BOM PARA CAR@#%&!

Trinta e seis anos após o lançamento do primeiro game do herói aracnídeo, finalmente podemos dizer com toda a convicção que temos em mãos o jogo definitivo do Homem-Aranha.

É, eu sei que parece exagero falar dessa forma. Afinal, desde o título de estreia para o Atari em 82, tivemos sim bons jogos do personagem. Lembro, por exemplo, que me diverti por semanas com o Spider-Man da Neversoft no meu N64 no ano 2000 — jogo que infelizmente envelheceu mal, vamos combinar.

Spider-Man 2 também é lembrado até hoje pelos fãs como um dos melhores games de super-heróis — e uma das raras exceções de bons jogos baseados em filmes. Ainda tivemos o Web of Shadows (2008) e Shattered Dimensions (2010) da Activision que, apesar dos muitos problemas, foram títulos que chamaram atenção na época de seus lançamentos.

No entanto, acredito que seja quase um consenso entre os fãs do personagem que, até hoje, nunca tivemos um título que representasse para o herói o que a série Arkham (Asylum, City, Origins e Knight) representa para o Batman, por exemplo. Um jogo que entenda o que faz do personagem uma figura única, que consiga abordar todos os elementos do seu universo e faça o jogador sentir na pele o fardo que aquele herói carrega através de uma história bem contada, com personagens bem desenvolvidos e uma mecânica que aproveite as habilidades únicas do protagonista.

E é exatamente isso o que a Insomniac faz em Marvel’s Spider-Man para Playstation 4.

A começar pela jogabilidade: você provavelmente está cansado de ler em toda review desse jogo o quanto é incrível e delicioso se balançar com as teias pela cidade de Nova York, não é mesmo? Mas sério: não julgue as pessoas que estão batendo nesta tecla, porque é praticamente impossível não mencionar esse aspecto. Se você jogou ou está jogando Spider-Man, vai entender o que estou dizendo. Se ainda não jogou, apenas confie.

A movimentação do herói é fluída, e você sente que pode fazer o que quiser enquanto está no ar: ganhar altura, mergulhar, aumentar ou diminuir a velocidade, correr pelos prédios, escalá-los… é uma liberdade de movimentação que todos os títulos free roam do Aranha precisavam ter (e muitos tentaram), mas que só a Insomniac conseguiu nos proporcionar com tamanha maestria. Da mesma forma que até hoje Zelda: Ocarina of time — e agora Breath of the Wild — me dão vontade de chamar minha montaria para cavalgar sem rumo por algumas horas, Marvel’s Spider-Man com certeza é um game que vou ligar de tempos em tempos pra me divertir pela cidade.

Ainda sobre a jogabilidade, o combate também merece elogios. Pelos trailers divulgados antes do lançamento, confesso que estava com receio que as lutas ficassem parecidas demais com as dos jogos Arkham. Afinal, por mais que goste da mecânica de combate dos games da Rocksteady para o Homem-Morcego, o nosso Spidey tem um estilo diferente, mais acrobático e ágil. E a galera da Insomniac entendeu isso muito bem, porque as brigas são dinâmicas e oferecem diversas possibilidades para os jogadores, que vão desde combos aéreos e finalizações em slow motion ao uso de gadgets e itens do cenário para usar contra os inimigos. Além disso, diferente dos jogos do Batman, onde o combate parece mais coreografado, aqui as lutas são mais imprevisíveis pelo número de bandidos que tentam te acertar ao mesmo tempo e com diferentes armas e em diferentes posições.

O jogo também é muito balanceado no que diz respeito aos quick time events — aquelas sequências cinematográficas que exigem que os jogadores apertem os botões corretos no tempo certo. O recurso é utilizado com sabedoria e em momentos específicos, o que dá uma proporção épica à determinadas cenas que chegam a fazer qualquer um se levantar da cadeira com o coração acelerado.

É uma delícia balançar por esse cenário <3

Sobre a história principal, prefiro não me aprofundar para não dar spoilers. Contudo, o que posso dizer é que, dentro de uma certa previsibilidade característica de algumas histórias de super-heróis, a Insomniac criou uma trama inédita para Spider-Man que ficou excelente, com doses de ação, mistério, investigação, suspense e, como não poderia faltar em uma obra do teioso, bastante humor.

O desenvolvimento dos personagens acaba sendo o ponto mais forte da história. Mary Jane merece um destaque à parte: fiquei muito feliz que ela deixou de ser a famosa donzela em perigo neste jogo para se tornar uma personagem com mais personalidade e objetivos próprios, não servindo apenas como recurso narrativo para desenvolver o protagonista.

A relação entre ela e Peter, aliás, é muito bem construída. Me peguei gargalhando várias vezes com algumas interações entre os dois (palmas para Laura Bailey e Yuri Lowenthal pelo excelente trabalho de dublagem). Também é interessante descobrirmos aos poucos e ao longo da campanha, o passado dos dois como casal. Essa química dos personagens faz com que a gente se importe com o dois e, ao mesmo tempo, nos mantém curiosos para o que o futuro reserva aos protagonistas.

Desta vez, MJ não é uma personagem dependente de Peter (amém!)

Já o Peter Parker/Homem-Aranha deste jogo, interpretado por Yuri Lowenthal, é a representação perfeita do herói que conhecemos dos quadrinhos: aquele cheio de piadas, ironias e sarcasmos — principalmente em suas interações com a detetive Yuri Watanabe e Mary Jane — mas que também mostra o quanto se importa e se preocupa com os outros — especialmente com aqueles que fazem parte diretamente da sua vida.

E não pense que só percebemos as facetas de Peter nas cutscenes: durante o gameplay vemos o herói falante, interagindo no limite de quase quebrar a quarta parede, e presenciamos também como a cidade e os NPCs reagem à presença do Cabeça de Teia — as pessoas pedem para tirar foto, aplaudem, xingam… e você pode interagir com elas também, dando high five, acenando e conversando.

São detalhes que parecem frescura, mas que na verdade fazem toda a diferença na representação do personagem e mostram o cuidado que a desenvolvedora teve ao construir esse universo e fazer da sua versão do Homem-Aranha o verdadeiro Amigão da Vizinhança.

Esse jogo reforçou o quanto o Aranha é meu herói favorito desde criança.

Marvel’s Spider-Man é, além de divertido pra caramba, extremamente bonito, equilibrado e bem pensado. É quase impossível enjoar da jogatina com a quantidade de coisas que se pode fazer no gigantesco mapa da bela reprodução da cidade de Nova York. Quando você está perto de sentir que o game está ficando repetitivo, vem alguma novidade — seja ela uma roupa nova, um easter egg, uma missão paralela, um gadget novo, ou até mesmo uma chacoalhada na história principal, que te faz ficar mais algumas horas não planejadas em frente à TV.

Com todos os elementos que fazem do herói um dos personagens mais aclamados do universo geek presentes no jogo, a Insomniac consegue fazer o que nenhuma desenvolvedora havia conseguido até o momento: criar o jogo que os fãs e o próprio personagem esperavam e mereciam.

Quero a sequência na minha mesa amanhã no primeiro horário, Insomniac. Ou vou incorporar o J.J. Jameson e falar mal de vocês nos podcasts do Metagene.