O Soldador Subaquático e o poder da mente humana

A mais poderosa ferramenta da imaginação
por: 26 de junho de 2017
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Na contracapa de O Soldador Subaquático (The Underwater Welder, no original), Damon Lindelof, roteirista de Prometheus, Star Trek e Lost, diz que a graphic novel de Jeff Lemire é “o mais espetacular episódio não produzido de Além da Imaginação [The Twilight Zone]”.

Quem conhece a série sabe que esse é um senhor elogio. Afinal, estamos falando de um dos mais aclamados seriados de ficção, terror e suspense de todos os tempos. Ler essa afirmação só jogou minha expectativa pela obra, que já era alta, lá nos céus.

E, enquanto lia a graphic novel, percebi que a frase de Lindelof não foi por pura broderagem. O cara tem razão. Tem razão pra caralho.

O Soldador Subaquático conta a história de Jack Joseph, um homem de 33 anos que trabalha fazendo consertos no fundo do oceano. A pressão das águas ele tira de letra. Já a pressão da vida, nem tanto. Prestes a ter um filho, Jack tem dificuldades para lidar com a iminente paternidade e com a morte de seu pai, que desapareceu no mar quando ele ainda era pequeno.

Jack tem dificuldades para lidar com um trauma da infância, e isso faz dele um personagem de fácil identificação.

A proximidade do aniversário de morte do pai acaba afetando o protagonista que, para esquecer dos problemas, se dedica ao trabalho. E é em um dia de trabalho que a história começa a ficar mais interessante: no fundo do mar, ele encontra um antigo relógio que seu pai lhe deu de presente pouco antes de entrar nas águas turbulentas pela última vez.

Ao tocar no objeto, tudo muda: Jack ouve a voz de seu pai lhe chamando, tem um acidente com seu capacete, e a história passa a ter duas linhas temporais, mostrando o presente e o passado do protagonista. Ele claramente não está bem, tanto física quanto mentalmente. Algo está errado, e o soldador sente que precisa voltar ao fundo do mar para entender o motivo de suas visões e lapsos de tempo.

Contudo, quanto mais fundo mergulha atrás de respostas, mais Jack se afasta da família. Uma metáfora genial de Lemire, que usa o tema e a ambientação da história para simular a pressão da vida e a busca por algo que às vezes nem sabemos ao certo o que é; apenas que está a nossa espera.

O quão difícil é ter que olhar pra dentro de si em busca de respostas?

O Soldador Subaquático flerta com a ficção e atiça o lado mais fantasioso da imaginação do leitor, que ao longo da leitura pode formular diversas teorias e possibilidades para o rumo da trama. No entanto, a história é mais humana e mais simples do que parece. E não digo isso como uma crítica. Pelo contrário: é o que torna a obra algo difícil de se esquecer.

É uma história sobre traumas e sobre como a nossa mente pode ser poderosa e frágil ao mesmo tempo, seja por nos privar de certas memórias dolorosas ou por ser suscetível a algum tipo de gatilho emocional. Contudo, em algum momento da vida é necessário encarar esses traumas para seguirmos em frente e crescermos como pessoas. E no caso de Jack, para se tornar um exemplo para o filho que está por vir.

O Soldador Subaquático foi lançada em 2013, mas só chegou ao Brasil em 2016. Uma pena que demoramos tanto para pôr as mãos nessa obra. Inteligente e fascinante, a graphic novel de Lemire flerta com diversos gêneros para, no fim, provar que a mente humana é a mais poderosa e misteriosa ferramenta da imaginação ao passar uma linda mensagem ao leitor através de metáforas e simbolismos de fácil identificação à qualquer pessoa.