Esta semana saiu um texto com o título Comic Con: o futuro da cultura nerd é se tornar um jardim de infância, que fala sobre como nerd deixou de ser cultura e virou “uma operação de marketing enorme”. A publicação obviamente virou motivo para treta debate.

O texto aponta algumas conclusões interessantes: que os membros dessa comunidade se transformaram em consumistas frenéticos guiados pela hype do momento; que o consumo virou a essência dessa cultura; e também que não existem mais quaisquer debates sobre qualidade das produções ditas nerds.

Por fim, o autor ainda conclui:

“Para onde essa encarnação renovada da cultura nerd irá? Provavelmente para o jardim de infância. Todos os nerds compartilharão as mesmas experiências, mesmo nos nichos mais rebuscados de todos, como crianças bem educadas. Todos os easter eggs, todas as cenas pós-créditos, tudo isso é pensado exatamente para agradar todos os nichos possíveis. A inteligência e capacidade artística da cultura nerd foi substituída pela necessidade vender mais bonecos e atrair mais cosplayers. Esse será exatamente seu fim.”

Apesar de entender o ponto do autor sobre mudanças nessa cultura e sobre a proposta da CCXP — e talvez a forma dele pensar sobre entretenimento num geral, e de imaginar o background dele também… — e concordar em parte, pensei que talvez fosse uma boa compartilhar aqui um outro ponto de vista focando nas conclusões dele, e é isso que eu vou fazer por aqui.

Para começar, gostaria de propor uma reflexão. O que é nerd para você? O que é ser nerd? E a tal cultura nerd, o que a define?

Imagino que, excluindo as nuances entre um ponto de vista e outro, o grosso da ideia geral deve culminar num mesmo resultado: uma lista de itens de consumo (cultural), junto de uma série de memórias pessoais e adquiridas relacionadas a eles; um arquétipo desenhado com base em comportamentos sociais e objetos de entretenimento.

Você deve ter pensado na galera que curtia quadrinhos, desenho animado, videogames e hominhos. A galera diferentona, que não era parte do pessoal descolado e mais famosinho do colégio. O povo que era (ou se julgava) mais esperto que uma massa da qual não fazia parte — povo que, num sentimento dúbio, acabava criticando enquanto também queria fazer parte dela, se ver aceito de alguma forma. As pessoas nerds eram aquela galera inteligente e estranha que andava sempre junta, que não se misturava, e que usava o intervalo da aula ou a hora da educação física para jogar RPG e discutir a ausência da armadura de ouro de serpente nos Cavaleiros do Zodíaco.

Acertei? É algo por aí?

A meu ver, o conceito de nerd, para quem viveu os anos 80 e 90 — e para quem aprendeu a ser nerd com esse povo, e para quem é dessas de sentir nostalgia por tabela… —, costuma cair meio que nisso aí. O estereótipo é de uma pessoa — normalmente um cara, homem e branco, porque infelizmente o preconceito ainda é forte na comunidade — esquisitona, inteligente mas socialmente atípica, que vivia curtindo e falando de umas nerdices, e que se isolava do mundo com o seu grupinho de nerds locais. E é normal ver muita gente por aí que ainda pensa assim. Era o lugar seguro para muitos que sentiam que não se encaixavam nos padrões. Ainda é o refúgio de muita gente cheia dos preconceitos. Vários viveram essa realidade e ainda se enquadram no estereótipo. Quase nenhum gosta de (ou consegue) largar o osso.

O fato é que, independente do que o termo significava originalmente e do que foi entendido como comportamento do suposto nerd-referência ao longo do tempo, essa cultura esteve calcada no consumo desde quase sempre. O que o tal nerd assiste, lê, joga, pratica ou escuta, não só sempre fez parte dos assuntos dessa comunidade, como a definiu por muito tempo.

Lembra do clássico “Magic é coisa de nerd” e suas variáveis? “D&D é coisa de metaleiro satanista”? Pois é disso mesmo que eu estou falando.

Então, só por isso, já acho que dá para dizer com certa confiança que consumir faz parte. Nerd é sommelier de entretenimento, e só é degustador quem consome. O consumo não se tornou algo importante do ser nerd: ele sempre foi.

Dito isso, vamos para a próxima questão: as discussões sobre a qualidade das nerdices sumiram mesmo? Ser nerd, hoje, se resume a consumir?

A resposta, simples (e, para mim, óbvia) é não.

Veja, nunca antes se teve tanto conteúdo variado sendo produzido oficial e não oficialmente sobre qualquer produto. Sabe o Pantera Negra? Se tivesse sido lançado há uns 10, 15 anos, ele provavelmente seria um filme em destaque por um tempo e só. Você veria o trailer, talvez algumas matérias em revistas, e discutiria pouco além do “vai ser legal ou nem?” com seus amigos. Talvez discutisse quais heróis iriam ou não aparecer no filme. E aí, se fosse bom, teria um pouco mais para falar — no máximo daria assunto entre acadêmicos e gente de cinema.

