O tempo passa rápido, e a sensação de missão cumprida deixa um vazio no peito sem igual. A despedida é sempre dolorida. Há mais ou menos cinco anos atrás, eu assistia ao episódio piloto de Sons of Anarchy.

Passado tanto tempo desde o impacto inicial, fica difícil lembrar como este primeiro contato foi estabelecido com a série de TV. De todas as minhas lembranças, a mais viva foi a de ter permeado por um universo completamente novo e diferente daquilo que eu estava tão condicionada a assistir: motocicletas, organização criminal, contrabando, romance e família… Tudo junto em um só lugar.

E foi justamente por este lugar, a fictícia cidade de Charming, que eu me apeguei e me vi curiosa por seus desdobramentos.

Mais que um clube, uma família

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Sons of Anarchy (Filhos da Anarquia) retrata de forma bastante marginal o crime organizado no estado da Califórnia. É perto de Oakland (munida de seu glamoroso pôr do sol cor de rosa), que gangues de diferentes comportamentos e condutas comandam o tráfico de drogas e armas, além da prostituição desenfreada como negócio de grande porte. Além disso, temos as alianças e rixas entre cada uma delas expostas em boa parte dos episódios mais antigos. Entre as gangues mencionadas destaca-se o SAMCRO (Sons of Anarchy Motorcycle Club, Redwood Original Charter ), que funciona quase como um personagem coletivo formado por seus membros de caráter duvidoso e personalidade carismática, transparecendo a dualidade que funciona como peça chave para o desenrolar da história escrita por Kurt Sutter.

Apesar de ter a criminalidade como seu cenário de maior impacto para o storytelling, a premissa de Sons of Anarchy vai muito além da sanguinolência e retaliação entre criminosos. Aqui é a família que ganha o foco principal. Não só aquela de sangue, mas também a que se escolhe, a que se forma após vestir o colete de couro com a estamparia da morte (e que colete! Nunca vi tanto peso e acolhimento em um só objeto). Tudo dentro da narrativa da série faz refletir e abalar os relacionamentos entre cada uma das personagens, sempre tentando fazer associações à estreita relação entre pais e filhos.

Exemplos claros são os personagens Jax e Gemma. O primeiro, protagonista do drama sanguinolento, acaba de receber seu primogênito Abel, e o amor incondicional fica claro a cada minuto que ambos dividem o espaço na tela. Gemma, assim como o filho Jax, também possui grande apego por seu único herdeiro e, ainda que sua forma obsessiva e controladora assuste, tudo o que esta mãe quer é manter a sua família unida.

UMA MONTANHA RUSSA DE SENTIMENTOS

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As personagens são elementos de grande destaque na trama. Todas são construídas, desconstruídas e reconstruídas ao longo do drama. Jax Teller – mecânico, assassino e contrabandista – inicia sua jornada como um jovem de vinte e poucos anos em busca de conhecimento, tanto sobre si mesmo quanto pelo falecido pai, do qual ele mal consegue se lembrar.

Com a aparição de antigos manuscritos do falecido John Teller, segredos começam a se desfazer, e é nesse momento que a guerra interna de uma família tão querida se torna cada vez mais nociva para cada um de seus membros – principalmente para o protagonista. Jax transita do ingênuo ao revolucionário e do revolucionário ao sociopata.

Em sete temporadas, Charlie Hunnam foi capaz de fazer o público da série amar, odiar, torcer e chorar junto com a sua personagem. E o fim de Jax… Bem, o fim de Jackson Teller vem com a sensação de missão cumprida na garupa de uma Harley, com a auto percepção de que o bom homem ainda existia por baixo de tanta dor e hostilidade.

POR TRÁS DE UM GRANDE HOMEM, SEMPRE HAVERÁ UMA GRANDE MULHER

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Além da família como foco da série, Sons of Anarchy também aborda a questão do poder em todas as brechas que deem abertura para o assunto, seja pelo crime organizado, pela cadeira de presidente do clube ou pelo controle de tudo e todos, que se mostra como a maior arma de domínio. Gemma – a matriarca sempre mencionada como “Mãe” para cada um de seus “Filhos” motoqueiros – é a verdadeira comandante deste exército de jaquetas de couro.

Sutter escreveu esta personagem para que a sua esposa Katey Sagal a agarrasse com unhas e dentes, mostrando que por trás de um grande homem sempre haverá uma grande mulher e, neste caso, manipulando cada uma das situações vividas pelas personagens como um jogo de xadrez muito bem arquitetado. Apesar de gerar tantos sentimentos controversos nos espectadores, Gemma Teller com certeza ficará imortalizada como a mãezona descolada e moderna que todo mundo gostaria de ter.

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A personagem teve uma força sem igual do início ao fim, e conseguiu representar muito bem o pequeno elenco feminino.

NARRATIVA QUASE IMPECÁVEL

Ao longo das sete temporadas transmitidas pelo canal FX, tivemos evoluções e quedas notáveis em cada um dos episódios que foram apresentados. Alguns perderam seu ritmo e acabaram sendo longos demais em seus 80 minutos; em outros a edição falha em certos takes repetitivos, e as câmeras em primeira pessoa – que não possuem grande utilidade narrativa – acabam pecando pelo excesso, existindo apenas pelo bem da estética.

Não fosse por estes detalhes de direção, a construção narrativa de SoA seria descrita como algo beirando o impecável. Fica bastante claro quando chegamos ao series finale que, tudo aquilo que assistimos em sete temporadas foi extremamente bem planejado antes de ir para o ar. Do piloto até o último minuto dos créditos da última temporada. Diferente de muitas séries que nos desapontam nesse aspecto (insira um abraço passivo-agressivo para Lost aqui), a produção de Kurt Sutter teve um planejamento muito bem organizado e detalhado. A impressão que se tem ao terminar Sons of Anarchy é a de que, cada enquadramento, diálogo, plano detalhe e simbologia têm seu motivo específico para aparecer em cena.

Kurt Sutter mostrou que, além de ser um ótimo contador de histórias e produtor televiso, também sabe como narrar os momentos de tensão apenas com a ajuda de recursos técnicos, como músicas e imagens, excluindo qualquer diálogo por longas sequências de oito minutos. A série teve uma das melhores trilhas sonoras que já escutei até hoje. Com músicas compostas e escritas exclusivamente para suas extensas montagens bucólicas e achados musicais que marcaram temporadas, estes momentos sempre serão relembrados como momentos de apreensão com o que viria a seguir.

UM ADEUS QUE DEIXA SAUDADES

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Em uma análise geral de uma série com tantos pontos a serem ressaltados, simbologias que merecem análise e enquadramentos que precisam ser dissecados, fica difícil de expressar em poucas linhas o quanto vale a pena se entregar a esta obra televisiva.

Sinto saudades de todos e, espero de verdade que Sutter seja prudente em não deixar sua legião de fãs esperando tempo demais pelo possível prequel que estaria em desenvolvimento.

Obrigada Sons of Anarchy. Esta foi, sem dúvida alguma, uma bela viagem de moto pelas estradas de Charming.