A Paramount Pictures soltou na última quarta-feira (21/09/16) não um, mas CINCO teasers da já polêmica adaptação de Ghost in the Shell (O Fantasma do Futuro, no Brasil) para o cinema hollywoodiano, e finalmente temos algo sólido para falar sobre ela.

Eu poderia começar falando tudo o que eu pensei e senti com eles. Mas, ao invés disso, vou tentar falar um pouco de cada teaser para depois dar a minha opinião sem muitos detalhes, porque talvez minhas impressões estejam exageradas para apenas cinco vídeos curtos — provavelmente por ser um grande fã do mangá original, do anime de 95 e de outras obras da franquia.

Enfim, vamos lá:

TEASER #01: GUEIXA-ROBÔ

O primeiro teaser já foi um grande choque para mim, pois vemos nele um robô parecido com uma boneca gueixa que mostra referências claras ao filme O Fantasma do Futuro 2: A Inocência. Na animação temos o hacker Kim, que assume em alguns momentos a forma de uma boneca gueixa — possuindo robôs no mundo real, ou mudando sua própria aparência para o de uma pequena boneca no mundo virtual.

A pequena gueixa, uma das formas virtuais do vilão de O Fantasma do Futuro 2.

A gueixa robótica, uma das formas do vilão de O Fantasma do Futuro 2.

A estética da boneca — algo pouco explorado no teaser, mas que já foi mostrado em exposições do material do filme — reforça a referência, já que o corpo da boneca se assemelha muito à estrutura dos ciborgues em Innocence.

O teaser foi ainda mais surpreendente para mim porque, além de mostrar que a trama não deve traduzir apenas a história do mangá ou do anime de 1995, pode já ter exposto (em parte) algo que foi uma das surpresas na animação que serviu de referência.

TEASER #02: DESCONECTANDO

Aqui temos uma cena clássica do anime reproduzida quase que em total fidelidade à obra original. Vemos a Major Kusanagi (Scarlett Johansson) “acordar” em seu quarto escuro e vazio, que então se desconecta de alguns fios.

Cena do Fantasma do Futuro (Ghost in the Shell) de 1995.

Cena do Fantasma do Futuro (Ghost in the Shell) de 1995.

Apesar da reprodução muito fiel, existem alguns detalhes diferentes — pequenos, porém importantes —, os quais eu vou comentar depois.

TEASER #03: “O QUE É VOCÊ?”

Reflexões sobre identidade e sobre o que é a vida são temas muito presentes em Ghost in the Shell, e este é o teaser que toca com clareza no assunto. Com apenas uma pergunta — “o que é você?”, acompanhada de um olhar desconfiado, mostrados logo após a protagonista demonstrar fascínio, curiosidade e/ou algum tipo de interesse (talvez sexual) pela outra personagem —, o vídeo parece trazer esses questionamentos para a nova obra, e já expõe a natureza não humana da personagem de Scarlett.

TEASER #04: ANALÓGICO

Aqui vemos mais uma pista das misturas de referências que o Ghost in the Shell trará.

No teaser, vemos Aramaki (Takeshi Kitano), chefe da Major Kusanagi, descarregando uma arma não tão avançada (uma Magnum, aparentemente), mostrando a mistura de elementos do passado e do futuro, do analógico e do digital, presente em todas as obras da franquia.

Togusa e sua arma.

Togusa e sua arma.

O mix de referências fica por conta da arma: no filme de 95 e em outras obras, o personagem que costuma trazer elementos mais distantes da tecnologia — e que, inclusive, é conhecido entre fãs por sua arma mais simples — é Togusa, que é o único da equipe da Major que não possui nada de cibernético nele além de implantes no cérebro.

TEASER #05: TECNOMANTRA

O último dos teasers pode sugerir algo de novo na franquia — em parte, pelo menos.

Na cena, Kusanagi aparentemente investiga um local, até que se depara com um grupo de pessoas vestidas como monges ligados por cabos.

O tema, apesar de comum em GitS — a humanidade totalmente conectada, o contraste entre religioso e científico… —, vem com uma estética um pouco fora de convencional e parece tocar diretamente na questão da religião, e pode indicar caminhos novos para a história e para a direção artística do filme.

O QUE TIRAMOS DISSO?

Vamos concordar, antes de mais nada, que teasers, diferente de trailers, servem para passar o mood do filme, dar pistas mais subjetivas sobre ele e, no caso de uma obra inspirada em outra grande obra, mostrar para fãs e entendidos do assunto como certos elementos do original serão tratados. E eu vou me basear apenas neles para falar do longa, já que o resto das imagens que temos são de fotos vazadas, sem confirmações do que estará ou não na obra oficial, ou de que sequer representam o conceito geral do que será o novo Ghost in the Shell.

O mood passado pelos teasers me parece dentro da proposta moderna de futuro clean de Hollywood (vide Ultravioleta, Æon Flux, Equilibrium…) — o que, apesar de poder funcionar para uma adaptação (principalmente para o “público geral”), destoa muito do universo cyberpunk e das propostas da obra original e de sua primeira adaptação para os filmes. Tudo é limpo e simétrico e “tons de branco, cinza e preto” e futurista demais, sem aquela mescla com cores, com seres vivos, com elementos do nosso passado e presente e com tudo mais que é característico da franquia.

Um bom exemplo disso é a reprodução quase idêntica à cena da Major acordando. Enquanto no teaser temos apenas a impressão de uma casa vazia, cinza e hiperconectada, no original vemos pelo menos dois elementos que seguem presentes no filme todo: o contraste de luz e sombras (a luz do lado de fora da casa, e as sombras dentro), e o natural sendo tomado pela construção humana (no caso, representado pela visão da janela o quarto, que mostra um céu limpo e bonito sendo tapado por uma infinidade de prédios). Também parecem faltar duas das cores mais usadas no anime, que são o azul e o verde, utilizadas frequentemente nas animações e outras obras coloridas para indicar o que é computadorizado, provido de energia elétrica, e também para brincar fazendo o mundano parecer divino muitas vezes.

As referências — trocadas, misturadas, traduzidas sem elementos clássicos da obra nelas… — pouco ajudam àqueles que entendem do original, servindo mais para confundir ou talvez até para deixar impressões nada otimistas sobre o filme.

Por fim, as mensagens passadas nessas cenas — que, a meu ver, estão concentradas nos teasers #3 e #5 — indicam que alguns dos temas da obra original estarão presentes no filme, e que sua história, apesar de contar com referências de produções anteriores da franquia, deverá ser algo novo — o que não deve surpreender a nenhum fã, já que Ghost in the Shell possui inúmeras “releituras oficiais” do mangá em seu histórico.

Os teasers da versão live-action de O Fantasma do Futuro estão muito bonitos, e é nítido um esforço em produzir o filme. Contudo, a ausência de características sempre presentes na franquia e os indícios de uma história nova me fazem pensar, mais uma vez, se Ghost in the Shell será bom, e se a obra precisava mesmo dessa adaptação para o cinema.