Mindhunter: o novo acerto da Netflix

Tecnicamente perfeito, thriller psicológico é inteligente e perturbador
por: 19 de outubro de 2017
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Você já ouviu falar sobre Edmund Kemper?

Nascido na Califórnia, esse homem de quase dois metros de altura e mais de 100 kg foi mandado para o manicômio quando tinha quinze anos por ter matado seus avós. Anos depois, já solto, cometeu dez assassinatos sequenciais e ainda tirou a vida de sua mãe na década de 70. (caso queira saber mais detalhes sobre os casos, clique aqui)

Hoje é muito fácil dizer o que homens como Kemper são: serial killers. Assassinos em série. Pessoas que possuem um modus operandi, cometem crimes com frequência e deixam suas próprias “assinaturas” nas vítimas.

Contudo, antigamente, esse termo não existia porque crimes como esse não existiam — ou, pelo menos, não eram tão frequentes. Se antes os assassinatos eram tratados pela polícia como crimes passionais, o surgimento de criminosos como Kemper nos EUA escancararam a necessidade de se criar uma nova abordagem para entender esse tipo de crime. Seria possível entender o que se passa na cabeça de uma pessoa que comete tais atrocidades? Mais do que isso: é possível evitar que esse tipo de coisa aconteça?

É com esse tipo de questionamento que Mindhunter, nova série original da Netflix assinada por David Fincher — que dirige os dois primeiros e os dois últimos episódios — tenta conquistar o público.

Baseado no livro de Mark Olshaker, Mindhunter: Inside the FBI’s Elite Serial Crime Unit (no Brasil: Mindhunter: O Primeiro Caçador de Serial Killers Americanos) — baseado em fatos reais da carreira do agente John Douglas — o seriado acompanha a história dos agentes do FBI Holden Ford (Jonathan Groff, de Looking) e Bill Tench (Holt McCallany, de Blue Bloods), que com a ajuda da doutora Wendy Carr (Anna Torv, de Fringe), tentam expandir o Departamento de Ciências Criminais da agência criando um método de avaliação psicológica de criminosos perigosos para tentar prever os próximos passos de assassinos em atividade — ou até mesmo evitar que pessoas se transformem em criminosos. Para isso, Ford e Tench decidem entrevistar os próprios criminosos para entender como pessoas desse tipo raciocinam.

O trio de protagonistas: o jovem Holden, o experiente Bill e a bem sucedida Wendy.

Já aviso: se você espera aquele tipo de série policial cheia de ação, tiros e perseguições, passe longe — ou melhor: apenas ajuste sua expectativa para assistir, porque vale a pena. Mindhunter é um thriller psicológico inteligente e perturbador, que prende o público através dos diálogos e das reflexões dos personagens — que, por consequência, também faz com que o espectador reflita sobre os assuntos abordados nos episódios.

Todos os atores estão muito bem e a química entre o trio protagonista faz com que as sequências de grandes diálogos reflexivos entre eles pareçam um debate dinâmico daqueles que dá vontade de participar. Afinal, nem tudo é tão simples quanto parece.

Pessoas como Kemper são monstros. Ponto. Mas eles nascem assim, ou são formados por uma série de fatores da vida? Como podemos evitar que essa formação ocorra? Ao longo de seus dez episódios, Mindhunter provoca o público através do desenvolvimento de pensamento do agente Holden, que em determinado momento percebe que a linha que separa uma pessoa comum de um criminoso pode ser bem tênue em alguns casos, como uma mãe negligente ou um pai ausente.

Para entender a mente de um psicopata, nada melhor do que conversar com um psicopata.

No entanto, as atuações e os diálogos ganham muito com a ajuda da parte técnica impecável do seriado — como fotografia, ambientação, figurino, trilha sonora e som.

Preste atenção nesses detalhes técnicos enquanto assiste, porque é muito interessante como todos esses fatores ajudam a dar personalidade, ritmo e clima para a série: sons de máquinas de escrever nas cenas de escritório; portas de celas se abrindo e fechando nas prisões com alarme ao fundo; páginas de livros sendo viradas nos momentos de silêncio entre Holden e sua namorada Debbie (Hannah Gross)… isso sem contar a trilha sonora setentista que conta com músicas como Fly Like an Eagle e I’m Not in Love, que ajudam a ambientar o seriado de forma natural e nada forçada.

Além da parte sonora, o visual de Mindhunter também tem um papel fundamental no clima do show, com um trabalho de cores muito inteligente. Quando Holden e Bill conversam com Ed Kemper (Cameron Britton) e Jerry Brudos (Happy Anderson), o azul e as cores frias predominam em cena, contrastando com as personalidades assustadoramente calmas dos serial killers e criando um visual frio e melancólico.

Já nas cenas com Debbie, um tom mais quente e amarelado está sempre muito presente na iluminação do cenário, seja no bar onde ela e Holden se conhecem, ou seja no seu apartamento — e não é pra menos que várias vezes a personagem está estudando no local, já que a cor estimula o raciocínio. A mudança na paleta de cores quando o agente está com sua namorada é a maneira da série nos dizer que Debbie é a luz de Holden em seu mundo tão melancólico.

A paleta de cores ajuda a setar o clima da série.

Mindhunter é, com toda certeza, uma das melhores séries da Netflix que estrearam em 2017. Vale a pena a maratona, mas fica o aviso: ela perturba. Apesar de não vermos sangue e das cenas pesadas serem mostradas rapidamente apenas através de fotos dos arquivos do FBI, presenciar os assassinos falando sobre seus crimes com a mesma naturalidade de quem conta uma história qualquer, é de revirar o estômago.

A série é aquele tipo de obra que, mesmo com uma temática policial, não precisa nem de ação para prender o público, nem ser cheia de simbolismos e metáforas como True Detective para soar inteligente e propor reflexões.

Inteligente, perturbadora e tecnicamente bem feita, Mindhunter é um belo acerto do serviço de streaming e um bom material para David Fincher colocar no currículo.