Late to the Party (LTTP) é a editoria do Metagene onde a nossa equipe fala sobre obras da cultura pop que não são lançamentos recentes.

 


Se tem uma festa em que eu não só faria questão de chegar atrasado, como também gostaria de não estar presente, é a de Jurassic World: Reino Ameaçado (Fallen Kingdom, no original).

E fico bem triste de escrever isso porque eu gostei bastante do primeiro filme do revival de 2015, e esperava por uma sequência que tivesse, no mínimo, a mesma qualidade do título de estreia.

Eu até entendo os motivos pelos quais a grande maioria dos fãs da franquia não gostou do Jurassic World estrelado por Chris Pratt e Bryce Dallas Howard. O filme de 1993, dirigido por Steven Spielberg, foi um marco para a indústria do cinema e para uma geração inteira que, assim como eu, cresceu nos anos 90.

O Parque dos Dinossauros é um filme “mágico” que utiliza de efeitos práticos e animatrônicos para dar vida aos dinossauros e criar o seu mundo perdido. Naquela época, esses efeitos conseguiam aterrorizar até mesmo as mais valentes crianças e até hoje nos faz pensar na genialidade por trás das câmeras que permitiu a criação de um universo tão rico e realista, mesmo com as limitações daquele período e pouquíssimos efeitos visuais.

O primeiro Jurassic Park marcou a indústria do cinema e uma geração inteira

E é sempre difícil competir contra a nostalgia: Star Wars está passando por isso, O Hobbit e Planeta dos Macacos já encararam o problema — e só Cézar e seus companheiros saíram elogiados — e As Crônicas de Nárnia também passará pela mesma situação em breve quando seus materiais novos estrearem na Netflix. Ou seja: toda obra considerada um clássico terá uma resistência maior por parte dos fãs, porque esse é o tipo de coisa que mexe com as memórias afetivas das pessoas.

Afinal, saem os efeitos práticos tão geniais e assustadores, e entram os bichos de CGI que vemos por aí em quase todos os filmes — e, no caso de Jurassic World, o resultado não ficou tão bom assim.

No entanto, eu acredito que o revival conseguiu cumprir com o seu objetivo de ser um filme pipoca, cuja a principal função é divertir seu público. Jurassic World consegue emular — mesmo que de formas problemáticas que envolvem roteiro, diálogos e efeitos — o sentimento do primeiro filme original. Isso se deve principalmente pela estrutura do longa: assim como no título de 93, no de 2015 temos um problema grave acontecendo no parque que deve ser resolvido lá mesmo, a presença de crianças e adolescentes, um casal protagonista e dinossauros devorando pessoas. É um filme decente na minha opinião.

Contudo, algumas coisas me deixaram com um Velociraptor atrás da orelha: toda a questão envolvendo a criação dos dinossauros geneticamente modificados que levam a história para um lado mais corporativo e governamental me incomodou porque eu tinha certeza que esse seria o caminho escolhido para as sequências.

Dito e feito.

O maior problema do segundo filme da nova série é que, assim como diversos filmes, ele cai na famosa armadilha da escala, como disse em outro post sobre a Fênix Negra aqui no site. É aquela mania que estúdios e diretores têm de achar que o próximo título deve ser maior que o anterior: mais reviravoltas, explosões, ação, correria, ameaças maiores, vilões mais fortes, etc.

A relação do personagem de Pratt com Blue é ótima, mas o rumo disso é preocupante…

E Reino Ameaçado caiu nessa armadilha — que é do tamanho de um T-Rex. Ao invés de focar na história da nova extinção dos dinossauros remanescentes da ilha do primeiro filme e criar uma nova aventura fechadinha e com os pés no chão, os roteiristas optaram por se aprofundar na trama da genética e das conspirações empresariais.

O resultado foi um filme simplesmente horroroso e difícil de assistir: diálogos rasos, péssimas sequências de ação, roteiro previsível e alguns absurdos na história que me deixaram com ainda mais medo do que está por vir nos próximos títulos. Cheguei até a pensar se o que estava vendo era uma semente plantada para a franquia fazer uma espécie de Planeta dos Macacos envolvendo dinossauros em um futuro próximo.

Falando nos símios, enquanto assistia Jurassic World 2 eu fiquei com a sensação de que a estrutura do filme me lembrava bastante a de Kong: A Ilha da Caveira (2017): nos dois filmes os protagonistas têm que lidar com o estereótipo de general radical que trata mal os animais e se ferra no final — em Kong, o papel coube à Samuel L. Jackson. E não é que eu descobri que ambos os filmes compartilham o mesmo roteirista? Derek Connolly é o nome da figura que precisa dar uma renovada em suas referências e na sua escrita — mesmo que não seja o único roteirista envolvido na produção.

Essa cena, além de ser triste pra caramba, mostra que existe um caminho interessante para a franquia

É uma pena que Reino Ameaçado não tenha a mesma capacidade que seu antecessor tem para divertir público e fãs. Fico ainda mais triste quando penso que a sequência poderia ter caminhado em uma direção muito mais interessante que envolvesse a extinção dos animais jurássicos e qual o papel do mundo e da sociedade nesse roteiro. Mas, ao invés disso, acabou caindo no clichê governamental que tem aos montes por aí.

Agora, meu medo em relação ao que o futuro nos reserva para a franquia está maior do que o medo que tinha dos dinossauros no filme do Spielberg quando tinha cinco anos.

No fim, eu deveria ter jogado a “carta da gastrite” e faltado nessa festa horrível.