Mas hoje, em grande parte graças ao avanço tecnológico e às mudanças sociais promovidas por ele, o filme previsto para 2018 já gerou discussões importantíssimas para a nossa sociedade desde seu anúncio. Artigos e comentários sobre seu elenco composto quase que inteiramente por pessoas negras, além de inúmeras publicações sobre a relevância do filme para o universo Marvel dos cinemas em si, foram surgindo aos montes. A discussão, por causa das redes sociais e do esforço extra da mídia (ainda vou chegar nele), se tornou muito maior e mais profunda para assuntos envolvendo o filme dentro e fora das telas. O papo ficou mais interessante, rico e importante.

E mesmo considerando apenas os debates “de sempre” — se o filme é bom ou não; se o elenco se qualifica; se o diretor manda bem; se o roteiro parece fiel à obra; as entrevistas; etc. —, e excluindo o que envolve o “politicamente correto” do qual tanta gente (ainda desinformada; teimosa; preconceituosa; talvez burra) ainda reclama, é possível que, numa busca rápida no Google por qualquer tema do entretenimento, seja possível notar que as discussões sobre entretenimento ocorrem com mais frequência do que nunca.

Hoje existem, para todos os assuntos possíveis, inúmeros portais, blogs, canais no Youtube, fóruns e grupos dedicados a fomentar os debates, a enriquecer esses produtos culturais com informações, análises críticas e pontos de vista. Ao contrário de antigamente, em que poderia rolar até uma vergonha de comentar sobre os X-Men em público e que o conhecimento estava nas mãos de quem “leu mais para poder falar”, hoje qualquer um pode dar seu próprio pitaco no assunto para o mundo todo ouvir, independente do quanto entende do tema, quando e onde quiser. E isso, num geral, costuma ser ótimo: o papo se torna mais amplo e inclusivo, e todo mundo se diverte ainda mais.

Essa abertura para todo mundo falar o que quer, aliás, tem mais a ver com a hype do que os ~marqueteiros modernos~ citados no texto. Um dos principais motivos para ter assuntos específicos gerando muita ansiedade e sendo debatidos à exaustão é que expor e consumir opiniões nunca foi tão fácil, rápido e comum. Claro, a publicidade tem achado suas formas de se aproveitar disso, e com certeza tem sua relevância na coisa toda — vide o caso do Harlem Shake. Mas pode ter certeza de que Guerra Civil e Batman Vs Superman viraram assuntos da vez muito antes de qualquer ação ser tomada pela galera do marketing da Marvel ou da DC: foi só falar os títulos e PÁ! Todo mundo que é nerd já associou aos quadrinhos e começou a especular loucamente sobre esses filmes.

Ok, e todos os produtos lançados, a divulgação de teasers, a inserção de easter eggs, as Comic Cons da vida? Tudo isso é tão ruim assim? As empresas responsáveis por tantos produtos merecem mesmo ser criticadas?

Tudo bem, existem diversas ideias e propostas contra o consumo como ele é hoje. Existem questões muito maiores do que o que debatemos aqui que provavelmente justificam acusar essa cultura de incentivo à compra. Mas, falando especificamente da cultura nerd, de quem sempre quis fugir e de se encontrar através de histórias de mundos de fantasia e realidades paralelas, é tão ruim assim ter cada vez mais livros e séries e coisas assim para curtir? Ou será que a reclamação aqui é contra a popularização de algo que já foi um Clube do Bolinha? Tá que tem hora em que os estúdios pesam a mão e revelam muito mais do que precisam nos trailers, ou até que nos enganam com falsas promessas. Mas não dá para negar que falar sobre o que está para ser lançado e sobre o que se consumiu é gostoso, seja falando bem ou mal.

Sei que muita gente pensa que, quando uma coisa se torna mainstream, ela estraga. Que diz, por exemplo, que os roteiros estão ficando mais burros para tornar os filmes acessíveis e chamativos para um público mais amplo. Será mesmo? Eu já acho que o aumento de filmes mais simples e diretos ao ponto refletem uma crescente nas produções. Que, quanto mais filmes sendo feitos, mais filmes fracos vão aparecer também. Só que o mesmo vale para filmes bons.

Eu gosto de pensar que, quanto mais gente curtindo, a tendência é ficar mais legal. Claro, vão ter os que entendem muito de um assunto, que vivem aquilo, e os que conhecem muito pouco e gostam bastante mesmo assim. Mas com tanta gente curtindo, sei lá, Death Note, é mais provável que rolem cada vez mais adaptações, mais mangás do Tsugumi Ohba (o autor), mais histórias inspiradas por essa obra… Entende onde eu quero chegar?

Será, então, que dá mesmo para afirmar que a tal cultura nerd está acabando? Que, por que ela tem sido mais e mais difundida, consumida, debatida, ela está com seus dias contados?

Ok, o consumo está ainda mais presente nessa cultura agora, e eu entendo o receio que dá quando a indústria começa a fazer parte demais da arte que a gente gosta. Também dá para entender o preciosismo de quem zela por suas obras favoritas e por sua tão amada comunidade, seu lugar seguro. Afinal, para muita gente, é desse lugar que vem a diversão, a fuga da inadequação, o sense of belonging. Mas dizer que a cultura nerd está acabando? Isso não mesmo. E sinceramente, ser nerd nunca foi tão fácil e divertido.