A ficção científica chinesa tem muito a falar sobre a realidade

O Paradoxo de Fermi ganha novo significado nas mãos de Cixin Liu
por: 24 de abril de 2017
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Você provavelmente tenha ouvido falar do Paradoxo de Fermi. Podemos resumir essa ideia de forma bastante simples: em um universo tão grande como o nosso, em que as probabilidades insistem em dizer que a vida — inteligente ou não — pode ser mais comum do que imaginamos, porque ainda não fizemos contato com ninguém? Nas palavras míticas do físico italiano Enrico Fermi: onde está todo mundo?

Quando comecei minha empreitada pelos livros do autor chinês Liu Cixin (sobrenome seguido pelo nome próprio), jamais pensei que o autor iria explorar essa questão que me agrada tanto, e que parece estar mais popular nos dias de hoje graças às notícias sobre a descoberta de novos sistemas planetários e de novos e poderosos telescópios que irão nos ajudar a compreender melhor nosso universo.

Digo isso porque os títulos dos livros que compõe a trilogia Remembrance of Earth’s Past (tradução literal: Lembrança do Passado da Terra), não te ajudam a compreender a verdadeira intenção do autor com sua obra. Eles são meio como pegadinhas mesmo; difícil de entendê-los sem ler o livro. Isso sem falar da quantidade enorme de conteúdo que surge no decorrer da leitura. Barack Obama mesmo se manifestou a respeito da obra de Cixin, dizendo que “o escopo dessa história é imenso”.

Trappist-1, a mais nova jóia do conhecimento humano sobre exoplanetas: comum ou uma raridade?

Bota imenso nisso!

AVISO: apenas o primeiro livro, O Problema dos Três Corpos, têm uma versão traduzida para o Português. The Dark Forest e Death’s End, segundo e terceiro livro respectivamente, ainda não foram lançados no Brasil.

OUTRO AVISO: esse texto contém alguns spoilers sobre a trilogia.

O Problema dos Três Corpos se passa em dias atuais. Uma série de assassinatos misteriosos e suicídios mal explicados assustam a comunidade científica mundial — por alguma razão desconhecida, alguém quer acabar com os maiores cientistas da atualidade, impedindo dessa forma o progresso da raça humana. Para explicar esses e outros acontecimentos, o livro é permeado por flashbacks, que levam o leitor ao período da Revolução Cultural na China (1966~1976), que é onde o livro começa.

Durante esse período nebuloso da história moderna, conhecemos Ye Wenjie, grande responsável por todos os eventos que irão se estender nos três romances. Astrofísica por formação, filha de um físico acadêmico torturado e morto pela Guarda Vermelha, Wenjie também sofre nas mãos dos comunistas até ser recrutada para trabalhar em uma base militar ultra-secreta, uma versão chinesa e fictícia do SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence), cujo objetivo maior é fazer contato com extraterrestres. Utilizando a estrutura da base militar e seus conhecimentos teóricos sobre radioastronomia e radio-amplificação solar (nosso Sol, no caso), Wenjie codifica e envia uma mensagem para toda a galáxia. E 8 anos depois, recebe uma resposta. Não estamos sozinhos no Universo, afinal.

A resposta vem de uma civilização bastante evoluída, mas à beira da extinção devido a uma condição peculiar de seu sistema solar: um planeta que orbita três estrelas. Trissolaris. O clássico problema de mecânica orbital, aplicado a interação gravitacional de três estrelas em um sistema planetário, cria a realidade caótica dos habitantes de Trissolaris, o último planeta sobrevivente desse sistema. Eles precisam abandonar seu mundo se quiserem que sua espécie sobreviva, e a Terra se tornou o melhor candidato. Graças a Wenjie.

Tirinha do Xkcd, brinca com o fato de não haver uma solução analítica geral para o problema dos três corpos.

A partir desse momento, o leitor descobre que um grupo de humanos liderados por Trissolaris eram os responsáveis pelas mortes na comunidade científica, única real ameaça aos objetivos dos aliens invasores. Com os humanos presos em era tecnológica, incapazes de avanços significativos, Trissolaris será capaz de dominar facilmente nossa raça, quando aqui chegarem depois de uma longa viagem de 400 anos até o planeta Terra.

Partindo destes eventos, Cixin irá desenvolver sua narrativa. Durantes centenas de anos, acompanhamos como a raça humana se desenvolve, se supera, falha e se recupera, tendo como objetivo máximo sobreviver ao apocalipse, que tem data marcada para acontecer.

A história é contada de forma bastante original. Diferente do que estamos acostumados a ver com o escritores ocidentais, o autor prefere dar mais foco a eventos, períodos e cenários, do que em personagens e suas ações — algo semelhante ao que acontece nas versões de Ghost in the Shell. Em cada um dos livros descobrimos um novo grupo de personagens que será responsável por viver sua fatia da história, liderando a humanidade por centenas de evolução “forçada”. Ao mesmo tempo, foi bastante simples entender os dilemas dos personagens, se relacionar com seus desafios e entender exatamente o que eles estão sentindo e enfrentando. Eles apenas não são o foco do autor. A realidade em que estão inseridos é a história que Cixin quer mesmo contar.

