O Divino: quando a vida inspira a arte

O uso da ficção para explicar a realidade
por: 03 de julho de 2017
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Johnny e Luther Htoo são gêmeos nascidos na Burmânia, sudoeste da Ásia, em 1988. Com apenas 12 anos de idade, as crianças lideraram grupos de refugiados da região contra o governo e fizeram mais de 800 pessoas reféns em um atentado contra um hospital tailandês.

Os irmãos ganharam reconhecimento mundial nos anos 2000, quando o fotógrafo Apichart Weerawong registrou em uma foto o que viria a ser um símbolo da infância perdida pela violência e pela guerra: crianças com cigarro na boca e armas na mão, com olhos vermelhos e cansados, que já vivenciaram muito para o pouco tempo em vida nesse planeta.

A famosa foto de Weerawong: até quando veremos crianças nessas condições?

Apesar de, infelizmente ser uma cena comum em países em guerra, era tão chocante e surreal acompanhar a trajetória militar dos Htoo, que não demorou para surgirem boatos e lendas em torno das pequenas figuras: algumas pessoas juravam que os dois tinham poderes mágicos, e até que nenhuma bala poderia atingí-los.

Foi baseada nessas lendas urbanas que surgiu a ideia dos ilustradores gêmeos israelenses Asaf e Tomer Hanuka e do escritor americano Boaz Lavie para O Divino (The Divine), graphic novel lançada no Brasil em 2016 pelo Geektopia, selo de quadrinhos da editora Novo Século.

A história acompanha Mark, um ex-militar texano cuja especialidade é lidar com explosivos. Apesar de ter se afastado das missões de campo, a dificuldade financeira no período de gravidez de sua esposa o faz aceitar uma proposta de trabalho de seu amigo Jason. Juntos, eles são enviados para uma missão secreta do governo em Quanlom, um país no sudoeste Asiático que vive um momento de pura tensão devido a uma guerra civil.

O protagonista embarca numa missão perigosa, mas nem imagina o que irá encontrar…

Contudo, mesmo em pouco tempo nas terras hostis, Mark percebe que o exército inimigo não é sua única preocupação. Ao cruzar com o caminho de um grupo de soldados crianças, o ex-militar descobre que, caso conclua a missão que lhe foi designada, pode mexer com forças além da sua imaginação. Em Quanlom, lendas e espíritos antigos podem ser tão perigosos quanto as armas de guerra.

O que mais me chamou atenção em O Divino foi presenciar um ótimo exemplo de como a realidade pode inspirar a arte. A foto de Weerawong incomoda tanto, que é difícil transmitir o que sentimos ao olhá-la. No entanto, esses três caras talentosos responsáveis pela graphic novel souberam de imediato o que fazer: contar essa história do jeito que eles conseguem se expressar melhor.

O Divino usa a ficção para falar da realidade.

Aqui, os boatos e as lendas urbanas que cercam os irmãos Htoo ganham vida nas páginas de O Divino em forma de espíritos e poderes sobrenaturais, enquanto as partes que dizem respeito à guerra e a violência retratam a dura realidade que inspirou a criação da história.

O Divino é gore, é ficção, e também é real. No fim, o que faz da graphic novel uma obra memorável e que justifica sua indicação ao Hugo Award, é a capacidade dos irmãos Asaf e de Lavie em usar a ficção para tentar explicar algo real que jamais entenderemos: crianças sendo privadas de sua própria infância.