Nunca julgue um herói pela capa

Coração de Aço é uma reviravolta no mundo dos super-heróis
por: 24 de julho de 2017
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Curto compartilhar as experiências que tenho com os livros que leio. Gosto muito de observar todos os detalhes dos períodos que envolvem minhas leituras para depois compartilhar tudo com amigos que curtem ler também. Para mim, tudo faz parte da mesma experiência e o conjunto de sensações que essa experiência me causa vai contar muito para marcar a imagem que o título vai ter na minha mente — e se, no final, vou recomendá-lo à alguém ou não. Dito isto, afirmo: você deve ler Coração de Aço.

Se você gosta de histórias onde as pessoas têm super-poderes, você vai se encontrar na literatura de Brandon Sanderson, porque têm um monte delas nesse livro, e dos mais variados tipos. Agora, se você não gosta tanto assim, você também deveria ler Coração de Aço, porque nesse livro os supers não são heróis. Nenhum deles. E os humanos é quem têm que segurar a bucha.

Uma pausa para o momento “por que eu nunca tive essa ideia antes?”.

Eu confesso que fiquei realmente surpreso quando comecei a ler CdA. Não que essa seja uma informação secreta ou spoiler, afinal esse fato está logo na capa do livro. Só não esperava por isso. Julguei pela capa. Tanto o livro como os heróis.

A história começa de uma forma bastante comum nesse tipo de literatura de fantasia para o público juvenil. Um evento catastrófico que altera o destino da humanidade e gera um futuro distópico onde as pessoas precisam lutam para sobreviver — como em Maze Runner, Jogos Vorazes, Jogador N°1 e outras tantas obras similares. O autor Brandon Sanderson provavelmente se inspirou em algumas dessas obras para criar a série Executores — lançada aqui no Brasil pela Editora Aleph —, onde Coração de Aço é o primeiro de três livros (sendo os próximos Firefight e Calamity, ainda sem versões brasileiras).

Ao invés de explosões solares ou de crises energéticas, a vida de todos dos terráqueos no universo da série Executores muda quando um corpo misterioso (Sombras do Paraíso, oi?) queima na atmosfera terrestre e libera alguma forma de radiação que concedeu todos os tipos de poderes imagináveis de forma aleatória à alguns seres humanos — os chamados Épicos. E claro, nenhum deles obedece nenhuma de lei da física, química, ou biologia: super-força, toque mortal, virar uma tocha humana, se recuperar facilmente de ferimentos, invulnerabilidade… Sanderson não poupou sua criatividade e foi bem divertido ver tantos poderes.

Não fica claro, nem para os próprios personagens de Coração de Aço, como exatamente tudo aconteceu ou porque apenas algumas pessoas possuem poderes. A única coisa que fica claro é que esses poderes transformaram completamente quem os recebeu, inclusive sua índole. TODOS os super-poderosos são vilões. Daqueles que matam por prazer mesmo, apenas pela diversão e pelo fato de terem o poder para tal. Ai que a coisa começa a ficar bem diferente.

O Homem de Aço vs o Coração de Aço. Dureza? Muita.

Pelos olhos do protagonista David, um jovem que perdeu seu pai para o incrivelmente poderoso Coração de Aço — o homem de aço que não é mocinho —, vemos como os humanos fazem para sobreviver à nova ordem mundial ditadura dos Épicos. Em Nova Chicago, Coração de Aço é o soberano. Domina tudo e todos, tanto Épicos quanto humanos. Sob seu regime, as pessoas vivem em uma cidade onde o Sol não brilha nunca e onde apenas os que se vendem para os Épicos conseguem ter uma vida confortável. O resto da população vive em becos escuros, come comida de qualidade duvidosa e não tem esperança nem de sobreviver a um encontro casual com um Épico numa esquina qualquer. Em outras cidades, a destruição é ainda maior.

Aí você se pergunta: mas se eles são épicos e ainda por cima vilões, como ou por que ainda existem pessoas normais no planeta? Por que eles não mataram todo mundo?

Ora meus caros, que graça teria se você tivesse poderes e não tivesse a quem dominar? MUA-HA-HA (risada malígna).

