Desde que a emissora americana divulgou o trailer de Supergirl, diversos posts e vídeos estão sendo divulgados à exaustão debatendo o assunto.

Assim como qualquer série, filme, game ou HQ, o seriado está sujeito a análise e, cada pessoa, baseada em seu gosto pessoal, formará uma opinião. Até aí, tudo certo.

O problema é que o material divulgado dividiu opiniões: afinal, seria Supergirl uma série “pra meninas”?  O que diabos significa “série pra meninas”?

A AURA TEEN DA SÉRIE

Antes de entrar nessa questão, vamos olhar o trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=Lm46-envrHo

Vendo esses mais de seis minutos que misturam humor e ação, minha impressão é que a CBS pretende fazer com o seriado algo semelhante a reformulação editorial da DC para o título da Batgirl nas HQs. Com um clima teen, fotografia mais quente  e foco no humor leve, a emissora parece ter um público-alvo bem definido e vai tentar agradar sua audiência com os elementos do gênero.

Artigo_Supergirl-(InPost01)

E Kara é uma personagem com grandes chances de cair rapidamente nas graças do público. Melissa Benoist é engraçada e natural, e o papel de jovem desajeitada em um mundo que não é seu,  serve como uma luva para a carismática atriz.

A série tem uma vibe O Diabo Veste Prada, com a chefe de Kara sendo a responsável por mostrar o lado manipulador da mídia e fazendo a nossa protagonista questionar seu papel no mundo e sofrer com sua adaptação à ele. Afinal, ela não sabe nada sobre ser uma heroína.

Já o melhor amigo parece ser um dos potenciais interesses amorosos, mas fico feliz que ele tenha sido abordado mais como alívio cômico do que um clichê romântico. Contudo, tenho a sensação de que o verdadeiro par da heroína  será James Olsen, mas acredito que esse não será o foco do programa, e sim um de seus elementos.

O EFEITO SINGER-NOLAN

Ok, trailer visto e analisado. Acredito que tenham ficado bem claros os planos da CBS, certo? Uma série com o tom leve. E vocês não tem ideia de como isso me deixa feliz.

Acho extremamente interessante que eles estejam seguindo o caminho oposto do “realismo” que tentam impôr em tudo o que é live-action da DC.

Não me entendam mal, eu gostei bastante do Man of Steel do Zack Snyder e tenho muita fé que Batman V Superman – A Origem da Justiça será incrível. Assisto Arrow, e The Flash para mim é uma das melhores séries da atualidade. Acho até bom que exista essa diferença de tons entre os universos cinematográficos das editoras para termos visões e resultados diferentes. Mas se a Warner não planeja unificar cinema e TV, qual a necessidade de se fazer tudo igual?

A fotografia com cores quentes de Supergirl e afotografia fria de Man of Steel.

A fotografia com cores quentes de Supergirl e a fotografia fria de Man of Steel.

No ano 2000, Bryan Singer iniciou uma era de falso realismo no mundo dos super-heróis ao trocar os uniformes clássicos dos X-Men por roupas de couro pretas. Entendo que na época essa foi a melhor opção para que as personagens tivessem uma aceitação maior do público geral (convenhamos: quantas pessoas apoiaram os colantes na época da produção do filme?).

A diferença dos uniformes dos X-Men nos filmes e nos quadrinhos.

A diferença dos uniformes dos X-Men nos filmes e nos quadrinhos.

Anos depois, Christopher Nolan seguiu essa linha e fez sua versão do Batman que se tornou um sucesso absoluto. Bato palmas pela coragem do diretor de ter adaptado à sua maneira um personagem que já teve sua origem contada e recontada em mais uma mídia. Mas o sucesso de sua trilogia criou um tipo de fã que vai contra a essência dos quadrinhos: aquele que exige erroneamente realismo e tom sombrio em quaisquer obras de ficção.

Dito isto, vou reforçar: decisão acertadíssima da emissora ao deixar de lado esse tom pesado com fotografia fria do cinema para focar em uma audiência diferente. Kara é jovem, impulsiva e até ingênua, e adicionar excesso de drama e camuflar os efeitos em cenários escuros acabaria destoando do estilo de personagem criado pelo produtor Greg Berlanti.

TRAILER DA SUPERGIRL X SKETCH DO SNL

Alguns dias antes da liberação do trailer pela CBS, o Saturday Night Live fez uma sketch com a participação da atriz Scarlett Johansson, tirando sarro dos clichês clássicos de comédias românticas:

Esse é outro comentário que vi bastante pelos fóruns da internet sobre a Supergirl“Não vou ver. É igualzinho o sketch do Saturday Night Live”.

Não poderia discordar mais. Apesar da sátira utilizar elementos comuns de comédias românticas (e alguns deles terem certa identificação com algumas cenas da série), temos uma clara diferença de contexto aqui.

Grande parte da graça da sketch está no fato de ser protagonizado pela Viúva Negra da Scarlett. Vamos lembrar a construção dessa personagem? Uma espiã russa treinada para matar, que só se permitiu mostrar um lado mais emocional no filme mais recente da Marvel (algo que mencionei na review de Vingadores: Era de Ultron).

Entendem o meu ponto? Ao colocarem uma personagem com características opostas ao tema abordado na paródia, tudo soa mais engraçado e bizarro. Teria o mesmo efeito se colocassem a Anne Hathaway revivendo seu papel em O Diário da Princesa? Com certeza não.

