Veronica Mars. Pushing Daisies. Hannibal. Angel. Deadwood. Você sabe o que todas essas séries têm em comum? Elas eram adoradas pela crítica e tinham uma base de fãs bem dedicada. Mas essa não é a única semelhança entre elas. Todas essas séries acabaram abertas, em cliffhangers, sem resolução. Todas elas foram canceladas antes de ter um final digno. E o motivo é simples: apesar dos fãs, simplesmente não tinha gente suficiente assistindo essas séries.

Recentemente aconteceu o mesmo com Sense8. Poucas semanas após o lançamento da segunda temporada, Reed Hastings, o CEO da Netflix, anunciou o fim da série. E a segunda temporada termina não apenas aberta: ela termina escancarada. Você não sabe o que vai acontecer com vários personagens-chave da trama. Você não tem explicação para um monte de coisas. É um final que clama por uma resolução que nunca vai chegar.

Pelo visto, não saberemos tão cedo o que aconteceria com os personagens.

A consequência disso você pode ver agora, em tempo real. Pode entrar em qualquer postagem da Netflix no Facebook. Você vai se deparar com um monte de fãs da série ameaçando cancelar a assinatura se a decisão não for desfeita (spoiler: isso não vai acontecer e ninguém vai cancelar a assinatura), xingando o serviço de streaming de todos os nomes possíveis, proclamando o quão injusto é esse cancelamento e como a Netflix é malvada. Mas a verdade é que a Netflix não é a vilã dessa história e esse cancelamento é tudo, menos injusto.

A Netflix pode ter campanhas super descoladas, cheia de memes e tendências, pode ter aquele social media mega legal e cheio de boas sacadas que você queria até que fosse seu amigo. Mas no final do dia, a Netflix é uma empresa, é um negócio, e um negócio precisa lucrar para sobreviver. No caso do serviço de streaming, o lucro vem de decisões estratégicas que contribuem para que a sua base de usuários não apenas mantenha a assinatura, mas continue crescendo.

Com isso em mente, vamos colocar os fatos na mesa: Sense8 é uma série muito complicada de se produzir, principalmente por ser filmada em diversos países. Não foi a toa que o espaço entre a primeira e a segunda temporada foi de quase dois anos. Essas dificuldades e os custos de deslocamento tornam a série cara, muito cara. O estimado é que cada episódio custe cerca de 10 milhões de dólares, fazendo com que Sense8 seja uma das séries mais caras não apenas da Netflix, como de toda a história — mais cara até que Game of Thrones, para você ter uma noção.

Para uma série dessas se sustentar, você precisa de MUITA gente assistindo. Muita gente mesmo. E aí é que está o grande calcanhar de Aquiles: Sense8 era extremamente adorada — venerada, até — entre seus fãs. Só que esses fãs, apesar de muito entusiasmados, são bem poucos. Para dar uma visão melhor, a maior base de espectadores da série vinha do Brasil, e nem por aqui ela era a série mais assistida ou mais relevante da Netflix. Levando tudo isso em consideração, no final do dia, Sense8 tinha um público irrelevante e, portanto, dava prejuízo para a Netflix.

O que é realmente injusto nessa situação toda, então, é querer culpar a Netflix por essa decisão. Sense8 era um projeto bastante perigoso e investir o que foi investido não só em uma, mas em duas temporadas, foi uma decisão EXTREMAMENTE corajosa e arriscada. Sense8 foi um risco que a Netflix correu e que, mesmo depois de dar duas chances, infelizmente não valeu a pena. Porque, no final do dia, a Netflix precisa lucrar. Seus investimentos, ainda mais nessas proporções, precisam fazer sentido. E não vai ter xingamento em rede social ou “pegação coletiva” na Paulista que vai dar um jeito nessa situação.

Mas se você realmente quer apontar o dedo e procurar um culpado nessa história toda, vá atrás das criadoras da série, as Wachowski. Mesmo tendo total consciência de que é uma série cara, complicada e com uma audiência problemática, deixaram um final completamente aberto na esperança de que a terceira temporada aconteceria — mesmo sendo uma chance remota, incerta. Fizeram uma aposta e perderam, e o fã perdeu mais ainda. The Get Down, outra que foi cancelada recentemente e passava pela mesma situação (cara e complicada), não quis fazer a mesma aposta: terminou a temporada amarrando as principais tramas e deixando apenas uma pequena abertura para uma possível segunda temporada. Mas o seu final é um final. A história essencialmente terminou. Porque Sense8 não quis fazer o mesmo? Um pouco de arrogância, talvez?

The Get Down deu um desfecho satisfatório para a série, apesar de alguns ganchos para uma temporada que não vai acontecer.

Concluindo, a questão toda é: era uma série legal? Sim. É uma situação chata? Definitivamente. É injusto? Nem um pouco. O lado bom é que essa situação vai fazer as pessoas mudarem a percepção em relação à Netflix. A empresa é cool, descolada, moderna, mas não trabalha por caridade.

Sense8, por mais que seja uma série bem intencionada, promovendo a diversidade e as conexões humanas, é uma série que não dava lucro suficiente. E parando para pensar, quem ganhou mesmo no final do dia foi todo o resto da base de usuários do Netflix, já que agora o serviço vai poder usar o dinheiro que seria para a terceira temporada em outras produções. E por mim? Pode trazer!