Durante seu painel na CCXP 2018 em São Paulo, a Netflix exibiu o primeiro trailer completo da sua versão de Saint Seiya – Os Cavaleiros do Zodíaco:

 

E quem achava que o visual do anime seria o único e o maior problema da repaginação, infelizmente achou errado otário. Para a surpresa de todos, foi revelado que Shun, o cavaleiro de Andrômeda, agora é Shaun, uma mulher. E isso é um problema.

Antes de tudo, é bom deixar claro uma coisa: o motivo pelo qual acredito que a mudança de gênero de Shun seja um problema passa bem longe do pensamento machista e simplório do fã que afirma aos berros que sua infância foi destruída por conta disso.

Aqui no Metagene já demonstramos e reforçamos por diversas vezes nosso compromisso ao combate contra todo o tipo de preconceito. Seremos sempre à favor da diversidade e representatividade na cultura pop.

Dito isto, vamos ao que interessa. Após a divulgação do trailer e as reações dos fãs, Eugene Son, roteirista do anime, utilizou sua conta no Twitter para explicar as mudanças da nova versão em relação à obra original e, entre elas, a decisão de transformar Shun em Shaun. É importante incorporar neste texto as palavras dele.

Segundo Eugene, a ideia surgiu da vontade de atualizar o anime em reflexo da nossa sociedade atual:

“Quando começamos a desenvolver essa nova série atualizada, queríamos mudar pouca coisa. Os conceitos principais que fazem de Cavaleiros uma série tão amada são muito fortes. A maioria deles se sustenta mesmo 30 anos depois. Mas a única coisa que me deixava preocupado é: o Cavaleiros de Bronze que acompanham o Seiya são todos homens. A série sempre teve personagens femininas fortes, que reflete o enorme número de mulheres que são apaixonadas pelo mangá e anime. Há 30 anos, ter um grupo de homens lutando para salvar o mundo sem nenhuma mulher por perto não era um problema. Esse era o padrão. Hoje o mundo mudou. Homens e mulheres trabalhando lado a lado são o padrão. Estamos acostumados a ver isso. Certos ou errados, o público poderia interpretar que uma equipe completamente masculina fosse algum posicionamento passado por nós. E talvez há 30 anos ver mulheres lutando entre si não era algo ruim. Mas hoje? Não é o mesmo.

Ok, então o que fazer? Nós pensamos muito. Existem várias personagens femininas no anime e mangá. Marin e Shina são incríveis. Mas as duas já são muito poderosas — e ninguém quer vê-las se transformarem em Cavaleiras de Bronze. Pegamos uma personagem que já existe, como Sienna, Shunrei ou Miho, damos poderes a ela e a transformamos na nossa própria April O’Neil? Ou criamos uma nova personagem para se unir ao time? Mas eu não queria criar uma nova personagem que se destacaria e ficaria óbvia — especialmente se ela não é criada naturalmente e não tem uma personalidade além de ‘ser uma garota’”.

Sobre a escolha do cavaleiro de Andrômeda, o roteirista ainda completa dizendo que “todos concordam ser um personagem incrível. Então, e se o original fosse Shun de Andrômeda e a nossa interpretação fosse Shaun de Andrômeda? Quanto mais desenvolvíamos isso, mais víamos potencial. Um grande personagem com um grande visual. Os conceitos principais de Andrômeda não vão mudar. Ela usa as correntes para defender a si mesma e aos amigos – algo que ela aprendeu com o irmão protetor que a ensinou a lutar. E os maiores fãs de Cavaleiros sabem o que acontece com Andrômeda enquanto a série se desenvolve. Como seria aquilo com uma mulher como Andrômeda. Acho que será interessante de ver. Mas eu sabia que seria controverso. Não vejo isso como uma mudança de personagem, o Shun de Andrômeda original ainda é incrível. Isso é uma nova interpretação.”.

