Há três anos, a até então desconhecida desenvolvedora francesa Dontnod lançou o que viria a se tornar um dos melhores jogos de 2015 e uma das franquias com uma das fanbases mais dedicadas de todos os tempos. Em Life is Strange, fomos obrigados a tomar decisões incrivelmente difíceis e sentir as mais diversas emoções ao vivermos as aventuras de Max e Chloe na pequena cidade de Arcadia Bay, Oregon. Agora, com o enorme desafio de apresentar uma sequência que faça jus à reputação praticamente imaculada do primeiro jogo, a Dontnod decidiu deixar as antigas protagonistas de lado e contar uma nova história, com um novo foco, mas com o mesmo coração.

Life is Strange 2 conta a história de dois irmãos, Sean e Daniel, que são obrigados a partir em uma difícil viagem após algumas circunstâncias desagradáveis. São personagens incrivelmente mundanos e de fácil identificação: Sean é um típico adolescente americano de 16 anos, com uma vida e personalidade completamente normal. Ele tem seus momentos de rebeldia, uma melhor amiga que lhe dá conselhos amorosos, vai à festas e por aí vai. Já Daniel, seu irmão mais novo de 9 anos de idade, tem uma personalidade energética, simpática e gosta bastante de brincar, como praticamente toda criança. São pessoas comuns, que se metem em uma situação difícil que serve como o pontapé inicial dessa história.

E se você está se perguntando se também existem poderes na trama, a resposta é sim — mas vamos deixar isso para depois. O que importa mesmo aqui, por enquanto, é a conexão entre o jogador e esses personagens.

A jornada entre esses irmãos já começa forte e poderosa

O primeiro episódio de Life is Strange 2, intitulado Roads, prepara o terreno para a nova história de uma forma deslumbrante e, na minha opinião, de uma maneira muito mais robusta e fluida do que o primeiro capítulo de seu antecessor. O ritmo da narrativa é conduzido de forma inteligente e o jogo não espera muito para fazer as coisas acontecerem. O “setup” é rápido, mas suficiente para você conhecer bem os personagens, suas motivações e ter uma noção da dinâmica da relação entre os dois. É um capítulo com uma introdução rápida e certeira e onde, no restante do episódio, muito acontece — mas sem parecer sufocante. Apesar de ser apenas o primeiro capítulo de cinco, é um episódio bastante dinâmico e com muito para se absorver.

A história aqui é mais madura, contada de forma confiante, onde o mérito não fica apenas por conta dos eventos que movem a trama mas também do excelente trabalho feito com os dois protagonistas. Mesmo com a aparente “dureza masculina” da dupla, especialmente de Sean, é uma história que é abordada com delicadeza e sensibilidade (o que não é estranho à série), que traduz uma sinceridade bastante acolhedora à tela. Inclusive, o poder sobrenatural apresentado em Life is Strange 2 também é ativado por um trauma, mas aqui ele nunca toma protagonismo e é mais parte do contexto. O episódio se importa mesmo em estabelecer essa relação e a dinâmica entre os dois.

Transformar Sean e Daniel em personagens empáticos definitivamente foi um dos maiores trunfos da Dontnod com esse capítulo. Os personagens parecem mais reais: os diálogos evoluíram e estão melhor escritos, mais naturais e mais jovens. Além disso, a maneira como os dois interagem é simplesmente fantástica. Sean, por exemplo, serve como uma grande influência para Daniel, que observa as ações do irmão (ou suas, do jogador) com cuidado. Existe um momento, por exemplo, em que você pode escolher ou não roubar certos objetos e isso pode influenciar a conduta de Daniel mais à frente. Toda pequena ação tem a sua consequência, seja ela moral ou no próprio desenrolar da história, então é sempre importante prestar atenção. Por detalhes como esses, é impossível não acabar se identificando e criando grande empatia por esses personagens.

Aqueles momentos de paz no meio do caos, tão famosos em Life is Strange, permanecem incríveis!

A evolução técnica da franquia também é considerável e uma das melhores características desse novo episódio. Podemos dizer adeus à sincronia labial relaxada e às animações estranhas, por exemplo, já que o cuidado e polimento nesses aspectos é evidente. O jogo faz um ótimo uso da Unreal Engine 4 e apresenta belíssimos gráficos, com cenários ricos de detalhes, texturas de melhor qualidade e um trabalho exemplar de iluminação e sombras — não vai ser incomum você querer tomar seu tempo apreciando certas paisagens, por exemplo. Até a interação com os objetos do cenário aparentam ter sido beneficiadas, parecendo importar mais. De forma resumida, o jogo está realmente bonito e a evolução técnica é nítida.

A trilha sonora original é mais uma vez assinada pelo músico Jonathan Morali (Syd Matters) e continua sendo um dos maiores destaques, compondo a ambientação de forma impecável e servindo como um elemento essencial na condução da narrativa. A trilha licenciada, que também era um dos maiores destaques do primeiro jogo, parece ter recebido um orçamento um pouco maior e logo no primeiro episódio o jogo apresenta músicas de bandas mais conhecidas, como Phoenix e Bloc Party. A escolha da trilha é bem interessante e as músicas são introduzidas nos momentos corretos.

No geral, as mecânicas de gameplay não mudaram muito (até porque o gênero não permite nada mirabolante) e, nesse sentido, o jogo continua basicamente o mesmo: fácil, intuitivo e sem muitas firulas. A exploração também continua como um dos pontos fortes, recompensando o jogador que gosta de investigar os cenários, e o episódio apresenta bastante carinho nos detalhes, tornando o contexto ainda mais rico quando o jogador decide tomar o seu tempo e olhar tudo com cuidado. Além disso, aqueles pequenos momentos onde você pode parar, sentar e respirar, em que o personagem aproveita para desabafar internamente sobre a vida, ainda estão presentes e são tão preciosos quanto antes.

O tom e o sentimento geral é de grande melancolia, e os cenários representam isso muito bem

Um ponto importante do episódio (e que definitivamente não dá pra terminar o texto sem citar!), é como esta história não se esconde das questões políticas. Os dois garotos são americanos, de descendência hispânica, e a trama se passa em 2016 logo após as eleições presidenciais americanas. A intolerância, o preconceito, o racismo e a brutalidade policial, temas e problemas tão presentes no contexto político americano atual, estão lá e movem a história de forma significativa. Temos, por exemplo, personagens citando o muro de Trump e outros que julgam Sean e Daniel apenas pela sua cor de pele. É relevante, é atual, é real e angustiante. Life is Strange 2 definitivamente tem uma voz e não tem medo de usá-la.

No mais, com uma duração de aproximadamente 5 horas, o primeiro episódio de Life is Strange 2 passa o sentimento de ser uma evolução natural da franquia ao manter a sua essência ao mesmo tempo em que mostra melhoras e encontra maneiras de parecer novo. É um jogo que consegue caminhar com as próprias pernas e se mostra um sucessor digno de uma história tão querida quanto a vivida anos atrás por Max e Chloe. A jornada de Sean e Daniel começou emocionalmente forte e é difícil já não sentir por esses dois personagens, mostrando que a Dontnod, mais uma vez, tem uma obra bastante especial em mãos.

A espera pelos próximos capítulos vai ser definitivamente difícil. Enquanto isso, vou estocando uns lencinhos para enxugar as lágrimas que vem pela frente.