Life is Strange: Before the Storm – A nova série inicia com o pé direito

O primeiro episódio acerta mais do que erra e mostra muito potencial para o que vem pela frente
por: 06 de setembro de 2017
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Life is Strange foi uma experiência que me marcou de uma forma que praticamente nenhum outro jogo conseguiu. Publicado em 2015, a série episódica desenvolvida pela francesa Dontnod conseguiu manifestar em mim diversos sentimentos que acabaram fazendo com que eu experienciasse uma conexão enorme com aquela história e seus personagens. É claro que, quando soube que a série iria ganhar um prequel, outros sentimentos foram provocados em mim: primeiro de alegria e, depois, de medo. Afinal, estariam mexendo em uma história que eu julgava bastante especial, cujo conjunto da obra eu considero praticamente perfeito.

Para complicar a situação, foi anunciado que o novo jogo estava sendo desenvolvido por um outro estúdio: a Deck Nine Games, anteriormente conhecida como Idol Minds, que tem um currículo nada animador em suas costas, cheio de jogos que nunca passaram da linha do medíocre (o que certamente deve ter motivado a troca de nome). Foi natural, portanto, que a minha abordagem em relação a esse primeiro episódio de Life is Strange: Before the Storm acontecesse de uma maneira um pouco receosa. Felizmente, a nova desenvolvedora mostrou uma competência surpreendente e apresentou um produto que superou minhas expectativas e aliviou os meus medos. Ufa!

Before the Storm

Pode relaxar, Chloe. O seu legado continua em pé!

A história de Before the Storm nos traz de volta à pequena cidade de Arcadia Bay e acontece três anos antes do jogo original. A protagonista dessa vez é Chloe Price que, assim como no primeiro jogo, é uma figura bem diferente de Max Caufield, a protagonista anterior: enquanto Max é mais ponderada e reservada, Chloe é agitada, rebelde e debochada, o que acaba provocando uma dinâmica bem diferente nas relações entre a protagonista e os personagens dessa nova história. Mas, assim como no original, Chloe não é apenas isso — ela também tem seus medos, anseios e inseguranças. É uma personagem que, mesmo em uma versão mais nova e imatura, consegue ter profundidade.

Com Max fora da cidade, a trama é desenvolvida em volta da nova e inesperada relação entre Chloe e Rachel Amber, uma importante personagem do primeiro jogo que por acaso também é a menina mais querida e popular da escola, com uma vida aparentemente perfeita. Ou seja, o total oposto de Chloe. Este primeiro capítulo (serão três no total) é focado principalmente no início da amizade das duas e na (re)introdução de Arcadia Bay e seus personagens. Apesar de não ser tão agitado e de não ter grandes reviravoltas, é uma introdução competente que pavimenta bem o caminho para os próximos episódios.

Before the Storm

Bem-vinda de volta, Arcadia Bay! Sentimos a sua falta!

Um dos grandes desafios de Before the Storm era de capturar a essência do jogo original, o que a Deck Nine felizmente conseguiu fazer muito bem. Desde o primeiro momento em que começa a controlar Chloe, você realmente sente que está jogando um jogo da série — é bem impressionante como a desenvolvedora conseguiu capturar o espírito e a apresentação do primeiro jogo. Os elementos-chave estão todos lá: é um adventure que permite a exploração e interação com o cenário e que possui uma história cheia de ramificações, fazendo com que os acontecimentos seguintes sejam todos influenciados pelas suas escolhas, sejam elas grandes ou pequenas. Continua sendo, portanto, uma história alicerçada em causa e efeito.