“IT’S A GIRL SHOW!” – NÃO MESMO

Bom, vamos deixar bem claro: toda produção (seja série, filme ou qualquer outra) tem um público-alvo.

The Flash, por exemplo, que é do mesmo produtor e é da CW (canal com programas para o público jovem), tem classificação indicativa de 12 anos. Isso significa que a série é para crianças de 12 anos? A resposta é em caps lock: NÃO.

É natural que adequem o roteiro para que a classificação mínima possa assistir. Contudo, a série não é infantil e conseguiu fisgar pessoas de diversas idades.

Hoje em dia, a classificação de uma produção não define em totalidade o público. Animações como Adventure Time, Regular Show e Bob Esponja, por exemplo, são considerados desenhos infantis, mas frequentemente pessoas mais velhas pegam piadas e situações que passam despercebidas pelas mentes ainda ingênuas das crianças.

Adventure Time: um desenho para crianças?

Adventure Time: um desenho para crianças?

Essa mesma explicação é cabível para aqueles que julgam que Supergirl é uma série para meninas: mesmo que a CBS viesse à público para dizer que pretende atingir jovens garotas, não significa que pessoas como eu, um cara com seus 20 e tantos anos, não possam gostar da série. Muito menos que todas as meninas vão se identificar com o show.

Ter um romance, uma protagonista meio atrapalhada e um tom mais leve definitivamente não são as únicas maneiras de atingir esse público.

Mas a série é apenas isso? É tão simples assim?

A FORÇA DA SENSIBILIDADE

Não, não é tão simples. Quando escrevi a crítica da primeira temporada de Agent Carter, comentei que adoraria ver mais personagens femininas fortes em todos os tipos de produção. Não só mantenho e reforço esse comentário, como fico feliz por temos sido presenteados recentemente com a Furiosa, vivida por Charlize Theron em Mad Max: Estrada da Fúria.

Temos sim exemplos de mulheres fortes na TV atualmente: Annalise Keating de How To Get Away With Murder, Claire Underwood de House of Cards, Sarah, Helena e Allison de Orphan Black, Hayley de The Originals, Clark e Octavia de The 100, Alicia Florrick de The Good Wife, Carrie MAthison de Homeland, Cersei de Game of Thrones, Regina de Once Upon a Time, Michonne de The Walking Dead, Bobby e May de Agents of S.H.I.E.L.D, Root de Person of Interest, Olivia Pope de Scandal, entre outras.

Isso é o bastante? Como disse antes, não é. Se pensarmos no número de protagonistas mulheres X quantidade de séries e filmes no ar, a diferença, infelizmente, ainda é grande.

Dito isso, tem três pontos que gostaria de abordar.

Primeiro ponto: o fato da Supergirl ser retratada como uma garota desajeitada, que se anima para um encontro, testa uniformes e tem problema de auto-estima (relacionado a descobrir sua função no mundo) não são características exclusivas de uma personagem feminina.

Temos diversos exemplos no próprio mundo dos super-heróis, e nem precisamos sair da família El para isso. Tudo o que foi dito acima sobre Kara, se aplica perfeitamente à seu primo: Superman pode ser um dos maiores heróis do mundo, mas Clark Kent é um reflexo de como ele nos enxerga (lembram dessa quote em Kill Bill?).

Brandon Routh em SUperman: Returns, e Mleissa Benoist Em Supergirl: personagens desajeitados que independem do gênero.

Brandon Routh em Superman: Returns, e Melissa Benoist Em Supergirl: personagens desajeitados que independem do gênero.

O alter ego do kryptoniano é desajeitado, se apresenta com problemas sociais em algumas versões (como em Superman: Returns) e ainda tem seus momentos românticos quando Lois Lane entra em cena.

Segundo ponto: ser uma personagem cujo o lado emocional é desenvolvido, não faz de Kara uma mulher fraca e/ou frágil. Ela vai sair no braço com os vilões, vai salvar centenas de pessoas impedindo a queda de um fucking avião, e vai chorar após uma discussão com a irmã… E não tem nada de errado nisso, ok?

Momento clássico dos quadrinhos: Kara impede a queda de um avião, assim como o seu famoso primo.

Momento clássico dos quadrinhos: Kara impede a queda de um avião, assim como o seu famoso primo.

Terceiro ponto: nenhum personagem representa todas as pessoas de seu gênero. Mas  já pararam para pensar que alguém pode sim se enxergar representada pela personagem? Por exemplo: quantas pessoas tímidas (independente do sexo) também não se sentem deslocadas ou ficam animadas para um encontro, pensando no que vestir?

Artigo_Supergirl-(InPost07)

“PARA O ALTO E AVANTE”, GALERA!

Todo personagem abre espaço para que alguém se identifique com sua personalidade. O errado aqui é dizer de forma generalizada que a Supergirl não representa ninguém.

Artigo_Supergirl-(InPost08)

Com um humor mais leve, uma protagonista carismática e a característica parecida com a de The Flash de abraçar parte da essência dos quadrinhos, Supergirl é uma série que merece, no mínimo, uma chance e o benefício da dúvida.

Talvez a série não seja boa para todos, mas pode ter certeza de que ela pode ser para alguém.