O que aconteceu com a galera do Metagene, que não se pronunciou uma única vez a respeito desta temporada sensacional de Game of Thrones? Eu respondo: estávamos em choque. Não conseguíamos nem conversar entre nós sobre a sexta temporada, que teve a capacidade de exibir um capítulo excelente atrás do outro, SEM EXCEÇÃO — um milagre por si só.

Falando sério, a gente estava esperando pelo final do décimo episódio para fazer uma análise completa sobre como a última temporada transmitida pela HBO fez o que parecia ser impossível nos livros de George Martin: concluir histórias ou fechar arcos de histórias. Foram dez semanas de tensão, e agora é hora de falar o que achamos de tudo que vimos.

[AVISO: este texto tem SPOILERS]

Spoilers tipo este daqui. Tome!

Spoilers tipo este daqui. Tome!

Se você também leu As Crônicas de Gelo e Fogo lá atrás, nos idos de 2010~2012, deve ter terminado A Dança dos Dragões pensando algo parecido com: “George Martin vai precisar de pelo menos mais 3 livros para terminar esse negócio todo”. Isso porque, até o quinto livro, novos personagens e linhas de narrativa não paravam de surgir. GoT foi ficando cada vez mais denso, mais segmentado, mais intrincado.

Essa mesma característica que enaltece Martin — sua criatividade sem limites — também o condena de certa maneira. Quanto mais densa a história, mais difícil e trabalhoso fica para dar-lhe um final contundente. Ninguém quer ouvir uma história sem fim, contudo era nessa situação em que muitos de nós, fãs dos livros, estamos. Admirados com a capacidade do autor em criar, mas decepcionados com sua incapacidade de terminar — ou pelo menos, com sua demora em fazê-lo, uma vez que o sexto livro ainda não foi lançado.

Logo, a adaptação da HBO se tornou minha maior esperança de ver essas ótimas histórias continuarem de alguma forma e, quem sabe, alcançarem um final razoável. Admito que no começo não estava nem aí para o seriado, porque temia que todos os (muitos) cortes de roteiro necessários para adaptar GoT à televisão acabariam com sua essência. Pensava que storylines importantes seriam perdidas, que aquele gostinho de imprevisível da obra de Martin ou que o espírito de GoT iria pelo ralo. A TV realmente funciona de uma forma completamente diferente da literatura, e a “Baderna de Martin” (como eu carinhosamente apelidei seus livros <3) não funcionaria na televisão em sua forma crua. Graças aos Sete! Pois foi justamente a necessidade de cortar elementos para produzir um seriado de TV que fez GoT tomar o rumo que nos livros parecia estar bem distante.

D. B.Weiss e David Benioff — criadores, roteiristas, diretores e produtores do seriado — estavam cientes desta necessidade e fizeram um trabalho excelente, podando toda a narrativa de Martin durante as cinco primeiras temporadas, de forma a criar uma versão reduzida, mas muito mais clara e organizada de GoT. Algo que pudesse ser levado adiante sem comprometer a beleza da obra, e o mais importante, algo que pudesse ser finalizado em algum momento futuro. E foi o que eles fizeram.

Com o seriado finalmente ultrapassando os livros nessa sexta temporada, Weiss e Benioff estavam “livres” (entre aspas, porque Martin também fez parte do time de criação) para direcionar GoT à sua maneira. E a regra de ouro dos caras para essa fase do tv show foi fechar os arcos abertos — que, mesmo após a adaptação, ainda eram muitos —, utilizando os personagens já presentes na narrativa e trazendo de volta os personagens com histórias pendentes, com intuito de dar um fim a elas também. Tudo na sexta temporada de GoT foi direcionado para unificar a trama, libertando os personagens de suas histórias individuais e trazendo de volta ao jogo os que estavam muito isolados, excluindo assim núcleos que já haviam cumprido seu papel de alguma forma na narrativa.

Mas antes de falarmos sobre o resultado de todo esse processo de adaptação e de como foi o recebimento do público, vamos parar um pouco e falar sobre a última temporada de GoT. Sair um pouco do “eu acho”, revendo o trabalho de Weiss e de Benioff para entender como o seriado deu rumo certo e necessário às boas (mas infindáveis) ideias de seu criador.

Agora é sério: vai ter SPOILERS PRA C****** daqui em diante. Se você ainda não viu GoT ou pelo menos a última temporada (seu MALUCO!), eu pararia por aqui.

Vamos aos fatos.

