bocado em todo o processo; muitos livros já foram escritos apenas com um começo, um meio ou um fim, ou até mesmo uma frase boa, um parágrafo legal ou um único personagem. Mas quanto mais elementos você tiver quando for botar a mão na massa, melhor.

Contudo, não se engane pensando que qualquer tipo de planejamento ou detalhamento vai deixar as coisas mais fáceis. Escrever é muito, mas MUITO difícil. Escrever dói. Escrever pode te deixar louco. Não é para todo mundo e, caso tudo saia muito fácil e de primeira para você, as chances são de que o que você escreveu não valha a tinta da impressora.

Porém, se mais de 5 pessoas que não forem parentes te disserem que o que você fez é bom, peça meu email nos comentários. Não é todo dia que se encontra um gênio literário e eu quero te publicar. Dado este aviso, bora lá.

Se você tiver a sorte de ter uma ideia geral sobre a sua história, com uma boa noção de onde vai começar e de como vai terminar, uma boa ferramenta para organizar suas ideias é a escaleta. A escaleta nada mais é que a primeira tentativa de separar os assuntos e cenas da sua história em capítulos, moldando o primeiro rascunho do que será escrito. Ela pode ter desde uma forma mais “oficial” e arrumada, como às vezes é pedido quando se escreve sob encomenda, até um rabiscão no caderno, notinhas, post-its colados ou o que quer que seja: o importante é você se encontrar na coisa toda.

Escaleta de “Harry Potter e a Ordem da Fênix”

Pegue, por exemplo, a escaleta do exemplo acima. Até mesmo para quem leu Harry Potter, as anotações da Rowling podem parecer uma bagunça desgraçada, mas é como a autora se orientou para construir o livro; temas centrais da obra são divididos pelos capítulos e cada pecinha do quebra-cabeças é marcado em seu devido lugar, virando uma checklist na hora de escrever loucamente. Eu prefiro algo em linhas gerais (já escrevi livros como ghost writer — história para outro post), como se fosse um resumão de cada capítulo, que deixo logo abaixo do que estou escrevendo, para não pular nenhuma parte ou informação que considero importante para a trama.

Outro passo — completamente opcional, tudo depende do seu nível de transtorno — é já montar alguns backgrounds de lugares ou personagens imaginados. Isso pode ser bem útil para evitar loooongas releituras de capítulos que você escreveu há um tempão. Esses documentos costumam ser chamados de “bíblias” e podem ser enormes, tomando muito mais páginas que seu romance. Imagine só o tamanho da bíblia do Tolkien, que desenvolveu idiomas inteiros para suas histórias. Já deu pra sacar que o processo já pode ser bem mais complicado do que parecia, né? — e nem começamos a escrever o raio do livro, ainda…

Agora chegou aquele maravilhoso momento de escrever! Que alegria! Ou será que não?

Se você ainda não desistiu (e tudo bem se o fizer: não é fácil nem simples e ainda nem chegamos na desesperadora parte de tentar publicar o que foi escrito), escreva todos os dias. Sem sacanagem, todos os dias. Fins de semana. Feriados. Quando estiver viajando. Escreva sempre. A maioria dos grandes escritores dão esse conselho, que pode até parecer óbvio, mas que você vai se lembrar muito bem quando tiver o primeiro apagão criativo.

Os bloqueios são parte quase fundamental de qualquer escrita longa, e o mais importante é a sua atitude quando um desses cretinos aparece no caminho; travou na hora que o seu protagonista precisa falar algo muito relevante? Vá escrever um post de blog, uma resenha de livro, filme ou HQ, ou qualquer outra coisa — o importante é continuar escrevendo. O único jeito de ficar melhor na escrita é escrevendo mal antes, para aprender com seus erros. O único jeito de arrancar aquela história de dentro da sua cabeça é escrevendo, palavra por palavra, por mais que pareça uma maçaroca sem sentido quando você passar os olhos nos parágrafos gravados na tela ou no papel.

Outra coisa importantíssima é resistir à tentação de editar enquanto você ainda está escrevendo. O perfeccionismo é o maior inimigo da produtividade e as revisões tem um momento certo para acontecerem. Tente não se incomodar, relaxe e continue escrevendo. Se transforme em uma metralhadora de palavras se precisar, mas não olhe para trás. Depois de algum tempo marretando o teclado ou criando uma tendinite com a caneta, você poderá escrever “Fim” e ter algo que parece com um romance. Ótimo!

Agora, esqueça que sua obra existe por um tempo.

Sério mesmo. Deixe de lado, desencane, jogue seu material para o fundo da sua cabeça, até quase não se lembrar de que um dia cometeu a loucura de resolver escrever um livro. Agora, com a cabeça fresca, abra o arquivo de novo e comece a lapidar seu trabalho: chegou a hora da revisão. E para isso, uma dica: às vezes imprimir a coisa toda, caso você possa, ajuda um bocado.

Bem-vindo à parte do processo que você vai amar odiar.

Não se assuste quando finalmente checar o resultado de todas aquelas horas moendo o cérebro e os dedos. A probabilidade de você achar tudo uma grande porcaria é enorme. Como já disse Ernest Hemingway, “Todo primeiro rascunho de algo é uma merda”. Pensando pelo lado positivo, você chegou até aqui. Querendo ou não, já escreveu um livro. Agora é o (looooongo) momento de transformá-lo em algo bom e coerente. Não tenha medo de cortar partes, reescrever trechos ou até mesmo descartar um personagem inteiro. Vá fundo, seja crítico, seja imparcial — mas lembre-se sempre do perigo do perfeccionismo.

Certifique-se de fazer (ou pedir para alguém fazer) uma revisão ortográfica e gramatical e selecione seus “leitores beta” — basicamente, pessoas que lerão o seu trabalho antes do “grande público”, te dando uma amostra de como o livro pode ser recebido, como se fosse um pré-julgamento antes de você parar de mexer no texto de uma vez por todas. Alguns profissionais da área oferecem esse serviço sob o título de “leitura crítica”, que é basicamente a mesma coisa, mas sob o ponto de vista de quem vive da escrita.

É interessante você procurar pessoas que tenham perfis diferentes e que não terão medo de dizer na sua cara o que acharam da obra, pro bem ou pro mal. Essa parte é fundamental para que você elimine possíveis erros que são naturais quando contamos uma história que inventamos — os autores conhecem aquele universo a fundo mas, para o leitor, aquele é o primeiro contato com tudo. Assumir que coisas são conhecidas ou compreendidas na sua narrativa pode afundar uma boa premissa. E, pelo amor de todas as divindades mitológicas, se você não lida bem com críticas, a) aprenda logo, ou b) nem comece a escrever.

Quanto todos esses passos estiverem terminados, sua autocrítica ter chegado a níveis colossais e uma parte de seu ego ter sido estilhaçada com as alterações feitas pós-feedback, você pode respirar aliviado, meu amigo; seu livro está pronto. Agora falta dar um jeito de publicar a bagaça, né?

É justamente sobre essa etapa que vou falar na próxima parte. Até lá!