Meu lado fã de sci-fi agradece por Travelers existir

A produção de baixo orçamento tem boas ideias e execução caprichada. Ou seja: é tudo o que a Netflix tem de melhor
por: 30 de Janeiro de 2017
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Estou no meio de uma jornada pelas produções originais da Netflix. Esse virou meu critério de base para consumir algum novo seriado da provedora global de conteúdo via streaming. Devo dizer que já descobri muita coisa interessante durante o percurso.

A última surpresa foi Travelers (2016), uma co-produção com a emissora canadense Showcase. Um sci-fi muito bem executado, mesmo partindo de uma premissa simples e bastante gasta: viagens no tempo.

CUIDADO: possíveis spoilers do seu futuro nos próximos parágrafos!

A indicação despretensiosa veio de um amigo, e não a levei muito a sério logo de cara. Em comparação com Stranger Things e The OA, Travelers foi pouco divulgado pela própria Netflix. Mas como tinha acabado de terminar The OA — que é legal, mas nada demais, vai por mim —, e também como a descrição do seriado parecia curiosa, o dedo da ficção científica coçou e resolvi dar play.

Têm gente achando que Stranger Things e The OA estão conectados. Estamos presenciando o nascimento do Universo Netflix?

Logo nos primeiros minutos vemos o modo como os “viajantes” chegam do futuro para os nossos dias atuais. E nesses mesmos minutos o seriado rendeu aquele bom e velho “EITA!”, porque os personagens retornam no tempo de uma forma bastante original: apenas suas mentes é que fazem a viagem, assumindo o corpo de alguém exatamente no momento registrado de sua morte. Uma espécie de transferência de consciência, que só funciona graças ao alto índice de conectividade das pessoas do século 21 — smartphones, computadores, GPS, câmeras e mídias sociais, tornando possível saber tudo sobre todos.

Diferente do que acontece no clássico Exterminador do Futuro (1984), Travelers explora essa outra possibilidade de viagens no tempo — uma viagem não física —, algo que poucas vezes vi sendo feito mas que se encaixa perfeitamente na dinâmica e no enredo da história.

Antes de continuar, um comentário: dessa vez não vou analisar o nível de precisão científica de Travelers — assim como fiz em ARQ, outro original Netflix —, porque o próprio seriado não se mete a explicar exatamente como funcionam essas viagens. Tenho que dizer que essa foi uma decisão bastante acertada, pois no mundo da ficção científica, não tentar explicar um fenômeno complexo pode ser melhor do que fornecer uma explicação furada e sem sentido.

Retomando o raciocínio, os travelers voltam para o século 21 em times, cada indivíduo com uma especialidade distinta, para executar missões específicas (porém interdependentes), com um objetivo final único que você já deve estar imaginando: salvar o mundo da tragédia que os motivou a voltar ao passado.

A médica, o historiador, o líder, a especialista em armas e o engenheiro. Simples, mas ao mesmo tempo bem complicado.

Cara, a gente está acostumado com isso e cresceu vendo filmes de sci-fi. Todo mundo sabe que a única regra sobre viagens no tempo é que não se deve mudar nada no passado pois, ou essa pode ter sido a origem de todo o problema, ou as coisas só vão ficar ainda piores!

É meio cômico ver que o paradoxo no tempo, tão temido pelo Dr. Emmett Brown de De Volta Para O Futuro, toma vida em Travelers. Isso é meio que inevitável, afinal produções que envolvem viagens no tempo têm 99% de chances de cair nisso. Contudo, Brad Wright (Stargate SG1), criador do seriado, não perde a oportunidade e faz a coisa tomar um rumo bastante positivo.

“It’s a paradox”. Ou não?

Ao invés de tudo dar errado de uma só vez — como era de se esperar —, os efeitos das alterações feitas pelos viajantes na história vão se refletindo gradualmente na narrativa. As mudanças que eles fizeram no presente começam a afetar o próprio equilíbrio do esquema de viagens no tempo. E as coisas começam a dar errado tão sutilmente que nem você, nem os personagens conseguem notar. Até ser tarde demais.

Como se não bastassem os problemas inevitáveis com a linha temporal, cada viajante se vê envolvido com as histórias e dilemas de seus próprios “hospedeiros”. Seguir as ordens do Diretor — quem toma as decisões e comanda os travelers —, completar as missões e salvar o futuro, isso tudo fica muito mais complicado quando você tem esposa, filhos ou aulas no colégio no dia seguinte.

Em alguns momentos é possível sentir uma certa influência de outras histórias em Travelers, como de Matrix e do próprio Exterminador. Não apenas pelas roupas dos personagens do futuro — que aparecem rapidamente em algumas cenas e lembram bastante o figurino de Matrix —, mas também pela complexidade dos dilemas que a série consegue desenvolver em sua história. Aqueles conceitos básicos de mundo real VS realidade virtual e máquinas VS humanidade ficaram ali, de leve, martelando na minha cabeça e me deixaram bastante animado para ver como eles irão se desenvolver.

Aquela malha puída, aquele perfil magro, aquela carinha de sofrimento, acho que você vai reparar nisso também.

Para minha surpresa, o final da temporada consegue ser ainda mais legal que os episódios anteriores. Não apenas os personagens mas você como espectador também vai ficar confuso, sem saber discernir certo e errado, e querendo discutir com algum amigo para ver se ele entendeu tudo da mesma forma que você. Começou com um EITA modesto, e terminou com um EITA ainda maior. Fazia tempos que não me sentia assim com um seriado sci-fi.

Com um baixo orçamento, detalhe bastante visível em diversos momentos do seriado, Travelers impressiona por demonstrar como é possível criar conteúdos legais quando você não almeja criar o próximo Avatar. Temos aí um sci-fi com pés no chão, que usa o mundo real para narrar uma aventura de ficção científica.

Apesar do conceito de viagens no tempo não ser nada novo, o ótimo roteiro, a boa direção, e as excelentes atuações criaram personagens com quem podemos nos identificar e nos envolver, e construíram uma história que só ficou melhor a cada episódio. Travelers é tudo o que a gente quer ver mais e mais na Netflix.