Nem a nostalgia salva Batman e Arlequina da vergonha alheia

Muitos problemas pra resumir em uma linha fina
por: 22 de agosto de 2017
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Não é de hoje que as animações da DC têm sido avaliadas negativamente. Para tentar mudar a péssima impressão dos últimos tempos — causada principalmente por A Piada Mortal —, a Warner decidiu colocar a Arlequina (Harley Quinn, no original) como protagonista de um novo longa animado e com Bruce Timm à frente do projeto para tentar recuperar o prestígio dos filmes de animação.

No papel a ideia faz sentido. O Esquadrão Suicida, mesmo sendo um filme horroroso, conseguiu alavancar a popularidade da palhacinha do crime, e agora o estúdio quer explorar ao máximo a personagem em todas as mídias possíveis.

Além disso, Timm não só é o criador da Harley Quinn, como também é o responsável por Batman: The Animated Series — onde a vilã fez sua estreia —, um dos melhores materiais do Homem-Morcego já produzidos até hoje. Ou seja: se alguém sabe trabalhar a personagem, é esse cara. (ou deveria, pelo menos)

Antes de falar sobre os problemas do filme, um resumo da história: a Hera Venenosa e o Homem Florônico — que parece um alienígena do Ben 10 — decidem replicar a fórmula que criou o Monstro do Pântano para transformar toda a humanidade em seres híbridos de humanos com plantas. Como se isso já não fosse perigoso, um simples erro de cálculo no processo de criação pode levar a raça humana à extinção.

Correndo contra o tempo, Batman e Asa Noturna decidem pedir a ajuda da Arlequina para que ela rastreie sua amiga vilã, e assim começa o show de bizarrices.

O primeiro problema é um muito sério que extrapola as telas: objetificação feminina. Sim, mesmo após a escrotice que foi A Piada Mortal, que basicamente jogou a Batgirl no lixo, Batman e Arlequina (Batman and Harley Quinn) consegue repetir a dose, ainda que em uma escala menor.

Antes que alguém venha me tachar de politicamente correto, eu sei que a Harley é uma personagem que tem a sensualidade como uma das suas principais características. O problema é que em muitas ocasiões essa característica foi explorada de maneira inapropriada, como no já citado Esquadrão Suicida. Afinal, vamos combinar que o filme não precisava colocar a Margot Robbie naquela sunga minúscula só pra galera ver a bunda e as pernas dela por duas horas, né?

Existe uma diferença brutal entre mostrar uma personagem sensual e segura de sua sexualidade e objetificar uma figura feminina — que é o caso aqui. Exemplo: no começo do filme, Asa Noturna vai atrás da Arlequina para pedir sua ajuda. Os dois acabam se enfrentando e a vilã leva a melhor, conseguindo nocautear o ex-Robin e prendendo-o em sua cama.

Em seguida, enquanto conversam, Harley começa a trocar de roupa na frente do herói, que apesar de ficar sem graça e virar o rosto, tira uma lasquinha com os olhos. A vilã percebe, se insinua para ele, e os dois acabam transando.

Falando assim, talvez soe exagero da minha parte falar sobre machismo no longa. O problema é que não precisavam fazer isso:

Convenhamos: não precisava disso pra insinuar uma relação sexual entre Arlequina e Asa Noturna…

Como disse acima, não tem o menor problema apresentar uma personagem feminina segura de sua própria sensualidade e sexualidade. Inclusive, é importante e necessário que existam personagens assim na cultura pop (Jessica Jones tá aí pra provar). A questão é que existem inúmeras maneiras de se fazer isso ao invés da escolhida — colocar a personagem nas sombras e mostrar apenas sua silhueta, por exemplo, teria sido um caminho muito melhor.

Além dessa cena, existe outra sequência em que ela chacoalha os seios em um número musical que ela foi obrigada a fazer para que um bandido lhe desse informações sobre Hera. Claro, porque Batman e Asa Noturna (e até mesmo a própria Arlequina) não poderiam fazer esse minion falar, não é mesmo?

E ainda tem o bar em que a vilã trabalha, que é um daqueles lugares que colocam as mulheres em roupas minúsculas para atiçar o fetiche dos marmanjos. Contudo, é interessante notar que uma sequência nesse bar é a prova de que o filme poderia seguir por uma linha interessante no que diz respeito a objetificação feminina e machismo: na cena, Harley desce a porrada em um babaca que tenta passar a mão nela. É uma pena que no desenrolar do filme rolem as sequências que descrevi acima.

Reforçando novamente: tudo isso após o péssimo A Piada Mortal, que é um desserviço a uma das personagens mais icônicas da DC Comics. TÁ SERTO, viu Warner?

Batgirl e Harley Quinn: duas vítimas recentes da objetificação feminina no universo de super-heróis.

Além desse problemão de objetificação — que infelizmente está ficando comum nas animações da DC —, o longa também tem problemas de tom e roteiro.

Por ter Bruce Timm como um dos responsáveis pela animação e traços parecidos, esperava um tom mais próximo do Animated Series. No entanto, Batman e Arlequina está longe disso. Prepara-se, por exemplo, para uma sequência bizarra da Harley peidando no Batmóvel e fazendo o Batman encostar o veículo por causa do cheiro. Isso mesmo: fart jokes. ¯\_(ツ)_/¯

Quanto a história, apesar dela ser o que menos incomoda em meio a tantos problemas, ainda assim merece críticas: a participação do Monstro do Pântano é rápida e ridícula ao extremo, e o desfecho da trama é simplesmente preguiçoso e estúpido.

Essa é a cara que eu fiz no fim do filme.

Batman e Arlequina é um filme estranho. É uma animação com uma história que parece ter sido feita sem cuidado algum e com um tom confuso que não decide qual público quer atingir.

O resultado é um humor pra lá de infantil que nos faz pensar “ok, acho que só não é pra mim”, mas em seguida joga uma bunda mal desenhada na nossa cara para nos lembrar que o filme na verdade não é para crianças.

Realmente, não dá pra entender o que a Warner está fazendo com as animações da DC.

  • ranger verde malvadão

    lamentavel esse filme