Animais Fantásticos e Onde Habitam, spin-off da série Harry Potter, é um bestiário criado por J. K. Rowling para enriquecer seu (já rico) universo. É um livro que não conta uma história por si só, mas que amplia o mundo do bruxinho com mais informações. E sua versão dos cinemas, apesar de divertida, transparece os problemas de tentar adaptar essa história inexistente para as telas. Fica nítida a falta de um enredo escrito com calma, de algo bem estruturado e bem direcionado para servir de base para o filme.

O negócio é o seguinte: Animais Fantásticos é divertido. Acho difícil qualquer um discordar de mim nesse ponto, visto que eu, o verdadeiro inquisidor no que diz respeito ao mundo de Harry Potter, alguém que nunca foi nada fã da série, me peguei tendo bons momentos com o filme. E os motivos para me divertir com ele são bem claros: Rowling está no roteiro, e ela sabe escrever personagens e detalhes de seu mundo muito bem. Fora que as cenas de ação e humor são bem desenvolvidas, e o design das criaturas é muito legal.

Veja bem, estou falando do design dessas criaturas, e não dos efeitos de computação gráfica do filme. Isso eu não consigo defender. (desculpa, amiga)

Enfim…

Com David Yates junto dela, o cara que peita a direção dos filmes do bruxo há um bom tempo, a adaptação da visão da autora para as telas sai do jeitinho que deveria em quase todos os sentidos.

Em QUASE todos os sentidos, porque tem algo de muito torto e errado em Animais Fantásticos — mais precisamente, suas tramas e o ritmo do filme.

Vamos começar pelo enredo dele. Mesmo sem ter uma história de base, Animais Fantásticos, o filme, é uma mutação de Animais Fantásticos, o livro. O prequel dos cinemas existe com base no spin-off impresso. Logo, imagina-se que a aventura de Newt Scamander (Eddie Redmayne) teria como foco central os tais seres mágicos do livro, certo?

Mas não. Por mais que eles apareçam em um momento ou outro, o grande foco aqui não está neles. Mesmo com a fuga das criaturas sendo um dos gatilhos iniciais para a aventura, a história de Newt passa por novos caminhos: um trabalhando a relação dos bruxos com no-majs (ou trouxas, como são chamados na Inglaterra) nos EUA durante a década de 20, e o outro destrinchando o passado de um dos mais antigos e importantes personagens do mundo dos bruxos. O segundo, aliás, é o que parece ser o carro-chefe da nova franquia e dos quatro (!!!) filmes que virão para completá-la.

E que timing horrível para ter esse cara num filme...

E que timing horrível para ter esse cara num filme…

Ou seja, Animais Fantásticos traz algo muito diferente do que sua inspiração e seus trailers prometem. Isso não seria um problema, se cada uma dessas três tramas quase distintas não disputassem tempo de tela. Não é como se uma fluísse para a outra, ou que todas se amarrassem muito bem entre si. Quando estamos vendo Newt lidando com as criaturas, as outras histórias paralelas ficam de canto. Quando vemos o protagonista e seu bando lidando com a situação criada com os no-majs, as criaturas também vão para o segundo plano. E a última parte da trama, aquela que aparentemente é a principal dela, só surge no terceiro ato, praticamente matando os outros dois segmentos da história.

E os danos causados por um enredo tão quebrado são claros: grande parte dos personagens não é desenvolvida o suficiente, pontos importantes da trama ficam largados para que apenas a grande mídia e os potterheads consigam decifrá-los, os ganchos para as sequências ficam frouxos e fracos… Tudo o que a história poderia ser pelo potencial da franquia e daqueles envolvidos em sua produção, ela acaba não sendo.

Não me levem a mal: Animais Fantásticos é divertido e resgata muito do sentimento de descoberta da magia que o mundo bruxo de Rowling causou em tanta gente. Seus momentos de acerto com certeza fazem valer a entrada do cinema. Até dá para dizer que ele faz mais por Harry Potter do que seu último livro. Mas se a ideia era de criar uma nova leva de fãs, e mais ainda, de abrir para uma nova leva de histórias fortes da franquia — e com certeza era, pela produção e divulgação blockbuster-esque do filme —, então talvez Animais Fantásticos e Onde Habitam tenha sido um retorno errado ao mundo bruxo.