Mas é claro que o novo capítulo possui as suas diferenças. Um dos elementos que ajudam a dar o impulso do primeiro jogo são os poderes de controlar o tempo da Max. Já neste novo jogo (pelo menos no primeiro capítulo), os elementos sobrenaturais são deixados totalmente de lado e agora temos uma história completamente movida pelos seus personagens — que não é uma desvantagem, na minha opinião. Afinal, Life is Strange nunca foi sobre poderes e sim sobre a sua história. Mas isso não quer dizer que a Chloe não tem uma característica especial: é introduzida uma nova mecânica chamada Backtalk, onde nossa protagonista consegue usar o seu pensamento ágil para bater boca com os demais personagens, possibilitando a ela tirar vantagem ou se livrar de certas situações. É uma mecânica bem interessante e que faz total sentido para a personagem.

E por falar em personagens, outro grande acerto em Before the Storm é o fato de que a desenvolvedora conseguiu, com bastante sucesso, não apenas transmitir com uma certa perfeição a essência das figuras já conhecidas, mas também adicionar mais profundidade a elas. Os novos personagens também não ficam para trás e são bastante carismáticos, bem de acordo com o que já era conhecido na série. Acho importante destacar, também, o cuidado e o carinho que tiveram com a personagem da Rachel Amber — uma figura do jogo original que muito ouvimos falar mas nunca chegamos a realmente conhecer. Ela realmente passa a sensação de ser a figura interessante, quase “mítica”, que tanto associavam ao nome dela.

Before the Storm

As relações entre os personagens continuam o maior ponto forte da série

No aspecto sonoro, o jogo começa a tropeçar um pouco. Enquanto a trilha sonora — assinada pela banda britânica Daughter — é excelente e compõe a ambientação com perfeição, o jogo peca com algumas das suas escolhas na dublagem dos personagens. A nova atriz da Chloe, apesar de não ser tão boa quanto a Ashly Birch (que não pôde reprisar o papel por conta da SAG Strike, uma grande greve de dubladores de jogos), é competente e te faz esquecer que é uma nova voz em poucos minutos de jogo. Mas alguns outros personagens, como David (o padrasto de Chloe — também com novo dublador) e da própria Rachel, acabam deixando um pouco a desejar. Não é um problema muito grande, e acontece com poucos personagens, mas é o suficiente para deixar você estranhando.

Alguns problemas técnicos também aparecem aqui e ali — pequenos bugs e glitches que atrapalham um pouco da performance do jogo, mas nada muito sério ou que comprometa a jogatina. Os gráficos, apesar de não serem nada especial, dadas as limitações de orçamento, seguem o mesmo estilo artístico do jogo original e apresentam algumas melhorias interessantes. A expressão facial dos personagens, por exemplo, está significantemente mais caprichada, sendo um dos aspectos técnicos de maior destaque. E a sincronia labial — um dos maiores problemas do primeiro jogo — também está mais certeira.

Before the Storm

O jogo acerta em cheio no que faz Life is Strange tão especial.

No geral, o primeiro episódio da série é uma grata surpresa e faz bonito. Apesar de ter uma grande responsabilidade em mãos, levando em consideração o tamanho da base de fãs do jogo original, a Deck Nine merece apenas elogios por ter conseguido encarar esse projeto de cabeça erguida e apresentado um resultado inicial tão bom. Before the Storm tem uma energia bastante similar e respeita o material original, mas ao mesmo tempo consegue se sustentar com as próprias pernas, trazendo uma experiência muito bem-vinda para os fãs e novos entrantes.

Todos esses pontos fortes me deixaram bastante ansiosa para o próximo episódio. Se a Deck Nine conseguir manter essa mesma qualidade nos episódios seguintes, o que acredito que seja possível, a série completa pode acabar sendo um dos melhores títulos do ano. Com um início forte e um final de episódio que deixa um cliffhanger bem interessante para o próximo, Before the Storm tem uma chama própria que queima forte e demonstra um potencial enorme para ser tão especial quanto o primeiro Life is Strange. No final do dia, é um jogo que ninguém pediu para que fosse feito, mas que eu fico muito feliz por existir. E até o episódio 2!

*Agradecemos a Square-Enix pelo código fornecido para a análise do jogo