Arya Stark finalmente acordou pra vida. Sua “jornada espiritual” em Braavos, na Casa do Preto e do Branco, terminou depois de muita perda de tempo. Arya despertou da ilusão de querer ser uma garota sem nome. O que parecia de início ser uma perspectiva interessante para a menina Stark — aprender as artes assassinas dos Homens Sem Rosto e se tornar uma arma mortal — acabou por não satisfazer a própria personagem, que cansou de brincar, tocou um foda-se legal, e resolveu juntar as tralhas pra voltar para casa. Arya, antes isolada, foi trazida de volta ao jogo, com sangue nos olhos, mais vivida, e com algumas habilidades novas nos bolsos. Lorde Walder Frey que o diga! “A girl is Arya Stark of Winterfell, and she’s going home” (traduzindo, “Uma garota é Arya Star de Winterfell, e ela está indo para casa”) foi a melhor fala da personagem e está me causando arrepios até o presente momento.

Obrigado GoT por me fazer tão feliz com esse momento!

Obrigado GoT por me fazer tão feliz com esse momento!

Ainda em Essos, outro momento que esperávamos há bastante tempo também aconteceu. A saga de Daenerys como a Mysha e Khaleesi cumpriu seu papel e também terminou. Apesar de ter levado cinco temporadas para chegar a esse ponto, todo o tempo foi bem empregado. Dany passou por experiências que lhe ensinaram a governar e comandar de verdade, porque seus títulos bonitos não lhe ajudariam nisso. Além do aprimoramento pessoal, Dany necessitava de apoio militar. Foi precisamente o que ela consegui na sexta temporada de GoT: um grande exército formado por Imaculados, ex-escravos fiéis, dothrakis que a vêem como sua deusa, mercenários ansiosos por ouro e três dragões crescidos e bastante obedientes. Dany agora está completamente apta a voltar para Westeros e tomar o Trono de Ferro, seu por direito (o que, pessoalmente, quero que aconteça). Faltava uma armada grande o suficiente para levá-la de volta a sua terra natal. Não mais.

Entrou em cena um núcleo de história que, até a quinta temporada, eu não via justificativa plausível para ser mantido na trama, mas que nessa temporada fez todo sentido: Theon e Yara Greyjoy e as Ilhas de Ferro. Depois de só ter ferrado com a vida dos Stark, Theon conseguiu se redimir ao libertar Sansa (já falamos dela daqui a pouco) e a si mesmo das garras de Ramsey Bolton. Uma vez livre, Theon retorna a Pyke, oferecendo seu apoio político para sua irmã Yara na disputa pelo trono das Ilhas de Ferro, recusando seu direito como legítimo herdeiro. Juntos, os irmãos Greyjoy partiram (fugiram, na verdade) para Mereen, em busca de uma tal de Rainha dos Ândalos, dos Rhoinares e dos Primeiros Homens, exilada nas terras do Leste, mas cheia de vontade de reconquistar seu trono: Daenerys Targaryen. That´s right! Numa tacada só, os dois núcleos de histórias se uniram. Os Greyjoy justificaram sua presença na trama e Dany enfim tem condições de voltar para casa em toda a sua glória. A cena em que Dany e Yara apertam as mãos e selam seu acordo valeu cada minuto assistido.

Yara e Theon Greyjoy. Sem trono, sem casa, mas com muitos barcos e uma nova rainha.

Yara e Theon Greyjoy. Sem trono, sem casa, mas com muitos barcos e uma nova rainha.

Agora vamos para Westeros. Especificamente no Norte, que foi onde a maior parte dos acontecimentos relevantes se desenrolaram, em duas frentes principais encabeçadas pelos Stark sobreviventes.

Ao Norte da Muralha, Bran Stark concluiu seu treinamento para se tornar o Corvo de Três Olhos. Meio que sem querer, é verdade. Bran é mesmo um cara de muitos dons, inclusive o de fazer umas cagadas (a.k.a. ver o que não deveria), e alguém teve que pagar o preço. Tivemos que nos despedir de Hodor, do lobo gigante Verão e das Crianças da Floresta.

Contudo, Bran pôde ver coisas bem interessantes e essa foi a grande utilidade do seu arco de história para a trama como um todo e para nós, fãs e espectadores. Suas visões foram empregadas como ferramenta narrativa para voltar ao passado e fechar pontos que envolvem a família Stark – em especial, o mistério por trás de Lyanna Stark, confirmando de uma vez por todas a teoria de que Jon não um bastardo qualquer de Ned Stark, mas um Stark legítimo.

“Hodor, hold the door!!!” :(

“Hodor, hold the door!!!” :(

Já na Muralha e pouco ao sul dela, o negócio foi mítico pra caramba. Para a surpresa de todos ninguém, Jon Snow ressuscitou. Bem a tempo de receber em Castelo Negro sua irmã Sansa, que depois de 4 temporadas comendo o pão que o diabo amassou, finalmente teve uma folguinha e reencontrou o meio-irmão. Livre de seu juramento para com a Patrulha da Noite depois de ter dado sua vida (literalmente) por ela, Jon estava desimpedido para seguir seu próprio caminho.