Esse é um dos pontos mais legais do trabalho de Cixin. Essa mudança de foco deliberada, menos dependente da intimidade criada entre leitor e personagens, liberta o autor para explorar um mundo muito mais amplo e vivo, ultrapassando a barreira das páginas do livro e trazendo o leitor para dentro do universo proposto por ele.
Cixin me levou para um passeio pelo futuro que nos aguarda nos próximos séculos, passando por inovações tecnológicas das mais corriqueiras — como carros elétricos voadores e chips de identificação pessoal —, e indo até as revoluções tecnológicas e socioeconômicas mais profundas que poderão acontecer no mundo dos nossos tataranetos — união de países em grandes blocos, colonização do sistema solar e domínio de viagens interplanetárias. Não me sentia vislumbrando o futuro da humanidade desta forma desde a época que li os clássicos de Isaac Asimov.

A capacidade do autor em criar narrativas menores para contar uma história é fantástica, contudo também é um peso para quem está acostumado com narrativas mais dinâmicas e aceleradas. Cixin é incrivelmente criativo, mas houveram momentos em que estava lendo capítulos totalmente desnecessários, que não serviram de nada para explicar os eventos dos capítulos seguintes. Ou então, quando eu queria obter uma explicação para determinada linha de narrativa, e o autor simplesmente não retorna mais àquele ponto, algo bem frustrante pra mim. É uma característica própria de Cixin, não há dúvidas disso. Mas pode ser que te incomode, como me incomodou.

Mas vamos voltar ao tal Paradoxo de Fermi.

Em termos numéricos, estima-se que existam 10 mil estrelas no universo para cada grão de areia na Terra. Cinco por cento delas — de acordo com as previsões mais pessimistas — são parecidas com nosso Sol (em termos de luminosidade, temperatura e tamanho), o que representa um total de 500 bilhões de bilhões de estrelas como o Sol. Seguindo um raciocínio conservador, cerca de 20% dessas estrelas devem possuir planetas similares à Terra: 100 bilhões de bilhões de planetas como o nosso no Universo, 100 para cada grão de areia do nosso mundo. Agora, imagine que 1% desses planetas desenvolveram vida, e que 1% destes planetas “vivos” hospedem vida inteligente. O resultado são 10 quatrilhões de civilizações inteligentes no Universo e 100 mil delas somente na nossa galáxia, a Via Láctea.

Mesmo assim, nunca captamos nenhum tipo de transmissão de rádio ou sinais de laser de nenhuma dessas supostas 100 mil civilizações inteligentes da nossa galáxia. Nem uma sequer. De novo: onde está todo mundo?

Recomendo este vídeo abaixo. (E recomendo esse canal também!)

A verdade é que não há explicação definitiva para esse paradoxo no mundo real. Apenas especulações e razões possíveis que se propõe a explicar porque ainda não fizemos contato com ninguém no Universo.

O que acontece nessa trilogia, e que me marcou profundamente, foi que Cixin escolhe uma dessas razões e propõe sua própria explicação. E ela acaba funcionando muito bem dentro do livro, de tal forma que eu fiquei assustado com a possibilidade dela servir para explicar os resultados sempre negativos de nossas tentativas de encontrar vida fora do nosso Sistema Solar.

A vida — na forma como a compreendemos e conhecemos — é mesmo algo raro e delicado. Se estivermos falando de vida inteligente então, a probabilidade de todos os fatores necessários para o seu desenvolvimento se combinarem em um local específico do Universo diminui drasticamente.

Trissolaris é um ótimo exemplo de planeta que, nos padrões atuais de pesquisa por vida extraterrestre, seria excluído automaticamente da lista de potenciais candidatos. O movimento imprevisível de suas três estrelas tornam esse sistema solar instável demais para o desenvolvimento da mais simples forma de vida, que precisa de um ambiente com mudanças menos radicais para surgir, se desenvolver, e evoluir — principalmente se estivermos falando de uma raça senciente.

Podemos parecer um sistema solar pacato e sem graça, mas para a vida, cada um dos elementos que compõem nosso sistema solar exerce um papel fundamental para possibilitar nossa existência. Júpiter e os outros gigantes gasosos, graças a sua imensa gravidade, protegem os planetas rochosos no centro do plano orbital do Sistema Solar de grandes asteróides que poderiam tornar nossa vida um inferno. Nossa Lua, a maior de todas as luas do Sistema Solar se comparada ao seu corpo primário (a Terra), exerce influência direta na dinâmica regular do clima do nosso planeta, fator fundamental para manutenção da vida. E a lista continua. Eu não quero aqui defender o ajuste-fino do nosso Universo, mas existem grandes chances de estarmos sozinhos nessa imensidão toda. E é nisso que acredito.

Entretanto, Cixin me fez virar tudo o que sabia de cabeça para baixo, usando seus escritos para transmitir sua própria visão sobre o Paradoxo. O que é muito legal, pois eu estava muito travado em minhas próprias conclusões.

E isso é uma das coisas que mais me fascina na ficção científica. Quando a obra ficcional é capaz de alterar profundamente a forma como enxergamos nosso futuro, se aventurando por áreas que ainda não dominamos completamente, a ponto de moldar a forma como iremos buscar por todas essas coisas no futuro.

Os livros de Cixin foram capazes de me fazer refletir durante semanas, e expandir o horizonte dos conceitos que eu tinha até então sobre esse tema. A exploração espacial parece estar na moda de novo, e estou muito empolgado por fazer parte dessa geração; cada foguete que retorna à Terra quase me faz chorar. Mesmo que talvez apenas os netos dos netos dos meus netos possam caminhar em outras bandas do Sistema Solar.

Pouso do primeiro foguete reutilizado da companhia SpaceX. Simplesmente emocionante.

Remembrance of Earth’s Past pode ser apenas ficção, mas serve de alerta para a humanidade: o Universo não foi feito para amadores.