Planeta dos Macacos: A Guerra é uma aula de história

Além das telas, o filme é uma reflexão sobre o passado e o futuro da nossa espécie
por: 14 de agosto de 2017
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Planeta dos Macacos é para mim uma das melhores franquias e uma das melhores histórias já contadas no cinema, televisão e livros. Gosto dessa premissa de “e se os homens fossem extintos e dessem lugar à uma geração de macacos grandes com inteligência superior?”, pois ela nos faz pensar diretamente em possibilidades e consequências — e se estamos mesmo seguindo o caminho que a narrativa se propõe a contar.

Mas tem outra coisa que me ganha nessa trilogia mais recente. Ela é um experimento científico, do começo ao fim. Os novos longas nos permitem avaliar, em um curto período de tempo (algumas décadas na cronologia da história), a evolução dos macacos. Algo parecido com o que aconteceu com nós, Homo sapiens, em algum momento distante do passado. Os filmes acabam sendo uma aula de antropologia — ou de “simiologia” —, mesmo que você não tenha se dado conta.

AVISO: esse texto contém spoilers da trilogia reboot Planeta dos Macacos, em especial, do filme Planeta dos Macacos: A Guerra.

“Your son will know who his father was, and will know what Caesar did” foi a frase mais significativa de Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes, no original), e o exemplo perfeito do que estou querendo te dizer.

Ditas pelo incrivelmente expressivo Maurice — que pela primeira vez vocaliza suas palavras, ao invés de usar a linguagem de sinais — nos momentos finais de PdM: A Guerra, essas palavras vão além de uma simples demonstração de compaixão e fidelidade à um amigo querido prestes a morrer. Elas são a prova de que aquele grupo de indivíduos superou a barreira final entre animais inferiores e animais inteligentes e organizados. Eles agora são capazes de contar sua própria história, e isso significa muita coisa.

Mas vamos falar um pouco sobre os filmes e depois vamos voltar à ciência para entender isso.

Os cavalos não parecem ter se importado com seus novos mestres símios.

Planeta dos Símios. Essa seria um nome mais correto para o filme, se quiséssemos ser precisos quanto ao significado abrangente de ape. Mas esse termo com certeza não tem tanta graça quanto macaco, que é a tradução que temos e que, tecnicamente, não está errada. Digamos que macaco seja a palavra informal — monkey é até usada como palavra pejorativa no filme — e símio a palavra formal para denominar o grupo de mamíferos hominídeos mais próximos do Homo Sapiens: chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos. Se você assistiu ao filme, deve ter reparado que eles todos estão lá, representando seu grupo.

Esses grandes primatas, que dividem entre 97% a 99% de seu DNA conosco, são impressionantes por si só. Podem se reconhecer nos espelho e podem aprender o básico de linguagem de sinais.

São capazes de usar ferramentas para determinadas tarefas — pegar cupins com uma vareta, abrir frutas duras com pedras, usar pedaços de pau para medir a profundidade de um rio para não se afogar — e de transmitir esses conhecimentos às próximas gerações através de um tipo próprio de cultura. São capazes até de passar no teste de permanência do objeto, a noção que temos de que objetos continuam a existir mesmo que não possamos vê-los, ouvi-los ou tocá-los.

Pode parecer algo simples, mas ao rir do truque bobinho no vídeo acima, o orangotango prova sua inteligência. Duvida? Tente fazer isso com um cachorro e você vai entender.

São animais bastante inteligentes e é pura ignorância nossa não reconhecer isso da maneira correta. A trilogia reboot de PdM serve para mostrar que macacos e humanos não estão tão distantes assim uns dos outros e, para isso, se utiliza de um negócio que nós curtimos muito: a ficção (ainda vamos voltar nisso mais pra frente).

O vírus fictício ALZ-112 — tema central do filme Planeta dos Macacos: A Origem —, que foi desenvolvido para curar doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson, não só não cura nossas doenças como nos mata. Literalmente, nos extermina mesmo. Em símios, o vírus tem um efeito neurogênico — formação de novos neurônios no cérebro — fantástico e permanente. Com mais neurônios, mais conexões neurais. Com mais conexões neurais, mais esperto um indivíduo pode ser. Caesar, personagem principal e a cria de uma cobaia do ALZ-112, experimenta a sensação de ser a segunda geração de um chimpanzé senciente, e decide que seus semelhantes devem se tornar seus iguais — “…what Caesar did.”, nas palavras de Maurice.