Apenas um pequeno grupo ainda luta para resistir e subverter a ordem: os Executores. E toda a vida dos resistentes envolve procurar fraquezas e eliminar Épicos, pois junto com seus poderes, os Épicos também ganharam fraquezas.

É assim que se mata um super-herói (ou supervilão), certo? A kriptonita para o Superman, o anel amarelo para o Lanterna Verde, ou o Thor sem seu Mjölnir. Você precisa encontrar uma forma de atingir o super com sua fraqueza para, então, matá-lo de vez. Pelo menos, essa é estratégia de qualquer vilões da Marvel ou DC. Mas em CdA, quem pensa assim são os mocinhos.

Curiosidade: Hal Jordan e eu não curtimos amarelo. Isso é fato.

David passou dez anos estudando todos os Épicos com o objetivo de vingar a morte do pai. Ele é um verdadeiro nerd no assunto, conhecendo a maioria dos Épicos, suas categorias, seus poderes primários e secundários e, principalmente, suas fraquezas, estudando detalhadamente cada acontecimento desde a Calamidade (evento apocalíptico que deu origem aos Épicos). Aos Executores, David vai oferecer uma experiência de vida que será chave para colocar um fim ao império terrível de Coração de Aço: “eu já vi Coração de Aço sangrar…”.

A ideia de colocar os indivíduos superpoderosos do outro lado da balança da justiça, longe daquele estereótipo que costumamos ver nos dias de hoje, me deixou intrigado.

Eu sei que esse lance todo não é algo novo nas histórias de super-heróis. DC e Marvel têm seus universos paralelos onde os supers são seres malignos. Mas num mundo de superpoderosos, os humanos são sempre meros coadjuvantes. Para não dizer que eles são insetos insignificantes, sem capacidade para decidir nada.

O que muda na história de Sanderson é isso. Ao conceder pontos de vulnerabilidade junto com poderes fantásticos, o autor permite que os humanos tenham um papel muito mais significativo na história. Eles sofrem, morrem, estão em número inferior e precisam penar para conseguir matar um supervilão. Contudo, é possível detê-los. E aí, é só deixar a natureza persistente, resiliente e corajosa dos seres humanos tomar as rédeas da narrativa e você tem uma aventura altamente desafiadora, porém equilibrada.

Quando penso em um mundo onde existam pessoas com habilidades sobrenaturais, imediatamente penso que elas poderiam se tornar nossos heróis e nos salvar de todos os males e injustiças cotidianos. Ninguém costuma pensar que essas pessoas podem muito bem se aproveitar de seus dons apenas para fazer sua própria vontade, subvertendo as leis humanas e nos deixando numa situação bem pior que a inicial.

O Sindicato do Crime da América te manda lembranças.

Já parou para pensar que supervilões são uma realidade muito mais possível do que super-heróis? Se simples humanos, com um pouquinho de poder nas mãos, se transformam em tiranos, imagine se alguns de nós tivessem super-poderes? Desastre. Puro e genuíno. Restariam apenas as características intrínsecas dos seres humanos para tentar sobreviver nessa Terra alternativa. Lutar, se adaptar e sobreviver — o que fazemos de melhor.

Isso que é o daora dessa história. Sanderson pegou uma ideia bastante antiga, torceu e inverteu algumas coisas, deixou ela mais “humana” e criou um novo universo.

Na verdade, Sanderson conseguiu encontrar um espacinho num nicho bastante populoso, cheio de romances juvenis pós-apocalípticos, numa época onde super-heróis voltaram ser cool. Precisamente o que ótimos autores fazem. Se tudo que eu falei até agora não te convenceu a ler Coração de Aço, esse último motivo deveria.

Meu pensamento depois de ler essa história incrível voou longe. Fiquei imaginando quantos formatos de história poderiam passar pelo mesmo “processo Sanderson” de revisão e alteração e se transformariam em outras novas e boas histórias.

Tipo… e se ao invés de invasores alienígenas, nós fossemos os invasores e destruidores de outros mundos? Se nós fossemos a raça mais inteligente do Universo e entrássemos em contato com seres menos desenvolvidos, como lidaremos com esse fato?

E você? Qual história você gostaria de ver “invertida”?