O interessante da explicação de Eugene — vocês podem conferir o texto original aqui — é que, até certo ponto, ela faz muito sentido. Cavaleiros do Zodíaco é um anime com pouco mais de trinta anos, e se for para apresentá-lo para uma nova geração, é extremamente importante e necessário que a obra seja atualizada para conversar melhor com este público e que reflita os valores da nossa sociedade atual — She-Ra e as Princesas do Poder, da própria Netflix, fez isso com excelência!

A ideia de termos uma mulher entre os protagonistas é boa, e eu adoraria ver qualquer um dos cavaleiros principais em uma versão feminina. Todos. Menos o Shun.

A intenção foi boa, mas escolheram a única opção que não deveriam…

O cavaleiro de Andrômeda é o protagonista que mais destoa dos demais. Ao contrário de seus amigos — e especialmente ao contrário de seu irmão, Ikki de Fênix — Shun não gosta de lutar. O jovem evita ao máximo entrar em confronto, e demonstra constantemente ser um cara sentimental, sensível, puro e pacifista. E não vamos esquecer: tudo isso mesmo com o espírito de Hades, o Deus do inferno em seu corpo!

Sua personalidade somada ao seu jeito mais afeminado e a estética do personagem — a primeira armadura do anime tinha seios e era da cor rosa — tornaram o personagem alvo constante de piadas homofóbicas ao longo dos anos. Inclusive, por conta disso, diversos meninos que cresceram assistindo ao desenho se sentiam intimidados em dizer que o Andrômeda era seu personagem favorito. Afinal, isso era “coisa de viado”, não é mesmo? =s

No entanto, nunca foi oficialmente estabelecido dentro da série a orientação sexual do personagem. E para mim, isso o tornava ainda mais legal. É claro que gostaria que existisse um personagem LGBT oficializado no universo de Saint Seiya — assim como gostaria de ver mulheres e negros tendo papéis mais importantes na história. Contudo, acho importante que esse personagem não seja o Shun.

A famosa cena da Casa de Libra até hoje é motivo de piadas preconceituosas contra o personagem

Uma das coisas mais interessantes do Andrômeda, é que ele quebra o estereótipo dos personagens do sexo masculino — e não apenas em seu anime, mas na cultura pop em geral. Shun demonstrava que existem diversos tipos de masculinidade, e representava todos os meninos que também eram como ele: mais sensíveis, e com personalidades que fugiam do que a sociedade considerava — e considera, infelizmente, até hoje — a padrão de um homem.

Ou seja: é extremamente problemático que, entre os cinco protagonistas, escolham justamente o Shun para transformar em uma mulher: o mais sensível e afeminado entre todos os cavaleiros de bronze e que sempre foi alvo de piadas por conta disso. A mensagem que é passada com a decisão é a de que eles estão “corrigindo” um comportamento inadequado; como se um homem não pudesse ser sensível e afeminado sem ser considerado homossexual, e que essas características só possam ser atribuídas às mulheres — o que também é um discurso bem ofensivo para o sexo feminino, vamos combinar. Qual o próximo passo? Um remake de Sakura Card Captor com o Yukito sendo uma mulher e tendo um relacionamento mais explícito com o irmão da protagonista do que foi no original?

Shun tinha seu próprio jeito de demonstrar sua força , e isso fazia do personagem algo único

Existiam diversos caminhos para renovar CDZ. A criação de uma nova personagem feminina ou a escolha de outro protagonista para mudar o gênero seriam opções bem interessantes. Já imaginaram, por exemplo, uma amazona de Fênix como vilã e líder dos cavaleiros negros voltando da Ilha da Rainha da Morte gritando “CHEGA DE SENTIMENTALISMO!”? Ou uma amazona de Dragão que, assim como Shiryu, teria um relacionamento com a Shunrei?

É uma pena que, no fim, o caminho escolhido tenha sido o da pior opção. Pode até ser que as intenções de Eugene e dos outros responsáveis pela nova versão fossem boas, mas isso não muda o fato de que tomaram uma péssima e irresponsável decisão.