O lance é que vírus “corrige” o espaço de inteligência entre essas espécies, que como falamos antes, é grande mas nem tanto. Ele coloca humanos sobreviventes, chimpanzés, gorilas e orangotangos, todos no mesmo patamar de cognição e capacidades, criando um cenário de competição pelo planeta Terra que não existia há pelo menos 10 mil anos.

Contudo, apesar de sua inteligência ser equiparável a nossa, os símios ainda tinham que aprender muita coisa. Pra que isso acontecesse, Caesar e seus companheiros precisavam se libertar definitivamente dos humanos. Só que, diferente do que você pode estar pensando ou do que o título desse longa sugere, os macacos sabem que não podem vencer os humanos em combate direto, e no filme eles se esforçam apenas para não serem levados junto pela destruição final causada pelos homens. Uma decisão sábia, digna de uma espécie inteligente.

Se você for ao cinema esperando ver uma guerra geral, não vai ser bem isso que você vai encontrar.

Durante os dois primeiros filmes acompanhamos a trajetória decadente da humanidade e finalmente, em PdM: A Guerra, seu fim fatídico. Seriamente debilitados por causa de sua própria criação, os homens deixam sua intolerância e burrice — os mesmos erros de sempre — colocarem um ponto final em sua história, permitindo assim que os macacos pudessem começar a escrever a sua própria.

Mas por que ter uma história e passar essa história adiante é tão importante? Precisamos voltar alguns milhões de anos no passado para entender melhor essa questão.

Ao invés de falarmos em “homens” ou “humanos” agora, vamos usar o termo sapiens para identificar nossa espécie em meio a outras. Isso porque, durante grande parte da história desse planeta, não fomos os únicos dos gênero Homo a habitar no planeta. Yuval Harari, em seu best-seller internacional Sapiens, Uma breve história da humanidade, afirma que diferentes ambientes e condições moldaram diferentes espécies de seres humanos.

Partindo inicialmente do continente africano por volta de 2 milhões de anos atrás, os humanos se espalharam por todos os lados. Na Europa e Ásia Oriental deram origem ao Homo neanderthalis. Já a Ásia Oriental foi povoada por Homo erectus. Na região da Indonésia haviam os Homo soloensis e, na Sibéria, os Homo denisova. Ainda na África, se desenvolveram os Homo rudolfensis, Homo ergaster e nós, os Homo sapiens.

Cada espécie tinha suas características próprias de físico, hábitos e personalidades, e todos eram seres humanos com cérebros extraordinariamente grandes — muito maior que a maioria dos animais —, convivendo dentro do mesmo período da história entre 2 milhões e 10 mil anos atrás.

Apesar de existirem muitos humanos espalhados pelo globo, seu impacto no ambiente era insignificante e eles ocupavam um lugar intermediário na cadeia alimentar. Dominar o fogo há 300 mil anos foi a primeira brecha significativa que separou sapiens e neandertais de outros animais. Por 2 milhões de anos os humanos tiveram cérebros grandes, souberam usar ferramentas e possuíram uma capacidade superior de aprender e de manter estruturas sociais complexas, mas apenas nos últimos 100 mil anos foi que o Homo sapiens saltou para o topo da cadeia alimentar, acima de seus próprios companheiros de espécie.

Tipo de imagem que transmite a ideia errada. De acordo com Harari, vivemos junto com nossos “irmãos” na pré-história.

Diferente do que somos tentados a pensar, não foi o tamanho do cérebro ou a força física que proporcionou aos sapiens alguma vantagem sobre os outros humanos e outros animais. Os Neandertais, por exemplo, tinham cérebros maiores, eram fisicamente fortes e até ganharam as primeiras guerras contra sapiens que não tinham absolutamente nada de especial, apesar de serem teoricamente idênticos a nós, sapiens atuais.

A ciência diz que os sapiens devem ter competido e perdido com outros humanos, assim como vemos os sapiens competindo com símios em PdM. Mas, ao sair da África novamente há 70 mil anos atrás, os sapiens começaram a dominar todas as outras espécies. Por onde eles passavam, as outras espécies humanas desapareciam.

De acordo com Harari, o Homo sapiens passou por uma Revolução Cognitiva, não coincidentemente, entre 70 mil e 30 mil anos atrás — e essa é a explicação mais provável para o sucesso da espécie.

