O Coringa fez 75 anos de existência e, com isso, a DC Comics resolveu homenagear o vilão com capas variantes (isto é, ilustrações alternativas pra capa que são inclusas dentro do quadrinho). Como era de se esperar, a história do clássico A Piada Mortal serviu de inspiração pra muita gente – como é o caso de Rafael Albuquerque, artista brasileiro que causou um grande debate nas redes sociais com sua arte pra capa variante da Batgirl #41.

[AVISO: esse post contém spoilers!]

Pra quem não conhece, aí vai um breve resumo do que rola nesse clássico one-shot das HQs: o genial Alan Moore retrata um momento no qual Batman, notando que seu histórico com o Coringa levaria um dos 2 à morte, resolve visitar seu arqui-rival no Arkham pra tentar acertar as coisas pacificamente. Contudo, ao chegar lá nosso herói descobre que ele havia escapado e deixado um sósia em seu lugar. Fora do asilo, o Palhaço do Crime põe em prática um plano que busca mostrar a todos como um homem pode chegar à loucura sem muito esforço, e também mostrar o que uma pessoa louca é capaz de fazer.

Livre, o vilão resolve usar James Gordon como objeto de testes, tentando atingir psicologicamente o bom comissário.

Primeiro, ataca sua filha Barbara Gordon (a Batgirl, filha do comissário) invadindo a casa dela. Coringa dá um tiro que atravessa sua coluna cervical, deixando-a paraplégica. Com ela no chão, remove suas roupas e tira fotos dela nua. A cena é tão forte que, até hoje, muitos discutem se o Coringa chegou a estuprá-la. 

Em seguida, o vilão sequestra Jim, que acorda nu e algemado no que parece ser um túnel do terror de um parque de diversões. Lá, o Coringa mostra pro comissário as fotos que tirou da sua filha durante a invasão, fazendo com que ele surte.

A situação criada pra Barbara é tão traumática que afetou o resto do curso da sua história em inúmeras formas: além de deixá-la em uma cadeira de rodas, fez com que ela desenvolvesse traumas irreparáveis em relação ao vilão. É, de fato, uma das construções mais realistas que Moore já proporcionou pro universo DC.

Além de contar a origem do vilão, a história é recheada de cenas violentas, incluindo agressões físicas e mentais, todas muito bem trabalhadas com um enredo feito pra nos fazer pensar sobre os limites da loucura, sobre o impacto de agressões, etc. Pra quem nunca leu eu recomendo MUITO, porque é simplesmente genial.

Tendo isso em mente, parece muito coerente fazer uma capa usando essa história de pauta, não é mesmo? Digo, ela é uma das mais famosas representações de uma das maiores mentes criminosas dos quadrinhos, então por quê não usá-la de tema em uma homenagem?

UMA VÍTIMA QUASE REAL EM DESTAQUE

Pra responder à pergunta anterior, gostaria de analisar um pouco a capa do artista Rafael Albuquerque.

Batgirl #41 joker variant DC Comics withdrawn, art by Rafael Albuquerque

capa do artista Rafael Albuquerque para Batgirl #41

Como podemos ver, a cena da capa remete ao ocorrido com Barbara em A Piada Mortal.

Ela é feita de modo bem realista, tanto em sua composição pouco fantasiosa quanto no estilo do traço. É uma cena feita pra chocar, sem dúvida.

Nela, nosso vilão em pauta está armado com um senhor trabuco e parece ter rendido a heroína psicologicamente, pois ela não demonstra nenhuma tentativa de reação, além de estar com lágrimas e uma expressão de desespero enquanto o Coringa “brinca” com ela.

Apesar de ter uma arte de ilustração linda e ser uma composição incrível como homenagem para quem já leu A Piada Mortal e entende do contexto do vilão, essa imagem carrega um grande problema: ser uma cena forte de agressão à mulher retratada em traços extremamente reais.

Pra entender melhor o peso disso, é importante ter em mente que nenhuma pessoa é 100% neutra em relação às suas percepções. Isso significa que cada indivíduo interpreta suas experiências com certas predisposições e tendências que os faz processar informações sociais de formas diferentes.

Portanto, pra vítimas de casos de agressão e pessoas que entendem os problemas de violência doméstica e abuso à mulher (um número alto de pessoas, e que só vem crescendo), cenas realistas assim podem ter um valor imediato muito negativo.

UM PROBLEMA DE CONTEXTO

Ao tentar explicar essa questão de percepção social/semiótica para alguns conhecidos, me deparei com respostas como:

Mas todo mundo sabe que é uma referência à Piada Mortal, né?

Mas eu não sou sensível à isso. Eu não tenho esses traumas.

Mas eu não vejo nada de tão agressivo nesta imagem.

Pensando nisso, concluí que talvez seja necessária uma pequena explicação sobre contextos.

A capa está muito bem feita para o grupo segmentado de pessoas cientes de seu enredo (ou seja, não é “todo mundo”), que é o conjunto de pessoas que:

a) sabem quem é o Coringa e como ele é;

b) sabem que o terror psicológico, os sequestros e o “colocar sorrisos na cara” fazem parte dele, independente de quem é o atacado; 

c) conhecem a história dele deixando a Batgirl paraplégica (ou seja, que leram A Piada Mortal).

Digo que é muito bem feita porque esses elementos estão reunidos em uma única imagem, como uma boa homenagem deve funcionar.