A sexta temporada uniu as storylines de Jon e Sansa com o objetivo de pôr fim à jornada de Ramsey Bolton como Protetor do Norte e Senhor de Winterfell. Estava mais que na hora, visto que o personagem de Ramsey já havia cumprido seu papel: ser o traidor idiota que causaria uma guerra grande o suficiente para reunificar o Norte.

E que guerra, meus caros! Em uma das cenas de batalhas mais incríveis já rodadas (sem dúvida a melhor já feita para um seriado de televisão) Jon, Sir Davos, Tormund e os selvagens do Norte enfrentaram as forças de Ramsey numa luta épica. Graças a uma ajuda de última hora — vinda dos Cavaleiros do Vale, liderados por Mindinho, que cobrará seu preço — eles vencem a batalha e reconquistam Winterfell, mas não sem perder muitas vidas no processo. De uma forma ou de outra, o Norte está mais uma vez sob o domínio legítimo dos Stark e pronto para enfrentar a real ameaça aos Sete Reinos: os White Walkers e seu terrível Rei da Noite. #riprickon #ripcãofelpudo #ripwunwun #ripselvagenslegais

Quem aqui não pensou que Jon Snow ia morrer nessa cena? Ressuscitar ele mais uma vez ia ser um vacilo com George Martin.

Quem aqui não pensou que Jon Snow ia morrer nessa cena? Ressuscitar ele mais uma vez ia ser um vacilo com George Martin.

Agora vamos voltar para a teoria.

Muita gente tem criticado a sexta etapa de GoT, dizendo que ela foi escrita por Weiss e Benioff num puro fan service. Gente que achou que o retorno de Jon Snow do mundo dos mortos para reconquistar Winterfell, ou que o aparente sucesso de Daenerys em sua campanha rumo a Westeros, foram feitos apenas para conquistar o público. Em outras palavras, que a sexta temporada foi feita para agradar geral com personagens badass, algo impensável na obra de Martin, que se consagrou justamente por não dar a mínima para suas crias (e para o sentimento dos fãs). Parece mesmo, mas não acho que esse seja o caso. Por dois motivos simples:

1) Tudo que aconteceu tinha que acontecer. Volte um pouquinho nos parágrafos anteriores. Veja todas as mudanças significativas realizadas por Weiss e Benioff — com a orientação de Martin, é claro — na história de GoT. Todas elas precisavam acontecer e já eram esperadas. Se você conhece mesmo a história, sabe que não havia como Jon Snow continuar morto ou que Daenerys cedo ou tarde iria rumar para Westeros. Jon e Dany são as duas peças centrais de GoT. As Crônicas de Gelo e de Fogo, sacou? Não tem nada de fan service aqui. Todos esse eventos precisavam ocorrer para GoT seguir seu curso e poder terminar um dia, seja na TV ou nos livros que virão.

2) Da forma que estava, o show não iria pra frente. O narrativa televisiva ultrapassou os livros de Martin e agora ele é mais uma obra original do que uma adaptação. Ainda bem, porque os livros são uma bagunça enorme, sem chances próximas de conclusão. Por melhor que fossem ideias de Martin, em sua forma crua elas não funcionariam na TV. Infelizmente, porque eu sou um grande fã dos livros. Por outro lado, GoT continua avançando na TV, enquanto nos livros… bem, se você está a fim de sentar e esperar, fique à vontade. Eu já fiz minha escolha.

Sobrou para Martin o trabalho de explicar em seus futuros romances como os eventos chave da sexta temporada vão se encaixar na sua narrativa, que difere em muitos pontos do seriado. O que Rickon fez durante os anos que esteve em fuga? O que o Cão de Caça fez para sobreviver? O que deu tão errado em Dorne? Onde está a Senhora Coração de Pedra, Catelyn Stark, ressuscitada pela Irmandade sem Bandeira? Talvez a gente mate algumas destas dúvidas em futuros episódios da série, mas quero muito continuar lendo os livros e descobrir tudo isso. Capricha Martin. Capricha.

A melhor experiência que esta temporada de Game of Thrones me proporcionou foi a de finalmente poder continuar uma história que comecei há tanto tempo anos atrás. Pela primeira vez eu assisti cada episódio com o coração na mão, sem nem piscar. Porque mesmo tendo uma boa ideia do que os episódios iriam entregar, tudo foi tão perfeitamente executado, roteirizado e filmado, que as coisas mais óbvias ficaram absurdamente encantadoras. Se já não o havia feito antes, GoT se consagrou em 2016 como o melhor TV Show da história. E tem mais por vir.