Texto escrito por Eric Araújo.

Imagine que você seja um escritor desconhecido, tentando ganhar seu espaço no mercado e também em um mundo que demonstra pouco interesse no que você faz, publicando seus livros em uma editora que mal consegue pagar as próprias contas. Além disso, o dono é seu amigo, parceiro de boteco e confidente na hora de filosofar sobre assuntos diversos como: reclamar da vida, do trabalho e de parentes.

Se tudo isso não bastasse para que a falta de perspectiva tomasse conta de sua alma, a grana está curta, sua ex-mulher te odeia e você passa pela pior crise criativa de sua carreira. Eis que repentinamente surge uma oportunidade que pode render uma história interessante, por mais excêntrico que seja o tema. Quando menos espera, o envolvimento com o projeto faz com que sua vida vire de ponta cabeça, fazendo você entrar em um turbilhão de acontecimentos bizarros e inimagináveis. Conheça Gonçalo, protagonista de Matadouro de Unicórnios, um dos quadrinhos nacionais mais divertidos e instigantes lançados em 2016.

Seguindo uma linha narrativa não linear, a obra nos apresenta uma história racionalmente absurda, mas que poderia muito bem acontecer comigo, com você, ou com qualquer outra pessoa que busca reconhecimento, por meios nem um pouco éticos e convencionais.

O protagonista, em um claro momento, no qual ele mesmo define, em que se “arrombou”.

Gonçalo pode ser definido como um personagem nem um pouco afortunado, que busca encontrar algum sentido existencial entre os livros que escreve e uma garrafa de whisky barato. Praticamente falido, decide aceitar uma proposta de seu editor como ghostwriter, e relatar a vida de um serial killer necrófilo.

O perfil do assassino se parece muito com as histórias de famosos serial killers pelo Brasil que apareceram nos últimos anos. Assim como eles, sua estratégia consistia em elogiar a beleza de suas vítimas, todas mulheres, a fim de atraí-las para um local reservado e executar seu ritual sanguinário. Em sua cela, cartas de amor feitas por admiradoras chegam, transformando o sujeito em uma celebridade televisiva, digno de programas de fofoca e documentários gringos. A semelhança com o caso do “maníaco do parque” não é mera coincidência.

Desde o começo da leitura, somos apresentados a um protagonista bem construído e convicto de seus atos, por mais danosos e inconsequentes que eles sejam. Gonçalo é um indivíduo frustrado que, assim como qualquer um de nós, faz de tudo para atingir um propósito, algo maior em sua vida, mas falha. Questionando o rumo de todas as coisas em monólogos cômicos consigo mesmo, e psicologicamente abalado com seu novo projeto, decide entrar de vez no submundo do assassinato, em prol de um pouco de fama e dinheiro.

É importante ressaltar que a obra não exibe imagens gratuitas de violência e gore. Há justificativa, sentido e uma estratégia por trás de cada ação, um objetivo a ser alcançado na mente perturbada do protagonista. A representação estilizada (e, de certa forma, artística) de como litros de sangue são despejados para fora do corpo humano combinam com o uso do preto e branco, dando uma sensação maior de brutalidade e desprezo pela vida alheia. Ossos partidos, pescoços esguichando sangue e nervos dilacerados. É terrível, mas divertido e consequentemente caótico, evidenciando circunstâncias que beiram ao grotesco.

Em Matadouro de Unicórnios, todos os personagens secundários e acontecimentos fazem parte de um universo em constante “efeito dominó”, onde uma ação leva a outra, sempre consequência de uma escolha feita pelo protagonista. Na situação em que Gonçalo se encontra, a chance de erro deve ser mínima, e com a experiência que acaba adquirindo ao longo de suas execuções, torna-se menos suscetível à falhas. Portanto, o quadrinho é um apanhado de causas e efeitos, transformando a jornada do protagonista em uma grande bola de neve sem um destino certo, porém grandiosa.

Definitivamente, há um mistério a ser solucionado, que é estabelecido já nas primeiras imagens da obra. Porém, se você espera ler uma história de detetive, investigando os crimes e chegando à uma resposta pronta no fim, esqueça. O roteiro é construído de uma forma que pouco importa solucionar os acontecimentos e capturar o responsável, mas sim explicar as motivações e eventos que culminaram nesse momento.

A narrativa está repleta de influências diretas ao cinema e à literatura de terror, além de personagens da cultura pop. Usando estes componentes estrategicamente para dar sentido às cenas em que aparecem, Juscelino Neco, o autor, mostra que tem uma mente inventiva o suficiente para criar suspense e tensão nos leitores mais despreparados. Além disso, sua fonte de inspiração encontra-se nítida já na capa do quadrinho, fazendo clara referência ao giallo, gênero literário e cinematográfico italiano de romance policial, muito popular entre as décadas de 60 e 80 e repleto de histórias com serial killers.

À esquerda: Giallo, filme de Dario Argento, famoso e influente thriller italiano.

Um elemento bastante forte na obra é o humor. As situações em que Gonçalo se envolve mostram-se tão tragicômicas que fica difícil não esboçar um sorriso, dando aquela sensação gostosa de culpa por rir de algo tão errado. A mistura entre o horror e o humor negro casa perfeitamente com o contexto, moldando o roteiro do autor e servindo como ferramenta de construção do caráter do protagonista.

Dessa forma, Matadouro de Unicórnios entrega um suspense instigante e, ao mesmo tempo, divertido, por mais crua e insana que seja a narrativa. Os leitores mais ávidos do tema irão se deliciar com este banquete em quadrinhos, servindo como prato cheio à imaginação, mistério e um pouco de vísceras. (Alguém aqui convidou Hannibal Lecter?)