Acima de tudo, como disse anteriormente, a cena remete a um abuso – e isso é, além de muito forte, uma percepção MACRO. Ou seja, significa que a refêrencia a um tipo de violência contra a mulher é percebida por um número de pessoas muito maior do que aquelas que entendem a representação na capa de uma situação contextualizada dentro do universo da HQ.

É importante compreender que o conjunto de pessoas que entendem esse macro e podem se sentir ofendidas ou afetadas negativamente de alguma outra forma é muito maior que o daquelas que entendem o contexto específico sob o qual a capa variante foi elaborada – e, por isso, é democrático optar por repensar a tal capa, como feito por Rafael e pela DC.

Além disso, o conteúdo da mesma não condiz com o atual foco da revista – que não apenas retrata uma Batgirl mais light, como é direcionada pra pessoas mais jovens (como já sinalizado pelo ilustrador e pela DC, garotas de 14 à 17 anos). São pessoas consideradas crianças e adolescentes, um público que, sem dúvida, não precisa ser exposto a esse tipo de material violento.

Batgirl-(InPost02)

capa da Batgirl #35: será que a variante problemática cabe no mood atual da revista?

“TIRAR A CAPA POR CAUSA DISSO É NEGAR PROBLEMAS DA SOCIEDADE!”

Primeiro, a violência contra a mulher não é um problema que pode ser negado por qualquer pessoa sensata. Segundo, optar por outra capa não é fechar os olhos: é entender que essa forma de agressão existe e que, como outros ataques a minorias, deve ser combatida. Mas a maneira como a ilustração pode ser interpretada por um público macro não contribui para isso.

Aí vale a explicação de duas coisas: o de minorias atacadas e o da recepção de mensagens em formatos diferentes.

Pra entender a primeira, basta pensar que estamos retratando aí uma mulher sendo agredida por um homem. Mulheres são agredidas por homens diariamente, e isso faz com que elas possam lembrar de más experiências de vida – tornando a mensagem ofensiva. Além disso, a imagem reforça a cultura da mulher fragilizada. Nada disso contribui pra desconstrução do problema.

Existem casos de mensagens que usam desse apelo mais realista pra chocar e fazer com que o público entenda um problema existente. Contudo, a forma da mensagem deve contribuir pra que essas pessoas saibam que devem reagir e como isso deve ser feito.

A relação conteúdo de capa VERSUS conteúdo dentro do roteiro é o segundo ponto que merece uma explicação.

Por mais que seja uma variante, um conteúdo em capa tenta vender um produto e, por isso, está exposto logo nas primeiras páginas de uma revista. Além disso, ele tenta exprimir em uma única imagem uma série de referências que sirvam pra que fãs, consumidores e leigos no assunto tenham uma noção básica do conteúdo de cada edição.

Já o conteúdo dentro do roteiro é aquele conjunto de páginas que formam a história, e que normalmente dependem de estar entrelaçados com outras páginas pra fazer sentido. Isso significa que ele está acessível apenas pra quem estiver disposto a ler aquela história e souber do contexto em que ela se situa – enquanto o outro tipo de conteúdo atinge qualquer um que vir apenas a imagem, carregando suas primeiras impressões.

A explicação desses conceitos serve para entender que optar por uma troca não é negar os problemas de abuso, mas sim saber o peso cultural e psicológico que a imagem tem e também que ela pode existir dentro da revista, caso se adeque à história da mesma.

“MAS AÍ FICA DIFÍCIL, NÉ?!”

Bom, na verdade nem tanto.

Uma opção é usar referências mais discretas pra trabalhar as mensagens que se quer passar. Inclusive, já é uma prática do mercado (pra quem tenta, pelo menos).

Uma forma que vejo de se fazer isso (e que, pessoalmente, gosto MUITO) é usando de composições mais abstratas. Temos diversos artistas que já o fizeram em suas capas, como é o caso de Brian Bolland, Chris Samnee, David Aja, Francis Manapul, Jock, John Cassaday, Marko Djurdjevic, Mike del Mundo e muitos outros. Acredito que a arte feita dessa forma até tende a ficar mais legal e interessante para os fãs, porque o prestígio fica nos detalhes, naquele lugar que só quem entende mesmo consegue ver.

Batgirl-(InPost03)

algumas capas de artistas que trabalham suas mensagens de modo mais subjetivo: segmentando para fãs através de composições mais abstratas e menos reais

E claro, outra opção é utilizar de um elemento forte do vilão e/ou de suas histórias mais famosas pra homenageá-lo. Vale lembrar que mesmo a consagrada A Piada Mortal possui inúmeras cenas clássicas que poderiam ser utilizadas pra interpretações menos sutis, mas de um modo que não possa gerar problemas como o da capa em questão.

Batgirl-(InPost04)

o nascimento do Coringa: um ótimo exemplo de imagem da A Piada Mortal que pode servir de referência para homenagens

“OK, ENTENDI O PROBLEMA E VI QUE HÁ SOLUÇÃO, MAS PRECISA DE TUDO ISSO MESMO?”

O meu raciocínio pra resolver essa questão é praticamente inverso:

Se existem tantas possibilidades criativas pra se homenagear uma personagem clássica, por que não fazê-lo de forma diferente?

Por que seguir com uma ideia que pode fazer mal e/ou ofender tantas pessoas?

Por que não optar pelo mais interessante para todos? 

Ou melhor:

Por que continuar insistindo com uma cultura que, consciente ou inconscientemente, segue machista, sendo que nós podemos mudá-la?