O Mundo Sombrio de Sabrina (Chilling Adventures of Sabrina) era uma das séries mais aguardadas de 2018. Baseado nos quadrinhos da Archie Comics, o seriado da Netflix difere bastante da série do final dos anos 90 que ficou conhecida no Brasil como Sabrina, Aprendiz de Feiticeira.

Em sua nova versão, acompanhamos Sabrina Spellman (Kiernan Shipka, de Mad Men), uma jovem meia humana e meia bruxa que está prestes a fazer 16 anos e, por isso, precisa tomar a decisão mais importante da sua vida: continuar vivendo sua vida de mortal, frequentando o colégio Baxter e saindo com seu namorado Harvey (Ross Lynch) e suas melhores amigas Susie (Lachlan Larson) e Rosalind (Jaz Sinclair), ou assinar seu nome no livro da Besta e abandonar sua humanidade para abraçar sua metade bruxa e estudar na Academia de Artes Ocultas.

Sabrina e seu gato Salem. Confesso que gostaria de ter visto mais interações entre eles…

A dúvida de Sabrina sobre o que fazer com sua vida acaba sendo o grande foco da primeira parte da série e também essencial para o desenvolvimento da jovem como personagem. Apesar da pressão exercida por suas tias Zelda (Miranda Otto) e Hilda (Lucy Davis) — a primeira de uma forma mais fria e bruta, e a segunda mais delicada e compreensiva — Sabrina não quer abrir mão de sua vida mortal.

No entanto, o que torna a protagonista interessante — além da atuação graciosa de Kiernan — é que, apesar de suas dúvidas e de seus receios quanto a colocar seu nome no livro do Senhor das Trevas e deixar sua vida atual para trás, a garota também quer o poder e os ensinamentos que seu batismo lhe concederá. Ela não quer ter que decidir entre sua liberdade e seus poderes. Ela quer ambos.

Desde o início fica claro que Sabrina tem potencial para se tornar a maior bruxa de sua geração

A dualidade existente na vida de Sabrina acaba refletindo não apenas no seu próprio desenvolvimento como personagem e na história da primeira temporada, como também no tom que a série adota: o clima do Mundo Sombrio de Sabrina transita constantemente entre o humor e o terror. O seriado parece misturar algumas doses de Desventuras em Série e Stranger Things, seja pela trilha sonora, seja pelas paletas de cor da fotografia ou até mesmo pelos personagens excêntricos presentes neste universo — especialmente os vilões, como a professora Wardwell (Michelle Gomez) e o Padre Blackwood (Richard Coyle).

Essa excentricidade presente na série através dos cenários e, principalmente de alguns personagens, tem seus pontos positivos e negativos. A parte boa é que os vilões acabam sendo os responsáveis por fazer a trama andar de verdade. Se não fossem os planos misteriosos de Wardwell e a oposição de Blackwood a personalidade empoderada de Sabrina — que suas tias Zelda enxergam, cada uma à sua própria maneira, como rebeldia — a história, apesar de ainda divertida, ficaria na mesmice; quase uma obra procedimental, daquelas que apresentam uma história por episódio. É através das reações da protagonista aos planos dos antagonistas que a trama desenrola e permite com que o público se aprofunde cada vez mais no passado de Sabrina e na mitologia presente no universo mágico da jovem.

No entanto, a parte negativa fica por conta da excentricidade das Três Irmãs, lideradas por Prudence (Tati Gabrielle, de The 100), a rival da protagonista. As três personagens são as responsáveis por aproximar a série dos clichês do gênero teen, com muita rivalidade e bullying praticado com a jovem aprendiz de feiticeira. E tudo é mostrado através de atuações exageradas e cafonas que destoam TANTO da série, que a própria Sabrina parece incrédula em diversos momentos que as garotas se comportam daquela maneira tão diferente.

Prudence (à esquerda) começa a temporada insuportável, mas depois melhora bastante

Mas se os clichês do gênero teen são exagerados no lado bruxo da série, o mesmo não pode ser dito do lado mortal. No colégio Baxter, o clichê dos veteranos jogadores de futebol americano da escola praticando bullying também está presente. Contudo, diferente das irmãs bruxas, esse núcleo acaba rendendo um desenvolvimento bastante interessante para Sabrina e suas amigas — especialmente para Susie, vítima dos babacas.

Em resposta à violência dos valentões e à censura de diversos livros imposta pelo diretor George Hawthorne (Bronson Pinchot), as garotas resolvem criar um clube só para meninas.

À princípio uma espécie de clube da leitura, a ideia ganha proporções maiores quando Susie acaba agredida, e nesse momento a série se mostra uma obra empoderada ao atribuir essa característica também à Sabrina, que se recusa a abandonar sua humanidade enquanto suas amigas continuam sofrendo nas mãos de homens horríveis.

Essas meninas não vão deixar que injustiças sejam praticadas sem nenhuma consequência!

Apesar de alguns problemas, O Mundo Sombrio de Sabrina é uma série encantadora. Com personagens interessantes — até mesmo Prudence melhora bastante ao decorrer da temporada — e uma história contada através de elementos de terror e pitadas de humor, a nova versão da aprendiz de feiticeira corresponde muito bem à expectativa depositada nela e deixa um caminho bastante interessante para a sua segunda parte.