Os sapiens começaram a criar usando suas capacidades cognitivas como nunca antes: barcos, lâmpadas a óleo, arcos e flechas, agulhas, arte e jóias, religião, comércio e estruturas sociais, todas são criações datadas desse período histórico. Mas o que mudou para que os sapiens fracotes, de repente, virassem gênios?

Ao que tudo indica, os sapiens começaram a pensar de formas diferentes e se comunicar com um tipo inédito de linguagem, tudo graças a mudanças nas conexões internas de seus cérebros. Nunca saberemos como isso aconteceu, se realmente aconteceu ou porque apenas nossos ancestrais passaram por essas mutações genéticas acidentais. O negócio é que foi essa nova e versátil linguagem que fez os sapiens serem capazes de consumir, armazenar e comunicar uma quantidade enorme de informações sobre o mundo a sua volta. A linguagem ajudou os sapiens a conquistar o mundo, literalmente.

E foi essa mesma linguagem, depois do ALZ-112, o maior presente dos sapiens aos macacos de PdM.

Maurice ensina à Caesar a linguagem de sinais. E repete o processo com os demais, preparando-os para mais conhecimento.

Os inteligentes macacos, após serem contaminados pelo vírus e passarem pelo processo de neurogênese, ficaram ainda mais inteligentes e, assim, se tornaram fisicamente capazes de compreender e de se aproveitar da versatilidade que só a nossa linguagem oferece.

Os neandertais eram inteligentes e tinham capacidades cognitivas elevadas, mas não desenvolveram uma boa linguagem, o que comprometeu seriamente sua organização como sociedade coesa e colaborativa. Já os símios de PdM aprenderam a nossa — seja por sinais ou seja por voz —, e isso possibilitou que eles se organizassem em um grande grupo, graças a uma dádiva singular que apenas uma linguagem multifuncional como a nossa poderia conceder.

E lembra que falamos de ficção lá em cima? Pois bem.

A partir da linguagem, foi possível aos símios — assim como aos sapiens milhares de anos atrás — desenvolverem mitos compartilhados. Crenças compartilhadas como Estado, dinheiro ou deuses, são o que ajudam grupos de indivíduos a colaborarem de forma coesa e organizada. Foram esses mitos que deram aos sapiens sua capacidade única de cooperar de modo dinâmico em grandes números. Um grupo de 100 sapiens altamente capazes de trocar informações sobre os mais variados temas, e que acreditassem firmemente em um mesmo ideal — agradar um deus, defender a honra de sua tribo, ou caçar um grande grupo de animais selvagens para se abastecerem para o inverno — eram muito mais eficientes que 100 neandertais inteligentes e fortes, mas desorganizados.

É precisamente o que vemos em PdM, evidenciado nas palavras e nos gestos de mãos unidas que os símios repetem durante o filme. “Apes… together… strong.”. O mito compartilhado é o que mantém inabalável o bando de Caesar.

Uma linguagem, um mito…

“Macacos… unidos… fortes!” Melhor que força física, apenas a força de um ideal.

… e uma história.

Quando ouvi Maurice dizendo à Caesar que contaria o que ele fez pelos macacos ao seu filho Cornelius, tudo fez sentido para mim.

Os símios não iriam mais apenas transmitir seus genes, seu modo de vida ou sua cultura simples aos seus descendentes. Eles agora tinham todas as ferramentas e o espaço necessário para transmitir sua própria história de sobrevivência e libertação para as gerações seguintes.

Transmitir história é importante porque é isso que possibilita o acúmulo de conhecimento. E acúmulo de conhecimento é o que faz de nós, sapiens, animais cada vez mais e mais inteligentes. Um processo que Isaac Newton resumiu perfeitamente ao afirmar que ele mesmo só chegou onde chegou porque se apoiou “nos braços de gigantes”. Somos todos compostos por histórias que herdamos de nossos antepassados e seremos um dia parte da história de nossos filhos, num acúmulo de conhecimento sem fim. Isso se não formos extintos sem deixar descendentes, claro.

PdM deve estar causando arrepios na sua espinha agora, certo? Em mim também. O homem é tão burro que prefere levar a si mesmo até a extinção, do que dividir seu império com outras espécies. Mas a história (e por que não a ficção?) serve ainda para outro propósito: impedir que cometamos os mesmos erros novamente.

Resta saber se seremos tão inteligentes para ouvir nossa própria história, como somos para criá-la.